sexta-feira, 4 de novembro de 2016



Instante na Varanda





Entre o ventinho que passa e a luz que incide, tremeluzem as folhas das enormes mangueiras antigas. Dir-se-ia que o tempo do sol voltou, embora não tenha desaparecido no outono e inverno de poucas chuvas e bastante calor. Mas afinal é primavera. Girando no espaço infinito, o Planeta está mais próximo da estrela em torno da qual gravita. 
Dir-se-ia que o tempo é de luz e promissão. Sim, o céu e o mar azulam mais,  há maior brilho e calor, as mangueiras já anunciam safra farta apesar das sucessivas mutilações que sofrem  e as flores desabrocham embora cada vez em menor quantidade com o fim dos jardins. A luz e as possibilidades estão aí, mas seguramente este não é um tempo de esperanças.
 Motivos para descrenças não faltam, pelo contrário, até excedem no atual momento histórico, quando há tanto retrocesso político-social no país; quando a bestialidade das guerras continua sem sinal de fim; quando as pessoas são robotizadas num mundo virtual; quando crianças sem infância são idiotizadas de todas as formas, desde os brinquedos prontos, passando pelos livros de conteúdo utilitário sem valor estético e encantatório da verdadeira literatura e o artificialismo tecnológico a que são submetidas ainda bebês.
Mas como manter a esperança é preciso para continuar existindo na Terra, recuso-me a tratar desses motivos.  Dizem os sábios que se deve focar no que se deseja e não naquilo que não se quer. Portanto, nesta tarde de sábado, com ventinho ameno, recostada na espreguiçadeira trato de achar “razões de quimera” como na canção Brisa da manhã de Mario Espinheira que também diz que “a brisa tece uma ilusão / de brisas vive o coração”.
E nem é preciso muito procurar porque uma borboleta entra na varanda, dá algumas voltas em torno de mim fazendo me sentir uma flor. E como é bom se sentir flor, mesmo uma florzinha silvestre ignorada pelos cultivadores de rosas ou simples desatentos transeuntes. Afinal as flores são apenas flores sem qualquer propósito além de viver, de ser o que são, livres de teorias, opiniões e gostos. 
Ademais há uma gata que dorme no colo depois de massagear o estomago e a barriga alheia.  De repente, sem que o sol se apague, cai uma chuvinha tão fininha, mas tão fininha que mais parece xixi de passarinho. E como veio, rápida se foi, se estivesse sedenta no deserto diria ter visto uma miragem. Mas a realidade é atestada por um sutilíssimo cheiro de terra molhada, sutilíssimo porque chuvisquinho tão tênue  mal deve ter tocado ao solo, sendo interceptado pela folhagem mais baixa.
Os passarinhos disputam as bananas e milho quebrado no muro em frente. A própria varanda, com suas arcadas de pedras e histórias para contar, é raio de sol nos tempos de trevas. E os alumbramentos da primavera passada ainda persistem na memória, iluminando coração.  Então, parodiando a canção da dupla Oscar Castro Neves e Luvercy  Fiorini, canto porque a beleza volta a me encantar.  
Encantada imagino que um novo mundo é possível. Um mundo gentil, fraterno, sereno, sempre luminoso, mesmo quando o sol está escondido atrás de nuvens e névoas, porque a luz está nos corações sabiamente amorosos e amoráveis.  E lembrando a amorosa e amorável Cecília Meireles, eu digo: Sim, eu canto, “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. /Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta”.

4 comentários:

  1. Muito lindo, isto é o que nos falta, observar o mundo ainda belo ao nosso redor.

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  2. Muito obrigada, mas quem fez o comentário?

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  3. Tu cantas porque o instante existe, ou quiçá nunca o deixou de existir em ti, e por isso que és Poeta. Um beijo.

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  4. muito obrigada, poeta Mario, um grande abraço

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