segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

 

E por falar na Fatídica Ponte


 

O dia se fez macambúzio. Havia um estranho silêncio. Os passarinhos que costumam saudar festivamente as auroras, emudeceram. Apesar de toda bela luminosidade do alto verão havia uma certa invisível sombra que se sentia. Sem dúvida, havia um mau presságio no ar que logo se confirmou ao ver as primeiras manchetes do noticiário: “Concessionária começa obras da ponte Salvador-Itaparica...” “Iniciado trabalho de sondagem para identificar características do solo onde será montada a fundação da Ponte Salvador-Itaparica”.

Então a desgraça da Ilha de Itaparica vai mesmo se concretizar? Claro que a construção da ponte ligando Salvador à Ilha já fora anunciada como certa, mas como a esperança é a última que morre, esperava-se que não se concretizasse nunca, não apenas pelo bem da Ilha como da cidade da Bahia. Itaparica vai virar mais um bairro favelado e Salvador será mais ainda descaracterizada com a construções de mais viadutos e destruição de área emblemática da cidade baixa, da Calçada com seu belo histórico prédio da estação ferroviária até a Água de Menino. Tudo isso sem falar do impacto ambiental no mar.

Terrível o que acontece por aqui. Toda cidade antiga que se preza, procura conservar ao menos seu centro histórico. Paris, Amsterdã, Roma e tantas outras, inclusive as brasileiras Ouro Preto, Tiradentes e, até a baiana Mucugê são famosas, são atrativas porque souberam se conservar históricas e formosas. Será que teriam o mesmo encanto se tivessem se enchido de arranha-céus e viadutos? O que se fez e se continua fazendo por aqui é crime porque se destrói a cultura e burrice desmedida porque se enfeando mata o turismo. 


 

Salvador é a primeira cidade do país. Uma cidade medieval fortificada, planejada e fechada por algumas portas, construída numa escarpa sobre o mar, tendo uma topográfica maravilhosa. Até hoje é espetacular quando vista do mar com suas muradas de pedras ladeando ladeiras que descem em direções opostas, se sobrepõem e se encontram em alguns pontos. Além disso pode-se dizer que a cidade da Bahia é o local exato onde nasceu a nacionalidade brasileira e portanto, não deveria ter sido tão transfigurada. Foi aqui que nasceram os primeiros mestiços, filhos da nativa Catarina (provavelmente oriunda da Ilha de Itaparica, já que era filha do cacique Taparica, o maioral da Ilha) e do português Diogo Alves Correia, Caramuru, o primeiro casal oficialmente casado. Como pode uma cidade tão significativa ser hoje essa horrível mistura de ruínas, viadutos, edifícios altos e favelas? E não satisfeitos ainda querem piorar mais ainda.


 

Já a Ilha, apesar das adulterações sofridas, ainda salvaguarda um pouco da sua história, tradições, patrimônio arquitetônico, praças arborizadas, áreas verdes, modo de vida comunitário, algum sossego e certo fascínio. Mas tudo está agora com dias contados, pois juntamente com a ponte virá a multiplicação da população e devastação das áreas verdes ainda restantes, construção de casas, puxadinhos, prédios sem critério, aumento da violência, do barulho e da poluição da terra e do mar... Se com toda dificuldade de travessia, hoje, a ilha já fica superpovoada e insuportável no verão e feriadões, é fácil imaginar o que vai acontecer com a facilidade da ponte. Logo a demora de embarque será transplantada para os engarrafamentos na ponte e muita gente, ao se espremer dentro dos ônibus superlotados, terá saudade dos ferrys e lanchas. Bem disse um antigo pescador da Ilha de Maré numa entrevista: “Onde o progresso chega, a desgraça vem atrás”.

    Sim, o dia se fez sorumbático. Como admitir a existência de um tremendo corpo estranho feito de aço e concreto a macular a bela histórica Baía de Todos os Santos? Como aceitar que os corações continuem empedrados e os ouvidos moucos após tantos alertas quanto às malignas consequências dessa ponte? Não só alertas, mas também desesperadas súplicas como as feitas pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, além das sensatas alternativas apresentadas por altamente qualificados urbanistas. Para onde vai esse mundo em que os governantes desrespeitam os mais sábios e simplesmente ignoram os protestos, os apelos, as contribuições oferecidas pela sociedade? Até quando seguirão desprezando o bom senso, passando por cima de tudo e fazendo o que bem querem, sempre priorizando o dinheiro em detrimento à qualidade de vida das pessoas e mesmo a preservação do Planeta e a sobrevivência da espécie humana?

