domingo, 25 de junho de 2017



O inverno que chega

 

Após um belo breve veranico de fim de outono, as chuvas intensas caindo sonorosas nos telhados, nas árvores, nos cimentos humanos e na terra agradecida são clarins do inverno que chega amanhã.  Um poeta diria que os céus choram as dores do mundo, mas um amante preterido diria que os céus penalizados choram as suas mágoas, e dito isto sentiria aumentar a intensidade das chuvas que lhe saem dos olhos.  
Em meio a dor o rejeitado constata que em tempo de saudade toda miudeza é lembrança ardente: o marisqueiro que passa mercando siri de mangue, traz a lembrança da varanda com arcada de pedras onde se comia siri com o perfeito pirão. As escadinhas do cais, a rede na varandinha, o mar diante da praça, o fim de tarde na praia dos tamarindeiros e tantas e tantas minudências ganham significado além do real e faz sofrer. Para isso servem os momentos de bondade, beleza alegria, para se tornarem lembranças ardentes no tempo da saudade. Mas além das saudades do vivido há as saudades do que faltou viver. E as chuvas de fora e de dentro aumentam.
Todavia as chuvas caem alheias a qualquer dor. Caem porque é este o destino das nuvens pejadas de água, desaguarem assegurando a continuação da vida biológica no planetinha azul. Lembrar dessa verdade é ficar feliz com as chuvas e também com as próprias lágrimas, porque desanuviam mágoas, lavam a alma e o coração. Como diz a canção “chore, que a tristeza/ foge do seu olhar”. E o olhar limpo é mar calmo de baía espelhada a refletir outros olhos e convite a novas travessias.  E já o amante enjeitado trata de transmutar a nostalgia.
Então, vai tomar chocolate quente, ler poesia, ouvir algo como abertura de Peer Gynt a pô-lo a navegar por fiordes de longínquas terras de memória atávica e a se dar conta de que o enigma e a diversidade da vida não merecem as lágrimas dos apaixonados. Compreende que o amor verdadeiro não confrange o amado com lágrimas grades e, ademais, “Pra que chorar/ Pra que sofrer/ Se há sempre um novo amor/ Em cada novo amanhecer”. Canta. E aí concentra o pensamento nas coisas ruins para se consolar com o fim, para não se angustiar diante do que se foi, para não sofrer além do razoável. E aí se concentra também nas coisas boas para se consolar com o vivido, não mais para lamentar, mas para ser grato à vida pelas alegrias tidas. E sente a alma se elevar.
As chuvas continuam caindo, o friozinho se instala, porém não mais os céus choram as dores do mundo nem as dores de amante descartado. Agora sendo apenas o que são sem metáfora ou analogias. E o coração grato e reconfortado contempla a cortina d’água que desce das beiradas do telhado, o verde esperança das folhas lavadas a adejarem ao vento. E o coração em sossego emana ondas e mais ondas de amor, que o põe em estado de graça e, alçando os espaços, vai, vai proteger seu bem-querer. E assim será por todo inverno que se inicia.
Itaparica 20 de junho 2017 



