terça-feira, 29 de março de 2016

DAS PEQUENAS FELICIDADES NO HOSPITAL



            O outono chegou, mas o verão ainda não se deu conta disso, ou simplesmente resiste em ceder lugar à nova estação. E os dias continuam longamente azuis, tanto que até após a ‘hora do ângelus’ a clara luminosidade permanece. É bem verdade que já se percebe o deslocamento do sol e da lua ao nascer, mas o calor é o mesmo, talvez um pouco mais abrasador com a diminuição dos ventos, de modo que a epidêmica preguiça assola entre os habitantes desta denodada cidade de Itaparica. Levantar-se da rede ou da espreguiçadeira, só mesmo para cair nas águas do mar. Portanto, veio a calhar a recomendação médica para que continue a repousar após passar os oito dias hospitalizada.
            Deitada na rede, que também embalança cálidas lembranças, repasso as pequenas felicidades experimentada durante o internamento. Uma das primeiras lições da arte de viver é aprender a tirar leite das pedras. A primeira felicidade foi transformar o repetitivo som do monitor cardíaco em voz de curiango, sendo transportada para chácara de Monte Gordo, onde na varanda à noite, ouvia-se o curiangar dos bacuraus no meio da escura estrada de barro entre matos que dava acesso à quinta de mil saudades. A segunda felicidade, ainda na UTI, também na base da transcendência do real, aconteceu quando o constrangedor banho-de-gato virou banho de lagoa, ao mentalmente cantar “ela tomou um banho de água fresca/ no lindo lago do amor/ maravilhosamente clara a água/ no lindo lago do amor”.
            A terceira felicidade, foi a chegada da amada filha e do querido amigo depois de quase 12 horas de solidão na fria UTI. Que bom, receber o carinho deles! Qualquer coisa assim como a vinda da primavera, até pude ver flores e ouvir cantar de passarinhos. Tal efeito fez com que no anoitecer deste mesmo dia eu fosse transferida para o apartamento. As persianas estavam fechadas, mas no amanhecer, foram suspensas e pude contemplar uma celestial nesga azul entre dois altos prédios e novamente pude ser feliz. Da cama podia ver as nuvens virem e passarem naquele estreito céu. Bojudas, aos flocos, esgarçadas como asas, alvas, brancas acinzentadas, róseas ao pôr-do-sol, elas passavam e era muito bom ficar assim olhando-as. Senti, parafraseando Alberto Caeiro, que só para ver passarem as nuvens, valia a pena ter nascido. A impressão terminou virando poema sobre nuvens viajeiras. Era a confirmação da influência que a natureza exerce no psiquismo e na disposição d’alma dos enfermos, o que deveria ser considerado pelos hospitais, levando-os a pôr claridades (de preferência naturais) e cores nas instalações, cercando-as de árvores e tendo a janelas dos quartos voltados para elas.
            Não se pense com isso, que tudo correu a mil maravilhas, que me encontrei num mar de rosas. Ninguém permanece num hospital por tantos dias impunemente. Houve momentos de apreensões e tristeza relativas ao problema de saúde e às questões de foro íntimo. Mas tristeza é coisa pra se afugentar e não pra acolher, portanto melhor voltar às pequenas felicidades. Outro momento de especial contentamento se deu quando depois de três dias, o acesso colocado na jugular foi retirado e, com o pescoço livre, pude tomar um maravilhoso banho da cabeça aos pés. O chuveiro de jato muitíssimo forte era uma cascata a massagear o corpo com choquinhos vibratórios. Que felicidade, o contato com aquela deliciosa água, a sensação de libertação e de volta à vida!
            Não era a liberdade total, fiquei lá por mais três dias aguardando o laudo do holter e avaliação final do arritmologista, quando, enfim, pude receber alta. As pequenas felicidades já experimentadas e leitura das aventuras de Alice Através do Espelho, o primor do nonsense de Lewis Carol, tornaram esta espera suportável embora tendo leves crises de arritmia, motivo de alguma preocupação. Por acréscimo, no caminho de volta para casa, deparei-me logo ao desembarcar da lancha, com o pé do abricó-de-macaco florido e já com alguns frutos, na praça de Mar Grande. Belíssima visão que tomei como saudação de boas-vindas. Mais uma pequena felicidade como foi ainda a seguida gentileza do motorista da topic que de longe veio pegar minha sacola e me deixou na porta de casa, além do bom astral dos demais passageiros que compreenderam e tiveram paciência com a mulher que encheu o veículo com materiais de construção, inclusive alisares de portas e janelas. Estava de volta e a minha alegria parecia contagiar a todos.         
Aos poucos vou voltando às minhas atividades normais com a satisfação de ter  experimentado todas estas pequenas felicidades, através das quais se chega à felicidade plena e ao domino da arte de viver.






6 comentários:

  1. Crônica maravilhosa de saudação a vida. Parabéns. Abraços, Nelson e Lucia

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    1. Não lembro se já agradeci,se não faço agora. Se, sim agradeço novamente,pois a gratidão nunca é demais.

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  2. Crônica maravilhosa de saudação a vida. Parabéns. Abraços, Nelson e Lucia

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  3. Interesante e cheia de vida, una crònica bellissima.
    Sergio Blasco

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    1. Muito obrigada Sergio. Fico contente que tenha gostado. Quando tiver um tempinho,lei as outras já postadas. A próxima que devo postar na próxima semana conta um caso acontecido em Itaparica.

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  4. Interesante e cheia de vida, una crònica bellissima.
    Sergio Blasco

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