    É, lamentavelmente o dia se fez soturno e assim continuará sendo por outro e muitos outros dias enquanto durar a construção e depois, mais ainda, quando os olhos se depararem com a monstrenga anomalia sobre a ex-bela Baía de Todos os Santos e quando a sedutora Itaparica, como a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, for apenas uma fotografia na parede, ou computador, a doer na alma de quem a conheceu outrora.

 



 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A sina itaparicana

Aqui vou eu também cumprindo a mesma sina de João Ubaldo Ribeiro. Sina contada por ele em tocante crônica. A sina de sempre voltar à Itaparica e se render de muito bom grado ao seu fascínio. Um não sei quê a nos fazer diferentes. Bem entendo o que Ubaldo quis dizer quando escreveu:  “...minha vida, meu pensamento, meus sentimentos e até minha maneira de ver e falar mudam assim que chego, mistério que nunca entendi direito. Passei boa parte da infância na ilha, na casa de meus avós maternos e no meio da vastíssima parentela de todas as extrações. Mas não fui criado lá. Contudo, não sei por quê, é a terra que me prende, da qual nunca me esqueço, onde sempre me sinto bem, onde julgo entender coisas que em outros lugares não entenderia.”  No meu caso o mistério é ainda maior pois nem nasci nem passei a infância em Itaparica.

Não adianta buscar explicação. É mistério e pronto. Basta saber, mais que isso, sentir, que, ainda usando as palavras de João Ubaldo, “é sempre bom voltar e é sempre, com perdão pelo lugar-comum que, aliás, nem quero evitar, uma emoção renovada rever as águas veneráveis da Baía de Todos os Santos e começar a respirar o ar da ilha, enquanto nos aproximamos daquela costa de marés mansas,...” E aqui vou eu, com minha amiga Mara, ótima companheira de viagem e de compartilhamento do fascínio de Itaparica, revendo emocionalmente essas calmas águas veneráveis, respirando esse ar encantado, absorvendo os azuis, os verdes, os ouros das acácias e dos pores-do-sol e me tornando outra pessoa, mais sensível, mais amorosa, talvez até um pouquinho sábia e com certeza, mais feliz.  Tudo isso enquanto recebo o carinhoso acolhimento dos amigos daqui.

Chegamos à tarde, o mar sempre belo, estava num daqueles dias em que a beleza excede  e não resistimos ao insidioso chamado. Mal arriámos as malas, trocamos de roupa e lá fomos nos rebatizar nas águas mornas, transparentes e deliciosas da prainha do balneário. De pronto o reafirmar de duas certezas. Primeiro de que em Itaparica não tem como se ser triste. Segundo, que de muito pouco se precisa para se ser feliz. Mergulhamos, nadamos, boiamos. Maravilha que não se pode descrever, só sentir.  O sol descendo dourava os azuis e tínhamos de ir porque logo viriam as queridas Betinha e Randra. Como de fato vieram. E nos abraçamos com carinhos porque as saudades precisavam ser desfeitas e alegrias do reencontro eram sem tamanho. Sentadas ali na amurada da orla ainda sob suspiros do crepúsculo, atualizamos notícias e conversamos sobre a comemoração do aniversário de João Ubaldo Ribeiro dentro do programa Café com Leitura da Biblioteca.

Mais tarde, lá estávamos Mara e eu, saboreando os especiais “bolinhos da vila” acompanhados do bom molho do chefe entre os goles do vinho enquanto nos submergíamos na noite itaparicana. Com alma leve, leve, o espírito em pleno sossego, contemplávamos o piscar de uma boia de sinalização, as luzinhas em colar orlando as terras do outro lado do canal ou da iluminação do mastro de veleiro passante pelo rumorejante mar obscuro. Depois, de volta para o hotel, andando devagarinho pela calçada ao lado do mar. Era possível até ouvir passos e vozes de antanho a nos contar façanhas da época das invasões holandesas ou das batalhas da guerra da independência, ou casos de pescadores, ou cochichar de namorados, ou cantigas de rodas ou doces acalantos. Assim a sedução se cumprindo logo na chegada.

