quinta-feira, 8 de junho de 2017




DIA LINDO
Não sei como estará o dia em que esta crônica for lida. Mas hoje o dia está lindo. Agora, neste exato momento, o dia está lindo. Nem quente nem frio, nem particularmente primaveril, outonal, estival ou invernal, mas, amalgamando todas as estações no que elas têm melhor, está perfeito, mais-que-perfeito. E quando o dia está assim, não se pode ficar triste. Pensar, falar, lembrar de tristeza é pecado mortal, como também o é, deixar de dizer, de escrever, de gritar aos quatros ventos, que o dia está lindo! E por estar desta maneira, luminosamente plácido, com as cores avivadas, vontades fora de moda emergem do recôndito da alma.
Então... Então, de repente, é muito importante, muito urgente, ficar a ver o vagaroso vagar das alvas nuvens. É preciso dar as mãos e sair por aí, pelas estradas do sol, inteiramente livre de dores e anseios passados, presentes e futuros.  É preciso cantar, não para espantar mágoas nem cativar ninguém, é preciso cantar sem razão alguma, tão somente é preciso cantar, como é premente também sorrir, dançar, abraçar, dar bom dia a torto e a direito, abrir a janela para que a libélula largue de se debater contra a vidraça, ou salvar a formiga duma pocinha. De repente, os olhos umidificam-se perante a rosa branca em par com o róseo botão semiaberto ou a com a delicadeza do sebinho saltitando de galho em galho, ou do minúsculo colibri verde sorvendo néctar. Tudo porque o dia está lindo.
Porque o dia está lindo, todos os amigos de todos os tempos, inclusive os que são só memória,  podem de reunir num imenso piquenique na clareira entre frondosas árvores limosas, ou debaixo dum denso coqueiral, como os existentes outrora, diante do mar azulíssimo.  Novos amores podem nascer ou antigos amantes se reencontrarem e se desmancharem em ternuras inteiramente esquecidos do quê os fizeram se apartar. A beleza do dia invade os corações e já não há nenhum inimigo ou desafeto, assim como não há mais ninguém se achando feio. Todos são Narcisos sem narcisismos, pois os semblantes que se refletem nos espelhos é a alegria que lhes vai ao âmago enternecido com tanta formosura do dia.  O mais casmurro dos casmurros sorri, os doentes levantam-se e andam e os velhos com seus netos seguem as filarmônicas que passam em direção aos coretos das praças.  
E porque o dia está lindo, todas as crianças são anjos de candura e obediência que apenas sorriem, acarinham, brincam em quintais e, nas salas de espera, nos cinemas, mercados, shoppings, mantêm-se quietas e silenciosas, sem pular, berrar, espernear, esbarrar, aporrinhar. E não só as crianças, também os adultos sabem se comportar em lugares públicos, sem incomodar quem está por perto, de modo que é possível alguém ler enquanto espera ser atendido pelo médico.  Aliás, porque o dia está lindo, todos os aparelhos de TV das clínicas, bancos, bares, restaurantes, que mais contribuem para o barulho e para impedir os diálogos, desapareceram. Na verdade, os próprios estabelecimentos empresariais (tudo que tem teto e parede) sumiram, ou, ao menos, estão vazios, porque dia assim pede varandas, praias, jardins, parques, espaços abertos, onde a beleza do dia esplende e comove.
E comovidas, as caçambas de areia param de desmanchar as dunas, as vastas, altas dunas, de Busca Vida e Jauá, que tanto o Movimento Paranapiacaba, lutando contra a ganância de uns e omissão e indiferença de outros, insiste em preservar. E porque o dia está lindo, as matas, mesmo as pequenas, circunscritas ao condomínio, são deixadas, em paz, livres dos megaprojetos imobiliários escudados em atividades espirituais ou de oferta de míseros empregos. Ante a gratuidade de tamanha beleza os escudos ficam transparentes e o dinheiro deixa de ser prioridade. E os tamanduás-mirins, as raposas, as lebres, as corujas, todos os bichinhos da restinga festejam o prolongamento da vida silvestre, acompanhados por um sem número de coloridos e canoros passarinhos, os grande partícipes da lindeza do dia.
Comovidos, todos os carros de, ou com, som, que tanto perturbam o sossego alheio, são desligados. Cônscio do ridículo e da grosseira falta de educação, ninguém mais quer convencer, se impor ou se mostrar através da potência dos seus alto-falantes. E os sons que se ouve são suaves adágios e árias: o azulado solo de violino dos sanhaços; a cantata do vento nas folhagens; o sibilar das cigarras; o rumorejo das ondas ao espraiar-se nas praias ou batendo nas pedras dos cais; o cantar de passarinhos; uma voz em acalanto cantando longe, longe; um estalar da vagem que se abre para a semente cair; o castanholar das asas da rolinha fogo-apagou no alçar voo; o assovio do chefe mico em chamamento do bando.
Comovidos muitos se põem com afinco a limpar os rios para que possam novamente espelhar o céu, onde, em meio às nuvens refletidas, deslizam barcos e pedalinhos em passeios nos dias bonitos como este; e o Rio Joanes, sobretudo em sua foz, volta a exibir refulgentes azuis  no seu serpentear por sobre e por entre areia branquinha, sem mais conspurcar a também esplendorosa praia de Buraquinho. Comovidos, homens, mulheres, crianças saem atrás dos rastros humanos a catar lixo largado à-toa, a plantar árvores e flores, a pintar casas e prédios. Tudo reluz e o dia fica ainda mais bonito. O reluzir toca fundo, chega à essência divina de cada um, reacende a centelha que anima o ser. Então, todos descobrem em si, a ilimitada capacidade de amar irrestritamente e intensas ondas amorosas se formam em cada coração e transbordam e se mesclam e, enfim a fraternidade universal vigora.

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