quinta-feira, 29 de junho de 2017



NA FILA DO BOLO


O Pai, a filha e o marido da filha chegaram cedo, mas já encontraram a fila grande naquela manhã de 23 de junho. Como se sabe, brasileiro adora fila e não perde oportunidade  de formar uma: se a bilheteria do estádio ou do teatro vai abrir às 10 horas, desde as cinco a fila começa a se formar. Longe de ser entediantes as filas para os nascidos no país abençoado por Deus e bonito por natureza serve de catarse, ali se reclama da razão da fila, dos preços, do governo, dos jogadores; ali se discute a última partida de futebol e se conta piada, fala-se da própria vida e das alheias.  E se for daquelas que varam a madrugada bem provável “rolar” um sambinha e virar um forrobodó. Nas filas podem acontecer quase tudo e naquele dia não seria diferente.
Também todo mundo sabe que um bom baiano no São João não dispensa canjica, amendoim cozido, milho cozido, milho assado, pamonha de milho ou carimã e, sobretudo os bolos de aipim, carimã, milho e tapioca. Porém, como diria Caymmi, “o trabalho que dá pra fazer é que é”. E em tempo de redes sociais, “ninguém quer saber do trabalho que dá”, inda mais quando são achados prontos nos mercados, padarias, delicatessen ou lojas de venda de bolo que viraram moda e proliferam em todo canto. Portanto não era de se estranhar que onde o pai, a filha e o marido chegaram ainda cedo, a fila estivesse tão grande estendendo-se pela rua. Já começavam chegar vendedores de cafezinho, de água, amendoim cozido e torrado, pipoca, cachorro quente e até cerveja. Que eles têm o dom de surgirem do nada onde há filas e engarrafamentos.
Lá de trás vinha, de algum celular,  a voz de Luiz Gonzaga cantando “Ai que saudades que eu sinto / Das noites de São João / Das noites tão brasileiras na fogueira / Sob o luar do sertão... provocando doces recordações aos mais velhos, saudosamente comentadas, levando outros a condenarem a descaracterização dos festejos atuais do forro carnavalescamente eletrizado. Mas, na frente a voz de um senhor idoso sobressaia sobre tudo, fazendo gracejos, pilheriando. Empolgado consigo mesmo, lá para tantas imprudentemente proclamou bem alto:
— A fila está grande porque as mulheres preguiçosas de hoje em dia não querem mais fazer bolo.
De imediato, do meio da fila ecoou a estridente indignação da filha que estava ali com o pai e o marido:
— Os homens também podem fazer bolos, por que não fazem?
— Porque gostam de pegar fila. – Completou a senhora vizinha.
O senhor da frente riu, outros mais riram.  O pai da mocinha enfezou a cara por achar que a filha estava arranjando confusão.  O marido pôs as barbas de molho. O machista falador se calou por reconhecer a mancada que dera ou por simples medo de ser linchado, porque embora com poucas palavras simples, sem conter nenhuma ofensiva, fora dita de tal forma com firmeza inconteste a fazer calar e tremer qualquer machão numa fila com muitas mulheres.  



Nenhum comentário:

Postar um comentário