Nos dias seguintes a coisa só fez se intensificar começando cedo no variado café da manhã degustado na varanda arcada quase sobre o mar, com direito à inquietude sonorosa dos sanhaços e bem-te-vis entre os dourados cachos das acácias. Ao largo, um barco pó-pó-pó, se indo pra rotina do dia. Depois, a afetiva recepção sucessiva dos amigos: a elegante delicada Carmem, o sempre gentil Antonio, a carinhosa Noêmia acompanhada de Zete e o pequeno, já não tão pequeno, Pedro, o versátil Raimundo Coelho, o  irreverente Yulo coberto de razão e de sentimento de pertencimento a essa terra que adotou;  Roberto, vindo da Coroa só para me ver trazendo de presente as mudinhas de junquilho. E por falar em presentes, também recebi mimos de Betinha e de Isabel, a grande amiga mineira-itaparicana-cidadã-do-mundo de  há uns quatro anos, mas que não nos encontramos pessoalmente e lamentavelmente ainda não foi dessa vez, pois quando chegou eu tinha saído. Mesmo assim deixou sacolinha com suas dádivas  para mim. Ainda faltou gente porque foram apenas três dias.

Houve o jantar no solar dos reis, entre paredes e colunas de pedras, barro e cal feito de conchas marinhas a nos remeter ao pretérito, quando originalmente o casarão foi erguida pelo armador de baleia João Francisco de Oliveira, ou quando serviu de pouso a  D. João Vi em sua passagem pela Bahia rumo ao Rio de Janeiro, a D. Pedro I na época da independência e muitos anos depois a Dr. Pedro II.  Houve o almoço no Largo da Quitanda contemplando o mar e tendo por sobremesa a taboca, vendida à moda antiga e os sorvetes de coco verde feito com a própria água do coco e o também delicioso sorvete africano, todos sem gordura hidrogenada, da sorveteria do artista plástico Sérgio Saldanha. Em Itaparica é assim, uma sorveteria  é de artista plástico e a outra do escritor contador de casos Gregório Gomes, agora, infelizmente, finado.

 

Houve o encanto do canto de prainha lisa, transparente abaixo ao cais, que além do banho sublime tornou-se ponto de descobertas de interessantes pessoas amigáveis de conversas fartas:  Rosângela, a  corajosa, desprendida que viera sozinha passar o dia em Itaparica a fotografar tudo  e a se fotografar; o maduro casal Cândido e Rosa que apesar de amorosos mantinham a sabedoria de morarem cada um em suas casas, ele em Mar grande e ela no sítio na Misericórdia;  a simpática Jane, vinda de Nazaré das Farinhas a revelar lúcida consciência social. Todos surpreendendo nas conversas em que passavam lições de vida.

E ainda teve mais, teve a divertida pescaria da amurada defronte do hotel. Um monte de gente de uma mesma família misturados a vários outros, com varas de pescar, gererê de cabo comprido, tarrafa, todos solidários e entre eles, se destacando pelas observações e dicas, estava Branca. A  experiente pescadora, religiosa sem ser alienada e um tanto filósofa com quem batemos bom papo. A folia era grande. Uns gritavam, “olhe a agulhinha”, “vai, vai”. E o do gereré corria tentando pegá-la, mas já na boca da armadilha, a bichinha escapava, apesar da animada torcida. Isso umas três vezes. Alguém se queixava que os robalos apenas abocanhavam os camarões frescos da isca (segundo Branca, robalo só come camarão fresco, se já estiver passando, eles não querem saber) sem se prenderem no anzol. De repente uma tainha saltou e novos gritos de incentivo como acontece numa partida de futebol quando o jogador está na boca do gol. E aí foi a vez da tarrafa ser jogada. Gritos de festejo de vitória, mas qual o que, a noite não estava para pescador. 

Dormimos tarde nessa noite, mas muito bem, obrigada, sob os efeitos da fina sedução de Itaparica.