quinta-feira, 8 de junho de 2017




DIA LINDO
Não sei como estará o dia em que esta crônica for lida. Mas hoje o dia está lindo. Agora, neste exato momento, o dia está lindo. Nem quente nem frio, nem particularmente primaveril, outonal, estival ou invernal, mas, amalgamando todas as estações no que elas têm melhor, está perfeito, mais-que-perfeito. E quando o dia está assim, não se pode ficar triste. Pensar, falar, lembrar de tristeza é pecado mortal, como também o é, deixar de dizer, de escrever, de gritar aos quatros ventos, que o dia está lindo! E por estar desta maneira, luminosamente plácido, com as cores avivadas, vontades fora de moda emergem do recôndito da alma.
Então... Então, de repente, é muito importante, muito urgente, ficar a ver o vagaroso vagar das alvas nuvens. É preciso dar as mãos e sair por aí, pelas estradas do sol, inteiramente livre de dores e anseios passados, presentes e futuros.  É preciso cantar, não para espantar mágoas nem cativar ninguém, é preciso cantar sem razão alguma, tão somente é preciso cantar, como é premente também sorrir, dançar, abraçar, dar bom dia a torto e a direito, abrir a janela para que a libélula largue de se debater contra a vidraça, ou salvar a formiga duma pocinha. De repente, os olhos umidificam-se perante a rosa branca em par com o róseo botão semiaberto ou a com a delicadeza do sebinho saltitando de galho em galho, ou do minúsculo colibri verde sorvendo néctar. Tudo porque o dia está lindo.
Porque o dia está lindo, todos os amigos de todos os tempos, inclusive os que são só memória,  podem de reunir num imenso piquenique na clareira entre frondosas árvores limosas, ou debaixo dum denso coqueiral, como os existentes outrora, diante do mar azulíssimo.  Novos amores podem nascer ou antigos amantes se reencontrarem e se desmancharem em ternuras inteiramente esquecidos do quê os fizeram se apartar. A beleza do dia invade os corações e já não há nenhum inimigo ou desafeto, assim como não há mais ninguém se achando feio. Todos são Narcisos sem narcisismos, pois os semblantes que se refletem nos espelhos é a alegria que lhes vai ao âmago enternecido com tanta formosura do dia.  O mais casmurro dos casmurros sorri, os doentes levantam-se e andam e os velhos com seus netos seguem as filarmônicas que passam em direção aos coretos das praças.  
E porque o dia está lindo, todas as crianças são anjos de candura e obediência que apenas sorriem, acarinham, brincam em quintais e, nas salas de espera, nos cinemas, mercados, shoppings, mantêm-se quietas e silenciosas, sem pular, berrar, espernear, esbarrar, aporrinhar. E não só as crianças, também os adultos sabem se comportar em lugares públicos, sem incomodar quem está por perto, de modo que é possível alguém ler enquanto espera ser atendido pelo médico.  Aliás, porque o dia está lindo, todos os aparelhos de TV das clínicas, bancos, bares, restaurantes, que mais contribuem para o barulho e para impedir os diálogos, desapareceram. Na verdade, os próprios estabelecimentos empresariais (tudo que tem teto e parede) sumiram, ou, ao menos, estão vazios, porque dia assim pede varandas, praias, jardins, parques, espaços abertos, onde a beleza do dia esplende e comove.
E comovidas, as caçambas de areia param de desmanchar as dunas, as vastas, altas dunas, de Busca Vida e Jauá, que tanto o Movimento Paranapiacaba, lutando contra a ganância de uns e omissão e indiferença de outros, insiste em preservar. E porque o dia está lindo, as matas, mesmo as pequenas, circunscritas ao condomínio, são deixadas, em paz, livres dos megaprojetos imobiliários escudados em atividades espirituais ou de oferta de míseros empregos. Ante a gratuidade de tamanha beleza os escudos ficam transparentes e o dinheiro deixa de ser prioridade. E os tamanduás-mirins, as raposas, as lebres, as corujas, todos os bichinhos da restinga festejam o prolongamento da vida silvestre, acompanhados por um sem número de coloridos e canoros passarinhos, os grande partícipes da lindeza do dia.
Comovidos, todos os carros de, ou com, som, que tanto perturbam o sossego alheio, são desligados. Cônscio do ridículo e da grosseira falta de educação, ninguém mais quer convencer, se impor ou se mostrar através da potência dos seus alto-falantes. E os sons que se ouve são suaves adágios e árias: o azulado solo de violino dos sanhaços; a cantata do vento nas folhagens; o sibilar das cigarras; o rumorejo das ondas ao espraiar-se nas praias ou batendo nas pedras dos cais; o cantar de passarinhos; uma voz em acalanto cantando longe, longe; um estalar da vagem que se abre para a semente cair; o castanholar das asas da rolinha fogo-apagou no alçar voo; o assovio do chefe mico em chamamento do bando.
Comovidos muitos se põem com afinco a limpar os rios para que possam novamente espelhar o céu, onde, em meio às nuvens refletidas, deslizam barcos e pedalinhos em passeios nos dias bonitos como este; e o Rio Joanes, sobretudo em sua foz, volta a exibir refulgentes azuis  no seu serpentear por sobre e por entre areia branquinha, sem mais conspurcar a também esplendorosa praia de Buraquinho. Comovidos, homens, mulheres, crianças saem atrás dos rastros humanos a catar lixo largado à-toa, a plantar árvores e flores, a pintar casas e prédios. Tudo reluz e o dia fica ainda mais bonito. O reluzir toca fundo, chega à essência divina de cada um, reacende a centelha que anima o ser. Então, todos descobrem em si, a ilimitada capacidade de amar irrestritamente e intensas ondas amorosas se formam em cada coração e transbordam e se mesclam e, enfim a fraternidade universal vigora.

