segunda-feira, 30 de abril de 2018



A saga do sabiá


Parece até sina o tanto que os sabiás têm estado nos meus escritos, mas como não contar esta aventura?  Ainda não eram seis horas, quando tudo começou.  O dia remanchava na barra do nuvioso horizonte outonal quando fui arrancada do sono por uma barulheira no teto do quarto. Se fosse gaulesa teria pensado que os céus caiam na minha cabeça. Naquele instante não pensei, porém o susto não foi menor.
Um pássaro voava batendo-se no forro. Pousou na beirinha da parede que sustenta o caibro bem em cima da cama. Fiquei quieta para não espantá-lo, certa de que logo sairia pela janela lateral por onde devia ter entrado. Mas nada. Andava aos pulinhos, parava, dava novos voos doidos querendo varar o teto. Talvez para ele o branco do forro fosse nuvens. Não se dava conta de que se encontrava numa espécie de alçapão, embora com passagem aberta. Pé ante pé, acabei de abrir a janela para facilitar sua saída. Apesar do cuidado, provoquei novos voos tortos.
Voltei a aquietar-me na cama. Contudo o sabiá de praia, a esta altura já identificado, continuava voando para cima sem olhar para baixo nem pros lados. Agora também pousava na parede da frente, após algumas investidas contra o telhado. Queria muito tirá-lo dessa enrascada, mas como? Qualquer movimento levava-o a se agitar. Começou a piar chamando alguém dele. Talvez fosse filhote ainda sem destreza de voo, apesar do tamanho.
 Imóvel na cama e penalizada pensava. A janela estava bem ali, deixando às vistas os ramos floridos da aroeira a balançar ao vento. Ele não via. Chegou a ficar na beira do armário pertinho da janela, porém manteve-se virado para outro lado, olhos voltados para o alto. Era como os  inflexíveis que relutam em mudar de perspectiva, se apegam a falsas certezas, ou buscam uma única solução longe, quando a tem ao pé de si.  
 O anseio pelo céu era tal, que não podia entender que muitas vezes para se chegar ao topo é preciso antes descer. Mostrava o quanto o pânico turva o raciocínio ao ponto de repelir a salvação. Eu queria muito acudí-lo, mas não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado por estar cego pelo medo, ou orgulho, ou outro motivo qualquer. Eu estava na impotência. Como chegar até ele? Como fazê-lo olhar para baixo e ver a saída?
O tempo passava, eu me inquietava, não podia mais ficar imóvel. Precisava ir à fisioterapia. De que modo me arrumar sem espantá-lo? Passou a piar mais alto. Não tinha jeito, me levantei. Ele voou se batendo no teto na direção da porta do quarto, defronte da qual, fica uma janela basculante de bom tamanho e aberta. Pronto, pensei aliviada, agora ele sai. Saiu nada! Pousou na beira da parede acima da janela, sempre olhando para o alto. Terminei de me ajeitar com o máximo de cuidado. Vi que o basculante do banheiro também estava aberto. Ele tinha três possibilidades de saída, mas não enxergava nenhuma.