 



sexta-feira, 17 de março de 2023

 

Itaparica Revisitada


Acabei de chegar e já vi arco-íris iluminando a Ilha do Medo, vi um pescador a se encapotar apressado, em pé na canoa, se preparando para o vento que vinha levando tudo.  E agora chove na enseada. Veleiros enfumados passam com velas arriada levados só por motores. Invisível, o galo continua cantando desde a madrugada, sem se dar conta, entre a nublação, de que o dia há muito começou.

E principalmente, especialmente, particularmente, sobretudo — da varanda de muitos arcos onde tomo o bom café do hotel — vejo o mar. O sereno mar da Baía, que passado os rápidos ventos das chuvas de fim de verão,  se desarrepia, se estira, vira espelho e livre da névoa infinitiza-se. Vinda do meio dos verdes da APA onde agora moro, comparo. Mata é acolhimento, abrigo, espaço tempo delimitados, o aqui agora. É chegada. Mar é voo, abertura, chamamento dos longes, é o eterno recomeçar como observou o poeta, o infinito, o sem limites a provocar buscas. É partida. E o contemplando se atende aos chamamentos e às provocações, se levanta âncora e se vai, ainda que sem sair do lugar. Vai a alma seguindo o olhar.

Mas eis que uns sanhaços vindos da castanheira de defronte se interpõem entre  o olhar e o mar, interrompendo a navegação da alma. Bem azuizinhos como risquinhos do céu ou mar, atravessam a varanda e entram no restaurante. Saciados os humanos, é a vez deles tomarem o café da manhã. Pulam sobre os espaldares das cadeiras, passam às mesas, bicam  migalhas e, fazendo jus ao nome, assanhadamente voam do salão à árvore e voltam ao salão, e de novo à árvore, às vezes, no caminho, dando paradinhas nos móveis da varanda, assuntando a vida.  Tempo que os olhos param de pingueponguear.        

      


Finda a refeição eles tomam outras direções no ar e retomo a contemplação do mar, agora totalmente claro. A paisagem já não é a mesma de há pouco instante. A paisagem muda muda. A cada minuto, silenciosa, quase imperceptivelmente, inexoravelmente, muda. Muda no deslocar das nuvens levadas pelo vento criando claros e escuros sobre os morros e o mar.  Belo trabalho fazem o vento e as nuvens!

Mas não só eles.  Outros elementos costumam chegar, aparecer, ficar ou desaparecer. Um veleiro que vem do horizonte, passa e vai pra onde não se sabe e some; o voo solitário de um pássaro que risca o céu, ou o demorado plainar do urubu ou o avoejar do bando de andorinhas, ou o barquinho a remo do  pescador costeiro, ou a canoa de duas velas coloridas,  ou homem que desce da bicicleta com vara de pescar e samburá ao ombro ou ainda o outro pescador andando à beira d’água a prescrutar as profundezas e em dado momento joga a tarrafa que se abre em forma de fonte luminosa antes de cair sobre o cardume.



Bem poderia ficar assim, me exercitando, como João Ubaldo Ribeiro, na difícil arte de não fazer nada, apenas acompanhando as mudanças da paisagem no decorrer das horas, mas os amigos me esperam e é preciso rever a cidade, rever cada cantinho querido, reviver as sensações experimentadas em cada parte. Se bem que, fico um tanto apreensiva, afinal se passaram três anos. Nem sei como pude ficar tanto tempo longe daqui! Grande parte culpa da pandemia, outra, culpa das dores resultante do efeito dos anos sobre o esqueleto. Mas passou e aqui estou e saio a conferir com a esperança, bem maior que a apreensão, de que tudo esteja como estava ou que as alterações havidas tenham sido para melhor sem descaracterizar, sem macular o cerne.


