segunda-feira, 6 de setembro de 2021

 

NOSSA VIDA NÃO NOS PERTENCE




Por uma dessas sem razões da vida, no momento em que paro à janela a contemplar uma formação de nuvens branquinhas atrás dos lavados verdes que longamente se estendem por aqui,  me vem à cabeça a frase: “a vida é minha, faço com ela o que quiser”. Pensando melhor, não é tão sem razão assim, que essa frase aflora. Afinal muito tenho escutado ela nos últimos tempos, principalmente pelos que se recusam a tomar a vacina contra a covid 19 ou a respeitar as normas de proteção na pandemia. O sem razão, então, fica sendo tão só porque o cenário é belo e há uma sabiá em concerto acompanhada pela orquestra de mar e brisa, ou seja teria coisas mais agradáveis com que ocupar a atenção.

Mas, sabem como é a mente da gente, uma vez iniciada, a viagem prossegue. E a frase persiste: “a vida é minha e...” Será? A dúvida vem. Será mesmo que a nossa vida é nossa mesmo?  só nossa? e podemos dispor dela ao bel prazer? Basta pensar nas dores que uma vida que se acaba provocam nos entes queridos ou os reflexos que nossas ações produzem na sociedade, para concluir que não. A nossa vida não nos pertence, pelo menos, não só a nós mesmos. Se o nosso existir afeta os outros, então a nossa existência não é só coisa nossa e se é também de outrem, eticamente não temos direito de decidir sozinhos o que fazer com ela. Causamos mais sofrimentos, trabalheiras, custos e prejuízos aos outros e ao planeta do que podemos supor. Basta existir para provocar impactos.


Veja-se o caso da recusa da vacina e dos cuidados nesta pandemia. A primeira vista,  tomar  vacina, usar máscara, ir ou não a festas é uma mera questão pessoal.” Se ficar doente, problema meu”. Não mesmo. Se ficar doente, vai fazer familiares e amigos sofrerem com seu sofrimento ou morte, isso se não os contaminarem e matarem também. Vai sobrecarregar os profissionais da saúde e coveiros que já vem trabalhando sob exaustão, vai aumentar os custos dos hospitais, vai  exaurir um pouco mais os recursos da terra com o gasto de energia e de outros materiais usados nos medicamentos e equipamentos, necessários ao  tratamento médico. Vai impedir que outros doentes tratem de suas doenças por receio de serem contaminados. Vai contribui para que a pandemia se prolongue indefinidamente com todos os males físicos, psíquicos, econômicos, sociais que vem causando.

Diante disso a tão propalada liberdade e individualidade é posta em questão. Se olhado direito, o livre arbítrio é mera ilusão, de que nos valemos para alimentar nosso presunçoso egoísmo ou egocentrismo, para nos sentirmos poderosos, donos da Terra, autônomos, independentes, livres, para disfarçar a nossa indigência.  Num momento histórico de tão exacerbado individualismo como  o  que vivemos, é difícil encarar essa realidade. A satisfação pessoal está colocada acima de qualquer interesse coletivo, muito embora soframos as consequências do que atinge o coletivo, sendo nós próprios parte desse coletivo.  Colocamos a liberdade destituída da responsabilidade ética acima da fraternidade.

Contudo somos seres que precisam da autoafirmação dentro de um contexto de integração. Somos sistemas e subsistemas ao mesmo tempo, como tudo no cosmos. É difícil aceitar essa realidade da liberdade dentro de uma redoma, do individual limitado pelo bem comum. Entretanto a compreensão da nossa efetiva condição poderia resultar em bem maior. Em vez de continuar debatendo-se contra a vidraça poderíamos nos entregarmos à solidariedade, que nos assusta porque nos pega pelas asas, mas que nos põe fora para voar.


A tarde avança, as nuvens fazem e se desfazem e eu continuo refletindo, derivando para o devaneio. Penso que as coisas ficaríamos mais fáceis se em vez de conquistar, procurássemos nos harmonizar com as leis universais, entre elas, a principal, a lei do amor, a força de coesão universal que transforma o caos no cosmos. Com essa compreensão, harmonizados, veríamos as vantagens, e poríamos em prática, a cooperação, a solidariedade ainda que a custo de momentânea restrição da liberdade individual. É o que a atual pandemia parece conclamar: uni-vos seres humanos, ponham mais peso no prato da balança em que está a necessidade de integração, porque se houvesse solidariedade, se tivesse havido real colaboração de todos, a pandemia já teria passado e todos estaríamos livres para fazer o que quisessem sem medo, sem remorsos, felizes por celebrar a vida.

Sim, a pandemia veio lançar diretamente questões fundamentais: Como podemos ser felizes em meio a um mundo de infelicidades? Como podemos ser indiferentes as dores alheias, quando também sentimos dores? Cada um não é um outro para os outros? Não seria tempo de seguir a regra de ouro de fazer aos outros aquilo que deseja pra si. Não estaríamos no tempo de rever os valores, os modos de produção e de relação e se tratar de equilibrar o trinômio da revolucionária divisa. Liberdade, igualdade, Fraternidade, e não apenas fazer prevalecer um dos termos? Liberdade com responsabilidade e respeito ao outro, ao coletivo, para que haja igualdade de oportunidades conforme a regência da fraternidade, e se construa um mundo feliz, em que todas as vidas tenham igual valor e não  somente  algumas usurpadoras de privilégios.  

O dia começa se apagar atrás das nuvens, agora tangerinas, vagando sobre o céu genciana. A sabiá se calou, mas os violoncelos da orquestra marinha continuam entoando o adágio em surdina, enquanto o vento fazendo os coqueiros de harpa vai tangendo suas palhas que adernam lentamente. Já é hora de deixar de filosofar e ficar ao pé da natureza apenas como se deve estar segundo o poeta Fernando Pessoa, sem pensar em nada, pois, como ele também diz, “sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.



 

4 comentários:

  1. Ah, Gilka o mundo ideal...
    O mundo do "espetáculo" escluido do mundo dos humanos

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  2. Cara amiga Villa. A Vida não me pertence. Ela É. Eu sou um breve momento. Está semana dei uma topada fenomenal em uma ponta de uma pedra q faz a calçada mal cuidada da rua do catete. Estaboqyei com a testa e nariz na pedra duríssima. Me custou medicamentos para dor e assepsia e mais de 4 hr em emergência para exame de tomografia da cabeça e face que nao apresentou nada . Daí lhe digo e a mim, não sei de nada da Vida. Nem a topada do próximo segundo. Ótima crônica,cada vez melhor. Forte abraço, querida amiga.

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  3. Beleza de crônica e uma grande reflexao para as pessoas, aqui no Brasil e no mundo tão individualistas .Parabéns, amiga!

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