Gentileza
Gentilmente
o pássaro preto me acordou cantando bem junto a minha janela. Evidente que esta
não era a intenção da avezinha. Na certa se comunicava com os parentes ou
simplesmente louvava a vida. Mas a carência de gentileza, nestes tempos do meu
pirão primeiro, é tão sentida que apraz crer nesta doce ilusão. Mesmo porque a
gentileza é assim, como o feliz cantar despropositado de um pássaro à nossa
janela de manhã cedo: um raio de sol a incidir no coração, enchendo-o de
energia e alegria.
O dia todo fica
iluminado quando logo cedo se recebe, seja de quem for, um amistoso bom-dia,
uma deferência qualquer, especialmente, um
sorriso sem aparente motivo, tão só o abrir-se à cordialidade. “É bom deixar
/ um pouco de ternura e encanto indiferente / de herança, em cada lugar”. Dizia
Cecília Meireles. Haverá gratificação maior do que ser, espontaneamente sem
alarde, um agente da fraternidade? A genuína gentileza faz feliz a quem recebe
e quem a oferece. Opera milagres, abre portas, neutraliza animosidades, elimina
conflitos, facilita o entendimento, melhora as relações, principalmente porque “um gesto
gentil também desencadeia reações similares em cadeia”, frisa a jornalista
Eliane Brum no artigo Gentileza gera gentileza.
A este propósito, corre na
internet a historia de um executivo que se surpreende ao ver seu amigo
agradecendo e elogiando o comportamento corriqueiro do motorista de taxi.
Questionado, o amigo responde que está na Campanha da Gentileza explicando: o taxista ganhou o dia com o que eu disse.
Imagine agora que ele faça vinte
corridas hoje. Vai ser gentil com todas as 20 pessoas que conduzir, porque
alguém foi gentil com ele. Por
sua vez, cada uma daquelas pessoas será gentil com seus empregados, com os
garçons, com os vendedores, com sua família. Sem muito esforço, posso calcular que a gentileza pode se espalhar pelo
menos em mil pessoas, num dia” Em seguida acrescentou que pretendia agir assim
com todas as pessoas que
encontrasse naquele dia, e se, ao menos, três delas ficassem felizes, ele
estaria influenciando as atitudes de um sem número de outras. E, se
ninguém se sensibilizasse, não importava. “Para mim, não custou nada ser gentil”, concluiu
O valor da gentileza
também pode ser aquilatado pela sua ausência. Muito da irritação, do cansaço,
da dor de cabeça, da intolerância, da gastrite, da ansiedade, do estresse de
todo dia advém da falta de gentileza de uns para com os outros. Do bom dia que não
foi pronunciado, do por favor, com licença, muito obrigado, desculpe que não foram ditos, da ajuda negada,
da impaciência no trânsito, do pedido de
informação negado ou dado de má vontade, dos telefonemas não atendidos, da
música alta e da voz estridente em qualquer canto, do atendimento desleixado,
dos maus modos, das palavras ásperas, do e-mail não respondido, da crítica
destrutiva, da cara de mau, do sorriso
economizado, do elogio omitido, da postura defensiva. “Uma soma de pequenos e desnecessários gastos
de energia que só serviram para nos intoxicar”, diz Eliane
Brum, observando ainda que: “se cada um de nós fizer uma
reconstituição mental do nosso dia, hoje mesmo, vai perceber que o pior dele
foi causado porque não foram gentis conosco nem fomos gentis com os outros.”
Portanto, não cabe se fazer de vítima, pois não é só a indelicadeza do outro
que nos atinge, mas também a que praticamos ou não, devido ao efeito
bumerangue. Bom é retribuir uma indelicadeza com a gentileza, evitando-se o
círculo vicioso. Pode-se mostrar que não se gostou da maneira como foi tratado
sem ser indelicado.
Ser gentil é uma
atitude existencial. “Gentileza é um
modo de agir, um jeito de ser, uma maneira de enxergar o mundo. Ser gentil,
portanto, é um atributo muito mais sofisticado e profundo que ser educado ou
meramente cumprir regras de etiqueta, porque embora possamos (e devamos) ser
educados, a gentileza é uma característica diretamente relacionada com caráter,
valores e ética; sobretudo, tem a ver com o desejo de contribuir com um mundo
mais humano e eficiente para todos. Ou seja, para se tornar uma pessoa mais
gentil, é preciso que cada um reflita sobre
o modo como tem se relacionado consigo mesmo, com as pessoas e com o mundo.” É
o que enfatiza Rosana Braga no artigo Invista no poder da gentileza.
Talvez aí esteja a explicação para
a escassez da gentileza atualmente. Na era do individualismo exacerbado,
ninguém enxerga ninguém. Recentemente um cientista fez um estudo interessante.
Vestiu-se de gari e ficou a limpar os corredores da universidade. Ninguém o
reconheceu. Nenhum colega ou aluno deu um bom dia ao servente que limpava a
área que eles usavam. Outra experiência semelhante confirma a cegueira das
pessoas: um concertista, aplaudidíssimo em suas apresentações nos teatros,
resolveu tocar violino numa gare de metrô e
igualmente passou despercebido dos transeuntes. A este respeito, vale ler outro
trecho de Rosana Braga:
“A rotina nos cega,
costumo dizer. Pressionados por ideias equivocadas, que nos pressionam a ter
sempre mais, a cumprir prazos sem nos respeitarmos, a atingir metas que, muitas
vezes, não fazem parte de nossa missão de vida e daquilo em que acreditamos,
nos tornamos mais e mais insensíveis. E nesta insensibilidade, vamos agindo e
nos relacionando com as pessoas — mesmo
com aquelas que amamos — de forma menos gentil, mais apressada e mais
automatizada, sem nem nos darmos conta disso. É por isso que, a meu ver, ser
gentil não pode depender do outro, não pode ser uma moeda de troca, tem de ser
uma escolha pessoal, um entendimento de que podemos fazer a nossa parte e
contribuir, sim, para um mundo melhor. Leonardo Boff tem uma frase maravilhosa
que resume bem o que quero dizer: ´Não serão nossos gritos a fazer a diferença
e sim a força contida em nossas mais delicadas e íntegras ações´.”
Pertencendo à
família do amor, ou sendo um dos seus estágios iniciais, a delicadeza sempre
gera delicadeza. Por isso o Espírito Meimei disse que "o primeiro degrau do Paraíso chama-se
gentileza" (apud Noeval de Quadros no artigo O Poder da Gentileza). E não se trata só do Paraíso Celeste de
depois da morte, mas também o Éden Terrestre, pois com a continuada e expandida
melhoria das relações se fará um mundo gentil. E um mundo gentil certamente se
constitui num Paraíso. Comecemos por reparar quem está ao redor e seguir a
regra de ouro: “trate o outro como gostaria de ser tratado”. Aprendamos a ver
qualidades e ter sempre a intenção de ser cordial e espalhar alegria.
Jul. 2011