Logo de cara vê-se que a orla está cuidada. Ponto positivo para retiradas das mesas e cadeiras do calçadão, bem como para reforma dos passeios e colocação de bancos para os apreciadores da paisagem, e das lixeiras tão indispensáveis. Mas para que aqueles enormes vasos com buganvílias entre os bancos? São plantas trepadeiras, que precisam de espaço ou caramanchão para se espalhar e florir plenas e cheias de espinhos, nada adequado para área de circulação. Melhor seriam se plantassem coqueiros ou aroeiras, no chão mesmo. Mas para que aquela profusão de postes modernosos nada condizentes com centro histórico e ainda mais colocados no cais a beira mar.  Desse lado bastavam as coloridas luzes rasteiras. E ainda se tratando de iluminação, outro ponto negativo são as luzes nas árvores a perturbarem o sono das aves e a desnortear animais noturnos. Por questão estética, bastava iluminar os pés das árvores, por questão de segurança, bastavam o policiamento e a colocação de câmeras.


Muito bom ver os muros transformados em painéis artísticos, assim como as casas pintadas, mas é lamentável a ausência de um ordenamento do uso do solo e de preservação do patrimônio arquitetônico do centro histórico, de modo que  de repente, se leva um choque ao se deparar com umas chamativas casas modernas em meio ao casario antigo. Muros de vidros, às vezes sem nenhum sentido já que as cadeiras do jardim estão colocadas de costa para o mar. Se não interessa ver o mar, para que o muro transparente?

Bem, eles podem ignorar o mar, eu não. E para o mar olho e ele convida. Logo estou mergulhando naquelas claras, calmas, mornas translúcidas. Boio no azul, mirando o passar das alvas nuvens no azul de cima. Dentro d’água também dá para ou admirar o contraste do verde escuro da mangueira do Forte  e do verde claro das folhas novas dos velhos tamarindeiros sob o azul do céu. Fico feliz em ver a resistência desses tamarindeiros plantados, segundo Ubaldo Osório, na época da Guerra do Paraguai.  Mas sinto dorida falta do araçazeiro nascido na praia, um desses inusitados de Itaparica, assassinado não sei por quê. Besteira que digo, pois qual razão pode haver em qualquer assassinato?  Motivo, até pode ter. Razão, nunca.


Vou ao encontro dos amigos. Conversamos, comemos, bebemos, rememoramos, trocamos notícias, rimos, fazemos novos planos, damos vasão aos afetos.  O que de melhor na vida se não a amizade? O que mais exato do que esse convívio, inda mais em meio a tal panorama, quando cenário e cena se harmonizam? Pura felicidade. Nada mais precisaria ser dito. Contudo ainda tenho reparo a fazer. O sol bate de tal maneira sobre o mar, que as águas parecem ferver. Em meio a essa efervescência que encandeia, um único barquinho pousado. Tento guardar o instante numa foto, mas a lente do celular não capta igual. Então fixo a imagem no coração para me fazer voltar de novo a esse meu lugar.



Indo ao quarto pegar a mala encontro um casal de andorinhas nos basculantes do banheiro. Vou devagarinho. Eles não se assustam comigo e lá ficam a me dizer adeus ou, quem sabe, esperando eu regressar.  Que assim seja.

 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 

Corneta na madrugada


        Estava eu no bem bom braços de Morfeu, quando um toque de corneta a toda altura bem na lateral do quarto me fez quase pular da cama. Pela janela da frente vi que o dia mal principiava, caprichando nos dourados sobre o azul entre nuvens brancas com que acenderia o mundo. Belo espetáculo que o sono não me deixava apreciar. Novamente a buzina soou forte. Que diabo será isso? Me perguntei relutando em me levantar. Abri um olho e espiei o celular na mesinha ao lado da cama. Quatro horas. Isso é hora de acordar? então eu sou lá o Zé Marmita? Apesar do sono e da curiosidade em saber que corneta impertinente era aquela, lembrei da marchinha de carnaval:

Quatro horas da manhã

Saí de casa o Zé Marmita

Pendurado na porta do trem

Zé marmita vai e vem

Também não estava em quartel e muito menos me encontrava na Idade Média para ser acordada por corneta de soldado ou por arauto de rei trazendo nova proclamação. Nem o que eu ouvira era toque de despertar de tropa nem de um arauto. A fresca aragem e a serenidade da madrugada vagavam também dentro do quarto.  Voltei a me aconchegar ao lençol, esperando adormece novamente. Mas, quem disse? A buzina soou ainda mais forte e uma outra, um pouco mais longe, respondeu. O jeito foi mesmo me levantar.



