sábado, 11 de setembro de 2021

 

MARIPOSINHAS BRANCAS





 

Como eu disse certa feita, são várias, em diversidade e em quantidade, as inusitadas visitas que recebo e que suscitam admiração, alegrias, encantamentos, as vezes temores, longas reflexões e sempre rendem crônicas. E a coisa continua.  Há três dias estou com novos hóspedes em casa e não sei nada sobre eles. Nem sei se são eles ou elas. Uso o masculino apenas por norma gramatical que faz o ‘ele’ prevalecer até quando sujeito é de gênero indefinido ou nas abstrações. Herança dos tempos machista que perdura aqui e ali.

 Mas voltemos aos meus misteriosos hóspedes. Umas sete criaturas pequeninas, mimosas, muito brancas, de alvura perfeita como as roupas lavadas antigamente com sabão em pó rinso, silenciosas, discretas, não causam nenhuma alteração na rotina da casa. Chegaram sem serem notados, se instalaram na cozinha, nas portas de vidro que dá para área de serviço, da geladeira e dos armários, onde permanecem imóveis até agora.  Somente, quando sem querer, esbarrei numa, houve sinal de vida a revelar que são seres alados e que, portanto, voam. Então descobri que eram minis mariposas.



Por aqui não faltam mariposas. Tem as grandes, escuras chamadas bruxas a que se atribuem malefícios e agouros, porque segundo a lenda são feiticeiras transformadas em borboleta e que o pó das suas asas cega.  São comuns as de tamanho médio de cores variadas, agora, dessas diminutas branquinhas, nunca tinha visto. Entre o fascínio e a curiosidade, chegou pertinho, tiro fotos, e vou pesquisar. Preciso conhecer meus hóspedes. De imediato, fico sabendo que os povos guajiros da Colômbia consideram a mariposa branca como espírito de um antepassado que vem ao mundo terreno visitar seus parentes e que por isso não se deve matar nenhuma quando entram em casa.

E novas descobertas faço. Descubro, por exemplo, que ao contrário do que se costuma acreditar as mariposas não voam em volta das lâmpadas porque são atraídas pela luz. Na verdade é mais um dos males que os humanos provocam na natureza com as artificialidades que criam para compensar suas carências. Por não termos luz própria como os vagalumes, as águas vivas, as estrelas e precisarmos dela para enxergar, inventamos as lâmpadas que além de apagarem as luzes das noites e até nos cegarem por encandeamento, confundem as tartarugas e outros animais noturnos como as mariposas que têm por característica a orientação transversal, ou seja, se orientam segundo a luz da lua.



Os insetos noturnos quando saem para caçar voam em uma certa direção com relação à lua de modo a poder retornar ao seu habitat. Mas, uma fonte luminosa na terra mais intensa que a luz da lua, acaba por confundi-los e os fazerem voar em círculos ao redor dessas lâmpadas, até morrerem ao encostar nelas e queimar as asas. E esse voejar fatal das mariposas serve de metáforas para músicas poesias e de inspiração para lendas. Assim, fazendo-se a comparação, diz-se que uma pessoa tomada pela paixão, não enxerga a verdadeira luz e acaba se perdendo na ilusão.



Também se faz analogia com aqueles que buscam a iluminação espiritual, que procuram Deus. Por ser um inseto que passa por várias etapas de transformação, simboliza o processo de espiritualização, que exige período de recolhimento, de introspecção de mudanças pessoais até a conquista da serenidade, libertando-se dos equívocos, das ilusões e atingindo o estado de graça ou da  bem-aventurança, tal qual a mariposa que se arrasta como lagarta, passa tempo isolada  no aperto do casulo, até conseguir com muito esforço criar e libertar as asas e, enfim, voar.



Entro no mundo da biologia e certifico-me da importância das mariposas na natureza, sendo elemento da dieta de diversos animais, além de ajudar no controle de plantas invasoras e na polinização. Descubro que elas têm espirotrombas, algo como a “língua-de-sogra”, brinquedo das festas infantis. Quando querem comer desenrola a língua para sugar o alimento e ao acabar a recolhe enrolando. Contudo há espécies com a Mariposa Atlas que não tem boca porque não precisa se alimentar. Durante a fase de lagarta, ela come muitas folhas, estocando boa parte para crescer e sobreviver como mariposa. E tem mais, algumas podem ficar imóveis por muito tempo, aguardando o chamado sexual ou até sentir cheiro de algo que lhe sirva de alimento, ou ainda por estar no fim da vida, já que elas vivem apenas alguns meses.

Sobretudo fico sabendo que as mariposas brancas também representam sorte e a prosperidade. Muitos consideram que elas têm ótimas energias e que sua presença em casa é sinal de boas notícias. Mera superstição, é claro, mas é muito bom acreditar que minhas lindas e misteriosas hóspedes vieram me trazer sorte, sempre oportuna, mais ainda nestes tempos cheios de riscos. E que venham, pois, as boas notícias, de que, como todos, tanto ando necessitada.



 

 

 

Um comentário:

  1. Nao falta sensibilidade em Gilka Bandeira para ver beleza e inspiracao, em tão pequenas coisas!

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