Instante na Varanda
Entre o ventinho que
passa e a luz que incide, tremeluzem as folhas das enormes mangueiras antigas.
Dir-se-ia que o tempo do sol voltou, embora não tenha desaparecido no outono e
inverno de poucas chuvas e bastante calor. Mas afinal é primavera. Girando no
espaço infinito, o Planeta está mais próximo da estrela em torno da qual
gravita.
Dir-se-ia que o tempo é
de luz e promissão. Sim, o céu e o mar azulam mais, há maior brilho e calor, as mangueiras já
anunciam safra farta apesar das sucessivas mutilações que sofrem e as flores desabrocham embora cada vez em menor
quantidade com o fim dos jardins. A luz e as possibilidades estão aí, mas
seguramente este não é um tempo de esperanças.
Motivos para descrenças não faltam, pelo
contrário, até excedem no atual momento histórico, quando há tanto retrocesso
político-social no país; quando a bestialidade das guerras continua sem sinal
de fim; quando as pessoas são robotizadas num mundo virtual; quando crianças
sem infância são idiotizadas de todas as formas, desde os brinquedos prontos,
passando pelos livros de conteúdo utilitário sem valor estético e encantatório
da verdadeira literatura e o artificialismo tecnológico a que são submetidas
ainda bebês.
Mas como manter a
esperança é preciso para continuar existindo na Terra, recuso-me a tratar
desses motivos. Dizem os sábios que se
deve focar no que se deseja e não naquilo que não se quer. Portanto, nesta tarde
de sábado, com ventinho ameno, recostada na espreguiçadeira trato de achar “razões
de quimera” como na canção Brisa da manhã de Mario Espinheira que também diz
que “a brisa tece uma ilusão / de brisas vive o coração”.
E nem é preciso muito
procurar porque uma borboleta entra na varanda, dá algumas voltas em torno de
mim fazendo me sentir uma flor. E como é bom se sentir flor, mesmo uma
florzinha silvestre ignorada pelos cultivadores de rosas ou simples desatentos
transeuntes. Afinal as flores são apenas flores sem qualquer propósito além de viver,
de ser o que são, livres de teorias, opiniões e gostos.
Ademais há uma gata que
dorme no colo depois de massagear o estomago e a barriga alheia. De repente, sem que o sol se apague, cai uma
chuvinha tão fininha, mas tão fininha que mais parece xixi de passarinho. E
como veio, rápida se foi, se estivesse sedenta no deserto diria ter visto uma
miragem. Mas a realidade é atestada por um sutilíssimo cheiro de terra molhada,
sutilíssimo porque chuvisquinho tão tênue mal deve ter tocado ao solo, sendo
interceptado pela folhagem mais baixa.
Os passarinhos disputam
as bananas e milho quebrado no muro em frente. A própria varanda, com suas
arcadas de pedras e histórias para contar, é raio de sol nos tempos de trevas.
E os alumbramentos da primavera passada ainda persistem na memória, iluminando
coração. Então, parodiando a canção da
dupla Oscar Castro Neves e Luvercy
Fiorini, canto porque a beleza volta a me encantar.
Encantada imagino que
um novo mundo é possível. Um mundo gentil, fraterno, sereno, sempre luminoso,
mesmo quando o sol está escondido atrás de nuvens e névoas, porque a luz está
nos corações sabiamente amorosos e amoráveis.
E lembrando a amorosa e amorável Cecília Meireles, eu digo: Sim, eu
canto, “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. /Não
sou alegre nem sou triste:/ sou poeta”.