        Olhei pela janela do lado, não vi ninguém nem nada que pudesse produzir aquele som. Aproveitei para admirar pela milionésima vez, os longos e grossos tentáculos do cajueiro da vizinha a se espalhar no terreno todo e também o brilhozinho das folhas da aroeira. Lembrei que precisava tirar umas folhas dessa abençoada planta para fazer chá com que tratar o esporão. Mas não seria agora. Não era hora de fazer outra coisa que não fosse dormir.

Nisto a corneta soou novamente. Apurei as vistas. Ainda não estava claro bastante para distinguir qualquer coisa na vegetação apagada, do alto em que eu me encontrava. Tive a impressão de que algo se movera do outro lado da cerca, já na casa vizinha. Algo volumoso demais para ser um gato dos que por aqui vivem. E aquilo não era miado de gato nem no mais caloroso namoro ou briga. Alguém mal intencionado? Quem tivesse uma má intenção não viria fazendo tal alarde. Alguém voltando de um estádio de futebol tocando uma daquelas cornetas de torcida, ou uma criança com brinquedo semelhante? Mas a essa hora?  Pelo visto eu ainda devia estar dormindo, tendo sonhos delirantes. E continuava a tresvariar. Ou seria um bicho selvagem? já que temos uma matinha preservada no fundo do quintal.  Uma onça? Bem, a matinha é só mesmo uma matinha, não daria para tanto. Dava para teiú, jabuti, cobras diversas, tamanduás, mas onça seria um pouco demais. E, embora não estivesse acostumada a ouvir onça, achei que o esturrar dela, apesar de parecido com que eu ouvira, seria mais abafado, menos esganiçado.

       Novo movimento indistinto e novo buzinar. Resolvi descer para descobrir de uma vez por toda que som era aquele. Assim que abri a porta da frente, me deparei com um pássaro gigante pousado no cajueiro. Recuei no susto. O bicho também se assustou e deu um fabuloso voo, por sobre a cerca e a rua indo parar no vizinho de defronte a cornetar. No mesmo instante, do oitão da casa soou outra trombeta como em resposta a anterior, seguido de outro voo espetacular. E mais espetacular ainda, por que indo em direção ao nascente, o metálico verde-azul pavônico rebrilhou no ar à luz da aurora, agora mais intensa. Sim, eram pavões, um casal criado pelos vizinhos, que resolveram nos visitar. Mais uma das inusitadas visitas que recebemos aqui. Seriam benvindos se o horário não fosse impróprio e não viessem tocando corneta de madrugada. Já os ouvíramos de longe, a gente cá e eles lá. Na distância não soavam tão desagradáveis... Como se diz, nada é perfeito. Aves tão exuberantes com voz tão esdrúxula, tanto quanto a própria palavra esdrúxula. Só espero que eles não façam hábito dessa barulhenta visita fora de hora.





quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Ipê e Valdomiro

 

De repente, no meio da primavera antecipada na segunda quinzena de agosto, o inverno irrompe com ventos fortes muito frios e alguma chuva a lembrar que a regência do tempo ainda lhe pertence e que a primavera espere a sua vez. No instante em que nisso penso, recebo do professor Jonilson a foto de um majestoso ipê amarelo, puro ouro sobre o azul no enquadramento da foto, a atestar a continuação do inverno, pois, como se sabe, os ipês são árvores invernais.

E justo no momento que contemplo a foto, recebo a notícia da morte de Valdomiro Santana. Meu amigo escritor, ensaísta, amante das artes e de tudo que é bom, belo e toca a alma. Questionador, crítico severo, às vezes intransigente, a ponto de fazer inimizades, mas sempre autêntico a inspirar confiança. Podia dele se discordar, mas jamais dizer que tivesse dois pesos e duas medidas. Não se furtava de dizer o que pensava para agradar ninguém, nem ao melhor amigo, nem à maior autoridade.

Por isso mesmo, eu muitas vezes submeti meus escritos à sua apreciação e quando da organização do meu livro de crônica pedi a ele que fizesse a revisão e me ajudasse na seleção e ordenamento das crônicas. Isso porque eu sabia que ele faria com isenção, apontando erros, sem nenhuma concessão, como aliás, o fez. Mas, para além do rigor com que impunha seu senso crítico e defendia seus pontos de vista ele era sensível e afetuoso em essência. Comovendo-se com facilidade e derramando ternuras. Como demonstram as mensagens do extenso carteado que mantivemos.

