sábado, 24 de setembro de 2016




 Maria Lúcia


Na tarde de primavera nublada havia luz no banco de cimento da pracinha detrás do Largo da Quitanda. Luz do sol do dezembro passado quando a amiga esquecera os óculos ali. A querida Maria Lúcia Ribeiro Martins viera rápido, com o companheiro Flávio Moreira da Costa, apenas para o almoço, a entrega do seu livro recém-lançado e o abraço apertado das saudades de tanto tempo de distâncias. Ela estava um tanto irritada pelo cansaço da travessia de lancha em pleno domingo ensolarado, ainda assim, jovial, encantada como tudo que via e encantadora como sempre.
Conversamos, rimos, andamos um pouco, falou que ia se submeter a uma intervenção para colocação de stent. Quando já estava no taxi que os levaria à Mar Grande para tomar a lancha de volta a Salvador, deu falta dos óculos. No mesmo instante me telefonou e eu comecei a busca passando pelos os lugares onde tínhamos estado. Logo em seguida ela e Flávio chegaram e intensificamos a procura, restaurante onde almoçamos, no outro onde ela foi ao banheiro e fez a dedicatória do livro para mim, no centro de artesanato... Aí ela lembrou que tinha deixado os óculos sobre o banco da pracinha onde sentamos para ela descansar um pouco. Voltamos lá e nada.
Maria Lúcia ficou vexada, afinal permaneceria no hotel em Salvador por mais alguns dias e não poderia ficar tanto tempo sem os óculos nem tinha como fazer outro. Estava vexada, mas determinada, como de costume. Chamou um rapaz que passava. Eu ainda pensei, como um cara que estava passando por ali naquele momento poderia saber dos óculos perdidos momentos antes? Porém ela parecia ter certeza de que o jovem saberia dizer onde estavam os óculos. E não era que sabia. °
Ela explicou o sucedido, ele simplesmente esboçou um riso e fazendo um sinal nos levou junto ao muro de uma casa, a uns 10 metros, se inclinou e de dentro da caixa de registro de água pegou os óculos e entregou a Lúcia, que bem do seu jeito infantilmente espontâneo, abraçou o surpreso rapaz, enchendo o rosto dele de beijinhos. Depois a explicação: ele morava ali perto e tendo visto, pouco antes, os óculos largado sobre o banco, pegou-os e os guardou, esperando que o dono viesse procurar.
Esta foi a última que vi a amiga e constatar isso nesta cinzenta tarde de primavera, além de certa dor no peito, trouxe outras e outras lembranças, a nossa destemida viagem num velho fusquinha à Cachoeira, onde gastamos bom tempo na oficina. As conversas, as longas e longas conversas, regadas ao café quentinho de que ela tanto gostava. Como tínhamos assunto! Nunca esgotamos nenhum... Ela falava muito, mas a gente não cansava porque tratava de coisas belas e profundas de maneira deliciosamente peculiar. Ela falava, mas, ao contrário da maioria dos tagarelas, sabia, sabia não só, gostava de ouvir e seu interesse em escutar fazia com que a gente também falasse, falasse, falasse.  E quanta ponderação, quanto apoio e estímulo passado!...Era muito bom isto. Como era bom estar em suas várias bem transadas moradias, sempre revelando a sua especial pessoalidade e nos fazendo sentir carinhosa e seguramente acolhidos. Aliás sua singular personalidade, com boas doses de excentricidades ou mesmo doidice, era evidente em tudo nela, inclusive no modo de vestir que eu muito admirava.
Como era bom compartilhar com ela os reparos das nossas leituras e a sutil percepção das minudências da natureza, que tanto nos fascinava! Era capaz de ficar horas a fio acompanhando o carreiro das formigas, ou, por dias, observar a construção de um ninho ou desabrochar de uma flor e entrar em êxtase diante de uma inusitada conchinha do mar. Como era bom tomar chá e apreciar o pôr-do-sol no  Solar do Unhão, explorar a Casa da Torre, participar das sua peripécias e atrapalhadas, vê-la leve, solta fazendo pose para a foto nos galhos do grande cajueiro polvo... Sobretudo como era bom aquele sorriso fácil que vinha da alma alegre e iluminava tudo e todos, como sol do alto verão.
Era verão na última vez que vi a amiga e será sempre verão toda vez que dela lembrar, pois esta era a sua condição de ser. Ser luz e calor para quem encontrasse.
 .

5 comentários:

  1. É uma grande alegria "reve-la", esbanjando talento literário, e exalando sensibilidade, ternura e afeto que é como me lembro de voce. Faz mesmo muita falta os sentimentos que tão bem voce personifica em suas crônicas e prosas. Dia desses apareço pra espiar o rastro de lua em Itaparica.
    Grande abraço !

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  2. Belo texto. Sem uma ponta de pieguice. Sua amiga deve ter ficado feliz, onde quer que esteja.

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  3. E parabens pela trajetora literária, que acabo de ler.vamos trocar figurinhas: segue o link do meu site/blog "Lidia V. Santos, escritora": www.lidiavsantos.com

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  4. Nossa!!!, que texto grande Gilka. Depois leio o resto. Depois o resto. Kkkk o que ela tinha de faladeira vc tem de escrevedeira. 😀😀😀 eu tb escrevo muito e devagar.

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  5. Minha mãe, quanta saudade de vc. Um 💋 em seu ❤️ onde estiver.

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