Minha esperança era que com minha retirada ele se acalmasse e acertasse ir embora.  Mas que nada! Quando voltei o sabiá ainda se encontrava no quarto na mesma agonia. Estava há horas nisto, sem comer nem beber. Lúcia colocou fatia de mamão e vasilha com água na janela na tentativa de atraí-lo para abertura. Deixei-o sozinho novamente à vontade para a refeição e o voo de libertação. Entretanto não deu certo. Depois do almoço voltei para o quarto precisando usar o computador, porém, mais uma vez, para evitar que ele se debatesse demais, fiquei a ler na espreguiçadeira sem me mexer.
Agora em desespero, o sabiá quase não mais parava, ia continuamente de uma parede a outra, sempre bem rente ao teto. De bico aberto mostrava cansaço. A situação já durava cerca de oito horas. A tarde avançava, o bichinho sem descanso e sem comer. Se não conseguira sair até então, não seria ao anoitecer que conseguiria. Alguma coisa precisava ser feita, apelei pra uns e outros, ninguém sabia o que fazer. Na aflição, bestamente, pensei usar uma escada de abrir para tentar pegá-lo ou fazê-lo descer o voo. Ideia que só serviu para Matilde rir e gozar da minha cara.  Enfim, ela sugeriu espantá-lo com uma vassoura em direção a uma das janelas. Resolvemos experimentar.
Ante da vassoura  chegar o basculante do banheiro foi tomado por curiosos expectadores, os micos que ameaçavam entrar e complicava mais ainda a coisa, barreirando uma das possíveis saídas. Nem tivemos tempo de pô-los para fora, a ação vassoural  havia iniciado. O bichim era mais teimoso do que a mula e taurino juntos. Não descia. Voava mais agitado. Só restava uma solução, terminar de cansá-lo. Nem foi preciso muito, exausto  logo caiu, correu para baixo da cama, tentou escapar, tombou na mesinha de cabeceira, onde Lúcia, com maior destreza, conseguiu agarrá-lo.
Não se entregou fácil, não. Debateu-se nas mãos delas e me deu bicadas quando gotejei água no seu bico. Ao chegarmos à janela para soltá-lo, vimos os micos a postos na aroeira e cajueiro, tivemos de espantá-lo, no que fomos ajudadas por um, ou uma, sabiá que os puseram a correr. Seria a mãe, o pai, ou apenas um igual solidário? Soltamos a nossa avezinha, nossa não por posse, mas por carinho. Ufa! Lá se foi para um galho distante do cajueiro. Lúcia ainda desceu do quarto para lá embaixo conferir onde ele fora se alojar. Mas já tinha batido asas. Afinal pôde voar para o céu como tanto tentou durante tantas horas. Conosco ficaram cinco peninhas caídas na labuta do resgate.


