O GRANDE SUSTO
DE NOÊMIA
Lua
cheia no mês de março, já se sabe, é tempo de maré de extremos. No dia anterior,
a maré alta tinha chegado a se esparramar de ponta a ponta em alguns trechos da
rua. De manhãzinha a baixa-mar descobrira todas as coroas de areia, promessa de
fartura. Para completar a alegria das marisqueiras, era véspera da Sexta-Feira
Santa, garantia de vendagem fácil, quando ninguém na Ilha dispensa uma boa
moqueca ou frigideira de chumbinho, ou de maria-preta, ou de siri, ou de peguari,
e se na casa houver uma Noêmia não será de apenas um ou outro, será de todos,
além do peixe, camarão e bacalhaus, porque para ela o muito é pouco.
Noêmia,
ou Lourinha como é mais conhecida, é uma dessas pessoas especiais que encontrei
em Itaparica. Gente assim é rara, mas
tenho tido a sorte de ter encontrado várias destas raridades, ao longo da vida.
Cem por cento itaparicana, Noêmia conhece todo mundo, sabe de tudo que acontece
e trabalha como ninguém. Com seus 56 anos de idade é mais forte que muito homem
e centenas de jovens juntos. Depois de passar a manhã toda agachada sob sol
forte mariscando, põe o balde cheio de conchas na cabeça e sobe ladeira, anda
quilômetros pra chegar em casa e depois volta para pegar igualmente pesado saco
cheio dos mariscos refazendo todo o trajeto. Parece não se cansar nunca, muitas
vezes após a maratona da mariscagem ainda lava roupa de casa, preparar almoço (adora
cozinhar e o seu pirão do escaldado de siri simplesmente divino), limpa a casa
dela e do filho etc e tal.
Certo
dia, chegando aqui em casa e vendo as mangas verdes que alguém implorou para eu
comprar, ela disse “estas mangas só prestam para umbuzada!” Surpresa eu
pergunto: “umbuzada de manga, Noêmia?, umbuzada é de umbu”. Sem perder a
certeza ela afirmou: “É sim, mas também se faz com manga, ora”. Diante da minha
risada, completou a receita: “faz sim com leite condensado”. Doutra feita eu aventava a possibilidade da baixa de
pressão ser a causa das vertigens que vinha sentindo, e contei que já mediu 10
por 4,5. E ela, sem se dar conta do que dizia, falou: “Se chegar a zero, morre.
Foi assim com o finado...” Rindo, eu nem ouvi o nome do finado.
E
tem os resguardos, as comidas reimosas, as superstições... É muita coisa pra contar desta grande figura
humana, solidária, dedicada, engraçada, mas o tema dessa crônica é o aperreio
que ela passou há poucos dias. Bem, era tempo bom para mariscagem. Logo cedo
Noêmia, sua irmã Neuza, dona Dita e Nanada chegaram ao Porto dos Milagres e encontraram
a canoa de Tiúta com lotação completa. A intenção era ir a Ilha do Medo, mas
para não se arriscarem com a superlotação, a turma de Noêmia resolveu ficar na
Coroa do Limo. Tiúta, que também ia catar peguari no Dourado, seguiu com as
outras marisqueiras, ficando de pegá-las na volta.
As
horas passavam, o sol esquentava. De cócoras, ou ajoelhadas, ou mesmo sentadas
sobre a areia úmida com fina camada de lodo, mudando de lugar de tempo em
tempo, elas se entretinham, no silencioso sossego que reina nas coroas marinhas,
a raspar o chão com colher de pedreiro ou algo similar, e a recolher os
chumbinhos (molusco bivalve, também conhecido como papa-fumo, burdigão, vôngoli
e outros nomes), que com a força da lua, praticamente brotavam, quase não
precisando se cavar. Enquanto isso, a maré começou a encher, de inicio quase
imperceptível. Mas sorrateira e decididamente avançava engolindo pedaços da
coroa, indo na direção delas. Mas cadê Tiúta?
Logo
elas já não podiam mariscar, porque as águas tinham coberto tudo. E nada da
canoa. Começaram a se inquietar. A água de beber havia acabado bem como o
lanche. O sol escaldava e o mar continuava a subir. E nada de Tiúta. Quando as
águas invadiram os baldes com os mariscos catados desconfiaram que estavam em apuros e quando
sentiram o mar nos joelhos, a
desconfiança virou certeza. A aflição se instalou, menos para dona Zita, que sendo evangélica,
dizia que Jesus as salvaria. Já em pânico Neuza, Nanada e Noêmia disseram:
“fique aí esperando Jesus e não grite não. Esqueceu que Deus disse faça sua
parte que lhe ajudarei?” e se puseram a gritar e acenar com panos.
Após
muitos gritos e acenos desesperados, enfim foram vista por alguém que estava no
cais da antiga fábrica de envasamento da famosa água mineral. Em breve foram
resgatadas pelos barqueiros Corante e Ferrugem.
É bem verdade que a coroa fica perto da costa, daí terem sido vistas. É
perto, mas não havia como elas atravessarem o fundo canal sem uma embarcação. Quando
o canoeiro Túita apareceu elas já estavam em segurança no Porto dos Milagres.
Abr. 2016


