Porque as folhas luzem
Sim, verdade que a luminosidade não devolve as
perdas, mas mitiga a dor e transmite sutil recado de Deus para quem crê, ou simplesmente
da natureza: Vejam. Enxerguem de verdade. A luz está a clarear os caminhos,
deixando distinto as curvas, as subidas e descidas, os atalhos fáceis que dão
em abismos, as estradas de terra e pedregulhos que levam a campos floridos. É
tempo de saber ver e saber escolher para que não hajam outras pandemias nem o
fim da espécie humana.
A Terra está aí linda, exuberante, indistintamente generosa
a conclamar simplicidade, comedimento, cooperação, respeito, referência,
tolerância, inteligência, harmonização de todos e tudo, enfim sabedoria amorosa
para bem ser e fazer. A luz está aí deixando tudo às claras. O Luzir não deixa
dúvida de que no Planeta cabem todos desde que não haja ganância, como bem
disse Ghandi. A luz revela que o Paraíso não foi perdido, tão só os humanos
nublaram as vistas e se perderam.
O luzir também diz que basta desanuviar os olhos para
se estar de novo no Jardim do Éden. E desnuviar-se significa livrar-se do
grande equívoco dos apegos, da vaidade, da gana pelo poder, fama e riqueza que
leva às disputas, concorrências, desigualdades, explorações desmedidas,
poluição. É da natureza da Terra ser boa e bela, a ruindade e feiura é obra dos
humanos. Os exemplos são inúmeros e acontecem a todo instante, fiquemos no
rasteiro mais trivial. Alguém chega num recanto ainda primitivo e se encanta
com as lagoas, ou rio, ou mar, a vegetação, se diz no paraíso. Mas logo, tem
ideia de um loteamento, divide a área em lotes, abre estrada, derruba
árvores, aterra nascente, joga esgoto no
rio. Enfim, trata de transformar o seu paraíso no inferno poluído e barulhento
a que se acostumou.
E que dizer do uso dos agrotóxicos? das derrubadas e
queimadas de florestas inteiras para atender a desenfreada superprodução com
que se insiste manter o regime econômico dos gananciosos, geradores das desigualdades
e injustiças sociais, da destruição do próprio habitat ou da cavação da própria sepultura. Chegará um tempo que se sentirá horror pelas
violências cometidas contra a belíssima e generosa Gaia e seus próprios
semelhantes. Quisera que já fosse agora, ainda a tempo de eu poder ver o povo
cantando seu canto de paz e felicidade.
O calor se intensifica na virada de estação com a
certeza de que dentro em breve se arrefecerá, tal como se o verão quisesse
deixar sua marca, ou como na dialética, chegar ao ponto máximo para gerar a sua
antítese. Assim, a minha teimosa esperança faz crer que o atual acirramento de
pandemia é o auge que a levará ao fim. Que assim seja com a virose e também com
a insensatez humana. Navegando na
irradiação das ondas luminosas também chegam notícias alvissareiras. O anúncio
do possível retorno do estadista agregador e mais maduro ao posto de comando e as
ações do papa, verdadeiramente cristão, que faz jus ao santo de quem adotou o
nome e ao Cristo Jesus a quem serve. Seres iluminados varando as trevas,
abrindo caminhos para harmonização e instalação do reino do céu na Terra.
As folhas brilham, as cigarras cantam, o calor
aumenta, os iluminados atuam, as vacinas chegam, a pandemia passa. E os homens, afinal aprendem que bom mesmo é
amar em paz e descobrem que para isso de bem poucos objetos se precisa, mas que a plena e genuína felicidade pessoal só é
possível com o bem estar coletivo
assegurado; quando não mais houver miseráveis, quando não mais houver
necessidade de caridades, quando se produzir apenas de acordo com as reais
necessidades e não para lucratividade de alguns, quando a relação com a
natureza for de harmonia e não de exploração, quando a sensibilidade do amor
preponderar, quando se construir uma sociedade saudável.
Utopia? Desvarios? A culpa é do brilho das folhas ao
ritmo do vento quente de fim de verão.
14 de março 2021, um ano sem sair de casa


