terça-feira, 3 de abril de 2018


A casa das grades amarelas






A casa das grades amarelas, de inicio era apenas uma referência de localização da casa sem número na Rua Juracy Magalhães, em Itaparica. Mas logo a expressão ganhou a conotação afetiva para mim e para todos os frequentadores que nela se sentiam muito bem. Dizer a casa das grades amarelas era, e ainda é, referir-se a um refúgio encantado, acolhedor de amigos e afetos. É uma bela casa antiga, como já não se fazem mais. Deve ter cerca de 70 anos.  Nela moramos durante três anos e sete meses, tempo suficiente para incluí-la na sentimental história de vida, que se revela em detalhes muito vivos nas retinas e no coração.
E nesta manhã de outono azul, nas lonjuras em que estou entre árvores e dunas, embarco  na nuvem barco chamado saudade e navegando pelo mar da memória, eu vou.  Chego diante dos muros de pedras encimados pelas famosas grades amarelas, entro subindo a escadinha de pedras ladeada pela mureta corrimão, sigo pelo caminhozinho calçado por largas pedras, que divide o jardim em dois lados, cada qual, com um coqueiro tremulante à menor brisa vinda do mar. À esquerda a vistosa pitangueira, festa dos passarinhos e da gente nas generosas safras, dá as boas vindas como sempre.
Na varanda da frente, atrás da imponente arcada de pedra, estão o velho sofá de um lado e no outro a mesa de vidro e cadeiras de ferro pintadas de branco com almofadinhas de listas amarelas e brancas. Cantinho de contemplação da lua cheia, das cantorias, das muitas conversas e comilanças, especialmente do escaldado dos siris-boias recém-comprados na porta de casa e acompanhado do perfeito pirão de Noêmia e da nossa alegria. Na varandinha lateral, igualmente com arcadas de pedras, a significativa rede e a espreguiçadeira, mirante dos vários passarinhos — que vinham tomar banho no prato de barro e comer as bananas e os milhos quebrados colocados no muro defronte — e dos muitos verdes, sobretudo das velhas enormes mangueiras a transmitir sensação de proteção e paz. 
Ah, mangueiras! Uma floresta delas circunda a casa, pelo fundo e laterais. Da casa mesmo, somente a manga Itiúba, mas nos fartávamos também com as mangas rosas e espadas dos vizinhos. Desconhecendo propriedades privadas e ignorando divisórias humanas, as mangueiras se ofertam abundantemente. No quintal com portões de ferro também pintados de amarelo, ainda estavam as bananeiras, a goiabeira, os pés de acerola e aroeira. Entro e admiro a grossura das paredes, a amplidão dos cômodos, a sala com palaciano piso de ladrilhos pretos e brancos, tabuleiro de damas.
Continuo revendo os peculiares pormenores: a porta da frente em arco e postigo gradeado e a do lavado com inusitado postigo abrindo por fora; as enormes janelas, a da sala com cerca de dois metros de largura por três de altura, através da qual minha centenária mãe acompanhava o movimento da rua. E o janelão de meu quarto abrindo-se para o verde muro coberto de heras e o sempre luzente pau-brasil, ponto de pouso para descanso e cantoria de sabiás e sanhaços. Em quantas felizes madrugadas ficava na cama em sossego a apreciar as cores do amanhecer e o movimento dos pássaros, inspiradores de crônicas e poemas!
Logo aparecem as inúmeras visitas, algumas de amigos não vistos há décadas, de vizinhos, dos novos amigos e os amigos dos amigos, até dos gatos que insistentemente, nos vencendo pelo cansaço, nos adotaram. Sem falar nos frequentadores costumeiros e os de todo dia, entre eles os queridos Antonio Marques e Maria Elisabeth Pardo. Todos de imediato se sentindo confortáveis, apesar da simplicidade do nosso estilo de vida desapegado refletido nos poucos móveis velhos e utensílios de pouco valor, mas com mesa farta da boa comida de Lúcia e, principalmente, de Noêmia que adora cozinhar e cujo pouquinho era sempre muito. Durante e depois das refeições os muitos causos, muitas lembranças, muitas conversas sobre tudo, muitos risos e até cantorias.
Aos sábado chegavam Manu e Chiquinha, as meninas dos mariscos, às vezes a tempo para o café. Gostavam de sentar na soleira da porta, para diversão do quase primo holandês que achou aquilo inusitado. Além dos peixes e mariscos que traziam, havia o bom papo, que nos levava a conhecer muito da comunidade de Baiacu, quase toda vivendo dos pescados e ainda bastante integrada e solidária. Surpreendemente bom foi descobrir o caráter ético e bondoso destas garotas simples, que, por exemplo, ficaram sem receber o defeso por não saberem mentir como a maioria, confessando que apesar de marisqueiras não eram pescadoras de camarão para o qual o defeso é destinado.
E chegam também as emoções alegres e tristes vividas ali, por fim o apagar-se de minha mãe com 102 anos, num inicio da tarde de 27 de fevereiro, dia do aniversário da neta querida e também outras lamentáveis perdas, entre elas a saída da casa e a partida de Itaparica. Saudade acentuada nesta breve revisita à casa das grades amarelas.