Ante a bela foto do ipê e a triste notícia, naquele estado indefinido entre a incredulidade, pasmo e lembranças, recorri ao arquivo das mensagens de e-mails que me enviava. E na primeira que li, aleatoriamente, ele contava que tivera um sonho em que eu aparecia como um ipê de onde saia inúmeros pássaros coloridos. E essa coincidência dos ipês da foto e do email com a notícia da sua saída desse mundo deu o que imaginar. Continuei lendo os e-mails em que se revela o intelectual erudito e perfeccionista no seu modo de ser gentil e afetivo. Numa dessas mensagens ele assim graceja falando coisa séria:

“Um gesto meu, bem pueril, me ocorreu agora: mandar fazer uma faixa (fundo branco e letras em vermelho e verde) e colocá-la na entrada do condomínio onde você mora: EU GOSTO DE VOCÊ. Não colocaria seu nome, para não individualizar, e assim essas quatro palavras luminosas serviriam para aquecer por dentro muitas pessoas, no sentido de torná-las menos egoístas e mais ternas. Muita gente se perguntaria: quem botou essa faixa aí? Quem é esse EU e quem é esse VOCÊ? E essas quatro palavras virariam uma epidemia em outros condomínios. Iriam se espalhando, se espalhando, ganhando espaços, bocas, ouvidos, corações. Teriam o poder de um poema de Quintana e de um de Cecília juntos, já pensou?”

          

  Em outra mensagem, voltando ao mesmo tema, diz: “As quatro palavras mais importantes para qualquer ser humano são: "Eu gosto de você". O afetivo é o efetivo. É o que fica. Sem isso a vida não vale nada. Quando uma pessoa ouve essas quatro palavras, ela se ilumina por dentro e por fora. Ilumina-se e pulsa. Toda a experiência humana gira em torno dessa expectativa, da recepção que daí pode advir, do que flui uma pele para a outra pele.”

E em mais uma mensagem,  explica seu processo de criação, deixando evidente a aplicação do rigor  a si próprio:  “ Na verdade, me dou à escrita literária em doses homeopáticas. Reescrevo mais do que escrevo. Horas e horas, dias, cortando, limando, curtindo o som de uma palavra, revirando-a, experimentando mil coisas com ela, seu jogo na composição de uma frase etc.” E por ai vai, e por aí vou pinçando trechos reveladores, mas que não cabem no espaço de uma crônica.

Voltando à foto do ipê. Lembro da lenda, que Valdomiro bem gostaria saber, se é que não sabia. Conta-se que quando Deus estava preparando o mundo, reuniu todas as árvorese pediu que cada uma escolhesse a época em que gostaria de florescer e embelezar a Terra. Foi aquela folia. Alegremente diziam: “Outono”, “verão”, “primavera”. Mas nem uma vez se escutou alguma dizer inverno. Notando isso, Deus parou a reunião e perguntou por que ninguém escolhia o inverno. Cada uma tinha sua razão: “porque o inverno é muito seco!”  “E muito frio!” “E tem muitas queimadas! 

Então Deus falou: “Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno, que seja corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas. No inverno, também  a Terra precisa de flores para embelezar o ambiente dos homens....” Silêncio... Todas as árvores calaram-se. Foi então que uma árvore quietinha lá no fundo, falou: “Eu vou! Eu quero florescer no inverno”. Sorrindo Deus perguntou qual era o nome dela. E ela disse se chamar Ipê.

E enquanto as outras árvores se mostravam surpresas com a coragem do Ipê em querer florescer no inverno. Deus decretou: “Por atender meu pedido farei com que você floresça no inverno não só com uma cor, mas com muitas cores para que também no inverno o mundo seja colorido. Terás diferentes cores e texturas e sua linhagem será enorme”. E assim, uma das mais lindas árvores que existem dá cor e diminui a melancolia ao inverno cinzento.  

Acredita-se que fechar os olhos e imaginar um Ipê-amarelo favorece a cura do corpo e da alma. E eu tendo um belíssimo ipê amarelo diante dos olhos, a ele recorro em busca de alento para a tristeza que me vai na alma nesse instante de perda de mais um amigo querido.       



