domingo, 16 de abril de 2017





Andanças - 1

            Ignorando as instituições humanas os primeiros dias de outono continuam sendo de verão. Houve uma chuvinha, é certo, mas apenas para lavar as folhas e deixá-las refletir melhor o intenso azul do céu. Isto apesar dos últimos tempos estarem trevosos com alastramento da insensatez por todo mundo avivando o fascismo e nazismo e no Brasil a ideologia Temer a nos fazer tremer e temer o futuro.
            Assim no mundo, assim na vida pessoal, quando entre tantas coisas dá-se o embate com o Plano de Saúde ao se precisar fazer uma cirurgia. Então a gente lembra dos versos de Vinicius de Moraes, “Mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade.” E cantamos e saímos por aí a cata de encantamentos para animar os corações e suavizar a atmosfera, porque ninguém resisti muito tempo às tristezas continuadas, porque, como se sabe, cantar espanta os males e “um pouco de beleza, é uma alegria para sempre".
            Saímos com Linda e Rosana Coutinho, Elisabeth Pardo, conduzidas por Willian (sic) por nossa Ilha afora, nos deliciando com o que vemos e descobrimos nos pequenos mundinhos que quase não aparecem nos mapas ou jazem esquecidos, ainda bem, da turbulência da fria civilização tecnológica, onde se tem tudo menos a serenidade, onde se tem tudo, menos tempo para o que realmente importa.
            E numa manhã azul chegamos à Barra do Paraguaçu, onde a beleza e o sossego fizeram morada, o que levou Linda a indagar, “o que se faz aqui?”. Logo mais ela teria a resposta. Não se via casas comerciais nem outros serviços. Via-se largos espaços arborizados à beira do mar de translúcidas águas calmas que recuam na maré baixa para dar lugar às vastas coroas de areia, campo de mariscagem e de prolongamento do silêncio. Ah! o silêncio. Debaixo de uma frondosa amendoeira estavam as mesas e cadeiras do único restaurante, com clientes tranquilos. Em pleno domingo de sol forte, nenhum som das sofrências, pagodes, paredões e de outras misérias enlouquecedoras que assolam na Bahia.
Mais adiante, na parte em que carro não entra, um conjunto de casas coloridas é acréscimo do pitoresco. Ali, defronte de um quiosque à moda de coreto encontramos um velho pescador bem aprumado apesar da muita idade.  Debaixo do chapelão de palha o sorriso ilumina o dia mais ainda, e animado, mas pachorrentamente fala do lugar, das pescarias, da sua vidinha. Lembra o dia em que ainda pequeno levou um corte de facão no pé que deixou o dedo dependurado. A falta de assistência médica não foi problema: o pai correu ao quintal, tirou água do caule da bananeira, colocou na ferida, amarrou o pé e logo ficou bom sem nem sequer ficar marca.
 Conta lendas como a fonte milagrosa que existe perto do cemitério. É só beber da água para alcançar as graças queridas e também se manter forte e saudável. Ele mesmo sendo comprovação disso, exibindo jovialidade e saúde. Conversa boa, mas queríamos ver mais. Tiramos fotos, nos despedimos e fomos adiante. Adiante, o encontro das águas do Rio Paraguaçu com o mar sob antigo cais tendo obelisco em homenagem à Maria Quitéria e um farolete. Voltamos, almoçamos à sombra da amendoeira diante do mar e em quietude contemplativa.
 E coroando o passeio, uma surpresa. Na hora de pagar a conta, indo passar o cartão no interior do restaurante, no outro lado da rua, nos deparamos com um mundão de flores, de arranjos florais em galhos e cipós, mandalas e outros objetos, primorosamente feitos de conchas e escamas. Era o artesanato, mais que isso, a arte de Adelaide. Ela engenhosa, hábil e criativamente usa conchas de lambretas, vieiras, tacaraúnas, tarioba, unha de noiva, mãozinha, sururu, ostras e mais, unha de peguari, osso de baleia e escamas, combinando os diversos formatos e as cores próprias das conchas para compor suas peças.
Foi também neste momento que Linda teve resposta para sua indagação inicial: “O que se faz num lugar como este?”, pois ficou sabendo que além de criar suas obras de arte, Adelaide tem agenda cheia a semana toda, realizando trabalhos com a comunidade: aulas de artesanato, curso de inglês, atividades diversas com idosos entre outras, tudo no voluntariado. Não há dúvida, Barra do Paraguaçu é um pedacinho do mundo não apenas belo pela natureza, mas também por sua gente sorridente, afável que sabe viver na paz da simplicidade e da solidariedade. 



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