Busca Vida, 1º de abril 2018





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018



De lua, piões, arraias etc



Aqui no canto escuro da varanda, acompanho o ascender da lua cheia. Enormemente bela, num céu sem nuvens e sem estrelas, vai trocando o ouro pela a prata enquanto sobe. O vento bem fresco, quase frio, salpica as pequeninas pétalas das flores da pitangueira sobre a grama do jardim e traz saudades recentes. Bastava estar assim sossegada olhando a lua, sentindo o vento, revivendo os doces instantes de ontem. Mas algo dito ou ouvido, ou imaginado põe a mente a girar mais que pião dos bons.
Ah! os piões, quem ainda brinca com eles?  Noutro dia vi, impressionada, um vídeo mostrando como os piões são feitos artesanalmente no torno. Creio que o marceneiro, já com certa idade, embora muito concentrado devia se divertia com o trabalho, talvez revivendo suas próprias brincadeiras, alguns torneios, onde exibia destreza fazendo o pião rodar sobre o pé, subir pela perna, pular para a palma da mão e outros malabarismos. Agora caprichava na feitura de piões para alegria de outras crianças. Tanta habilidade, tanto esmero para fazer um simples brinquedo! Só por isso valia nunca deixar a brincadeira acabar.
Mas no mundo virtual, cibernético ou da tecnologia da informação ou da inteligência artificial não há lugar para piões, nem petecas, patinete, carrinho de rolimã, perna-de-pau ou de latas, telefone sem fio, periquitos de papel, arraias. No Mundo de arranha-céus não há mais quintais para as brincadeiras de casinha com comidinhas de folhas ou cozinhados. No mundo de carros e violência não há ruas livres ou seguras para as brincadeiras de rodas, passa-anel, fita, melancia, demarré, picula, chicotinho queimado, macaco (ou amarelinha), bom vaqueiro, onde está a Margarida, boca-de-forno. No mundo das indústrias, superprodução e consumismo os brinquedos são automatizados, movidos a controle remoto, comprados todos prontos, inclusive as arraias, ou papagaio, ou pipa, como também são chamadas, que nos antigos agostos impunha um longo ritual em muitas casas.
Lembro muito bem deste ritual na minha casa, praticado pelo meu irmão e seus amigos. Primeiro ir ao armazém da esquina comprar flechas (não sei se de cana, milho ou algum capim) e no armarinho comprar papel de seda, e carretel de linha. Cortavam o papel em retângulo num tamanho padrão. O retângulo podia ser de uma só cor, mas o mais comum é que fosse formado por pedaços de cores diferentes em mil combinações criativas (caneca, pão de leite, xadrez etc), cada um se esmerando para fazer a mais bonita, a mais original. A flecha era aberta ao meio e cortadas em duas taliscas no tamanho do retângulo após formarem o X sobre o papel, onde eram coladas. Daí vinha o mais difícil, amarrar a linha nas quatro pontas das taliscas e fazer a chave perfeita, imprescindível para bom desempenho da arraia ao subir ao céu e, sobretudo nas manobras para cortar as arraias alheias. A maioria fazia chave de 4 e os mais hábeis  faziam a chave de 5 saindo do meio da arraia ou da interseção do X, para causar admiração. Outro detalhe muito importante era a rabada feita com bolinhas de algodão amarradas na linha, formando a cauda, que precisava ter peso e tamanho ideal. Quem não podia comprar algodão, usava tiras de saco de aniagem.  Por fim, vinha o preparo do cerol. Com pedras quebravam vidro até formar um pó, às vezes peneirado numa meia pra ficar mais fino, sendo então misturado à cola feita em casa mesmo com goma de engomar roupa, ou farinha de trigo, ou quem podia, goma arábica. Outro motivo de inveja era quando um passava sacudindo um frasco com goma arábica derretida para fazer a cola. O carretel de linha era quase todo desenrolado no quintal, estendidos da cerca ás árvores e pilastras da varanda para que pudessem ser encerados com o cerol, aplicado com as mãos, sem nenhuma proteção. Depois  de secar pegavam o carretel, enfiavam um pedacinho de madeira de uma extremidade a outra,  e com maestria reenrolavam a linha passando alternadamente por  baixo e por cima do pauzinho, dando o formato de oiti. Enfim, era correr atrás do vento. E eles não construíam apenas uma, não, mas várias. Tendo até  quem fabricasse para vender. Qual menino de hoje conhece e estaríamos dispostos a cumprir todo este processo? Basta ir ali comprar arraia, a maioria de plástico.
Quando ficamos mais velhos e fazemos alusões aos tempos idos, somos acusados de saudosistas, mas como evitar as referências ao passado, se nele está as nossas experiências e aprendizagens?  Não necessariamente tudo do passado é mal como nem tudo do presente é bom. Melhor se faria, e se viveria se de fato houvesse aprendizagem com as experiências próprias e dos outros, se verdadeiramente se extraísse lições da história para não repetir erros, evitar outros, corrigir rumos, aperfeiçoar o que merece e garantir o presente e o futuro melhor do que se tem.
E para concluir, nada mais oportuno do que uma sensata observação de E. F. Schumacher, autor do famoso livro O negócio é ser pequeno: “Máquinas cada vez maiores, acarretando cada vez maior concentração de poder econômico e praticando cada vez mais violência contra o ambiente, não representam progresso, são uma negação da sabedoria. A sabedoria requer uma nova orientação da ciência e da tecnologia em direção ao orgânico, ao gentil, ao não violento, ao elegante e ao belo”.