 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

Um Ponto de Luz


 

 Na madrugada escura há um ponto de luz diante da janela aberta. Da minha cama posso vê-lo bem. Um ponto de luz único, muito brilhante, grande, muito grande, maior que os   demais astros vistos por nós a olho nu. Eu não sei se é uma estrela ou um planeta e qual nome tem. Meus parcos conhecimentos de astronomia, malmente me permitem identificar as Três Marias (O Cinturão de Orion) e o Cruzeiro do Sul. E que importa o nome? Seria tão só uma denominação inventada por alguém. Importa que é um ponto de luz, que solitariamente brilha, uma piscadela do universo, um aceno que me acorda às 4h da manhã, me põe, primeiramente a contemplar e depois a pensar, pensar, longamente pensar.

Se eu fosse ainda suficientemente criança, diria que esse ponto de luz é a minha estrela da boa sorte a me velar. É bom, muito bom crer nisso, pois que é confortante ter uma estrela a nos garantir boa sorte, como o é também ser zelado, ainda que por um pingo de luz no escuro da noite. Mas como não sou mais suficientemente criança, lembro que não posso chamá-la de minha. Outros insones, devem agora mesmo estar dizendo, minha estrela. Naturalmente,  ela é de cada um que a vê e admira, é de todos, todavia não é de ninguém, tal qual a Tereza da Praia, da dupla Dick Farney e Lúcio Alves, música de Tom Jobim  e Billy Blanco. Assim cientifica que não é preciso ter para dispor, ou dito de outra maneira, é possível ter sem possuir, o que representa um aprendizado do desapego e da partilha. E lá vai o pontinho de luz passando lições da arte de viver.

O amanhecer se insinua no suave clarear do horizonte. E o ponto de luz, se torna ainda mais brilhante E eis que já o imagino como um farol a alertar para os perigos e a apontar o caminho seguro a seguir. Ter uma guiança em meio à acidentada escuridão oceânica da vida é também muito confortante. Mas não basta ter o mapa, é preciso saber como segui-lo. A luz ilumina a rota, mas não aplaca ventos nem amansa ondas. O caminho está traçado, mas a travessia é que são elas.  Ai! que esse belo pontinho de luz com sedução e as esfíngicas piscadelas, conforta e inquieta ao mesmo tempo.  

Pintura: Eduardo Espinheira

            Tento voltar a dormir, mas continuo a contemplar e refletir. E me indago: Do tal ponto de luz, a Terra seria vista tal qual eu o via?  Seria, então, um contato imediato de primeiro grau entre o planetinha azul e o astro não identificado? Mais uma coisa que não sei, nem saberei. Mais uma constatação do tanto que não se pode saber. E eu que já quis saber tudo... E até acreditava que seria possível... Dura aprendizagem o da resignação ou da aceitação do cosmo como é, dos enigmas e mistérios, das impossibilidades, das limitações pessoais, da própria ignorância e pequenez.

Já disse em crônicas, e volto a repetir, que nada como a contemplação do céu para nos fazer ver a nossa real condição e dimensão no universo. Diante da imensa incógnita e infinitude do espaço sideral, das galáxias e dos sistemas estelares, a ínfima individualidade humana só não é nula, porque no cosmo, composto de sistemas e subsistemas interdependentes, nada é insignificante. Isto pode servir de algum consolo, mas deixa claro que não há  lugar para nenhuma presunção.  Sem dúvida, esse ponto de luz é mesmo confortante e inquietante, dubiamente dual, como quase tudo na vida.

A alba se alarga. As cores do amanhecer se espalham. Uma nuvem passa encobrindo o ponto de luz e quando se vai, o clarão do novo dia já havia a apagado a noite, assim como a noite havia apagado o dia anterior. A luz que revela, também oculta no excesso de claridade.  A escuridão que esconde, também realça a luz na escassez de claridade. Piscou filosoficamente o Ponto de Luz que havia na madrugada ao desaparecer no clarão do sol.

                                                                             Pintura: Eduardo Espinheira
                                                                                                                               
                                                                                                                08/02/2022