Itaparica, 04 de fevereiro 2018



De lua, piões, arraias etc

Aqui no canto escuro da varanda, acompanho o ascender da lua cheia. Enormemente bela, num céu sem nuvens e sem estrelas, vai trocando o ouro pela a prata enquanto sobe. O vento bem fresco, quase frio, salpica as pequeninas pétalas das flores da pitangueira sobre a grama do jardim e traz saudades recentes. Bastava estar assim sossegada olhando a lua, sentindo o vento, revivendo os doces instantes de ontem. Mas algo dito ou ouvido, ou imaginado põe a mente a girar mais que pião dos bons.
Ah! os piões, quem ainda brinca com eles?  Noutro dia vi, impressionada, um vídeo mostrando como os piões são feitos artesanalmente no torno. Creio que o marceneiro, já com certa idade, embora muito concentrado devia se divertia com o trabalho, talvez revivendo suas próprias brincadeiras, alguns torneios, onde exibia destreza fazendo o pião rodar sobre o pé, subir pela perna, pular para a palma da mão e outros malabarismos. Agora caprichava na feitura de piões para alegria de outras crianças. Tanta habilidade, tanto esmero para fazer um simples brinquedo! Só por isso valia nunca deixar a brincadeira acabar.
Mas no mundo virtual, cibernético ou da tecnologia da informação ou da inteligência artificial não há lugar para piões, nem petecas, patinete, carrinho de rolimã, perna-de-pau ou de latas, telefone sem fio, periquitos de papel, arraias. No Mundo de arranha-céus não há mais quintais para as brincadeiras de casinha com comidinhas de folhas ou cozinhados. No mundo de carros e violência não há ruas livres ou seguras para as brincadeiras de rodas, passa-anel, fita, melancia, demarré, picula, chicotinho queimado, macaco (ou amarelinha), bom vaqueiro, onde está a Margarida, boca-de-forno. No mundo das indústrias, superprodução e consumismo os brinquedos são automatizados, movidos a controle remoto, comprados todos prontos, inclusive as arraias, ou papagaio, ou pipa, como também são chamadas, que nos antigos agostos impunha um longo ritual em muitas casas.
Lembro muito bem deste ritual na minha casa, praticado pelo meu irmão e seus amigos. Primeiro ir ao armazém da esquina comprar flechas (não sei se de cana, milho ou algum capim) e no armarinho comprar papel de seda, e carretel de linha. Cortavam o papel em retângulo num tamanho padrão. O retângulo podia ser de uma só cor, mas o mais comum é que fosse formado por pedaços de cores diferentes em mil combinações criativas (caneca, pão de leite, xadrez etc), cada um se esmerando para fazer a mais bonita, a mais original. A flecha era aberta ao meio e cortadas em duas taliscas no tamanho do retângulo após formarem o X sobre o papel, onde eram coladas. Daí vinha o mais difícil, amarrar a linha nas quatro pontas das taliscas e fazer a chave perfeita, imprescindível para bom desempenho da arraia ao subir ao céu e, sobretudo nas manobras para cortar as arraias alheias. A maioria fazia chave de 4 e os mais hábeis  faziam a chave de 5 saindo do meio da arraia ou da interseção do X, para causar admiração. Outro detalhe muito importante era a rabada feita com bolinhas de algodão amarradas na linha, formando a cauda, que precisava ter peso e tamanho ideal. Quem não podia comprar algodão, usava tiras de saco de aniagem.  Por fim, vinha o preparo do cerol. Com pedras quebravam vidro até formar um pó, às vezes peneirado numa meia pra ficar mais fino, sendo então misturado à cola feita em casa mesmo com goma de engomar roupa, ou farinha de trigo, ou quem podia, goma arábica. Outro motivo de inveja era quando um passava sacudindo um frasco com goma arábica derretida para fazer a cola. O carretel de linha era quase todo desenrolado no quintal, estendidos da cerca á árvores e pilastras da varanda para que pudessem ser encerados com o cerol, aplicado com as mãos, sem nenhuma proteção. Depois  de secar pegavam o carretel, enfiavam um pedacinho de madeira de uma extremidade a outra,  e com maestria reenrolavam a linha passando alternadamente por  baixo e por cima do pauzinho, dando o formato de oiti. Enfim, era correr atrás do vento. E eles não construíam apenas uma, não, mas várias. Tendo até  quem fabricasse para vender. Qual menino de hoje conhece e estaríamos dispostos a cumprir todo este processo? Basta ir ali comprar arraia, a maioria de plástico.
Quando ficamos mais velhos e fazemos alusões aos tempos idos, somos acusados de saudosistas, mas como evitar as referências ao passado, se nele está as nossas experiências e aprendizagens?  Não necessariamente tudo do passado é mal como nem tudo do presente é bom. Melhor se faria, e se viveria se de fato houvesse aprendizagem com as experiências próprias e dos outros, se verdadeiramente se extraísse lições da história para não repetir erros, evitar outros, corrigir rumos, aperfeiçoar o que merece e garantir o presente e o futuro melhor do que se tem.
E para concluir, nada mais oportuno do que uma sensata observação de E. F. Schumacher, autor do famoso livro O negócio é ser pequeno: “Máquinas cada vez maiores, acarretando cada vez maior concentração de poder econômico e praticando cada vez mais violência contra o ambiente, não representam progresso, são uma negação da sabedoria. A sabedoria requer uma nova orientação da ciência e da tecnologia em direção ao orgânico, ao gentil, ao não violento, ao elegante e ao belo”.



Itaparica, 04 de fevereiro 2018