sexta-feira, 19 de maio de 2017



FLANANDO E SONHANDO EM ITAPARICA

Uma das coisas boas da vida é flanar, flanar, por exemplo, à noite pelas perfumadas ruas sossegadas da cidade de Itaparica. Itaparica tem disso sim, ruas quase desertas, onde muitas vezes só se ouve o ruído dos próprios passos, ou até, se não se duvidar, o pisar flanelado dos fantasmas; tem  castanheiras nas calçadas e jasmineiros nas varandas das casas de muros baixos com suas flores a incensarem o sereno.
            Houve época em que não havia casa sem jasmineiro para perfumar os serões nas varandas ou nos passeios. Nas movimentadas e ou perigosas ruas da metrópole tais costumes desapareceram, mas Itaparica ainda conserva os jasmineiros nos jardins e cadeiras nas calçadas, assim como as aconchegantes praças, as simpáticas casas antigas cheias de personalidade e caráter forte, além de muitas outras peculiaridades, a começar por ser a maior ilha do Brasil e a única estância hidromineral à beira-mar. 
Bastava apenas uma característica para ser um polo de turismo famoso no mundo todo, mas Itaparica, num só município é cidade histórica, é estância hidromineral e um dos mais belos balneários que há no mundo, com mar de calmas águas transparentes, paisagem estonteante em Porto dos Santos, Manguinhos, Ponta de Areia e a orla da sede. Teve a primeira armação de baleia das Américas, uma Santa heroína nas lutas da Independência, mulheres que venceram homens de guerra com simples galhos de cansanção, solar que abrigou três reis; Tem tamarindeiros seculares plantados em homenagem aos filhos da terra que foram lutar na Guerra do Paraguai e araçazeiro na areia da praia. Tem reserva ecológica com águas milagrosas do beato que tinha bem-te-vi a lhe seguir.  Tem tanto que desperdiça.
 E enquanto vou flanando pelas noturnas ruas cheirosas, entrego-me ao devaneio e vejo tudo muito limpo e bem cuidado, vejo lixeiras em todo canto, areia da praia sem copos, pratinhos e sacos plásticos. Vejo pintores com cavaletes nas calçadas tentando reproduzir os magníficos pores-do-sol; Vejo quarteto de cordas, corais, cantadores,  grupos de samba de roda se apresentando nas praças arborizadas e floridas. Vejo turistas entrando no Forte de São Lourenço, transformado em interativo Museu do Mar com seções de embarcações do recôncavo, de conchas e búzios, das baleias e golfinhos, tendo lojinhas vendendo livros de Ubaldo Osório, Xavier Marques e João Ubaldo Ribeiro, guia Turístico, postais, camisas e outras lembranças da terra. Vejo leitores nos jardins e nas salas da Biblioteca reformada sem mais telhado calorento. Vejo a Casa de João Ubaldo, onde ele nasceu,  sendo frequentada por estudiosos e curiosos do mundo todo. Vejo o Museu da Independência funcionando no Solar dos Reis. Vejo vários festivais artísticos culturais acontecendo o ano todo na cidade e também no melhor mar para navegação do planeta. Vejo as ruas centrais sem carros, substituídos por veículos não motorizados. Vejo a orla sem os monstrengos prédios de três andares ou modernosas casas em meio ao conjunto arquitetônico tradicional, sobretudo, vejo as casas sem muros altos. Vejo agradáveis bares e restaurantes defronte do mar com música suave e baixa, condizente com o ambiente. Vejo a Fonte da Bica sem poluição, tendo chafarizes no mesmo estilo da fonte original. Vejo a população laboriosa satisfeita com suas atividades econômicas, orgulhosa da sua cidade, feliz com a qualidade de vida que levam. E de tanto ver em devaneios, um dia hei de ver em tempo e espaço real.

domingo, 16 de abril de 2017





Andanças - 1

            Ignorando as instituições humanas os primeiros dias de outono continuam sendo de verão. Houve uma chuvinha, é certo, mas apenas para lavar as folhas e deixá-las refletir melhor o intenso azul do céu. Isto apesar dos últimos tempos estarem trevosos com alastramento da insensatez por todo mundo avivando o fascismo e nazismo e no Brasil a ideologia Temer a nos fazer tremer e temer o futuro.
            Assim no mundo, assim na vida pessoal, quando entre tantas coisas dá-se o embate com o Plano de Saúde ao se precisar fazer uma cirurgia. Então a gente lembra dos versos de Vinicius de Moraes, “Mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade.” E cantamos e saímos por aí a cata de encantamentos para animar os corações e suavizar a atmosfera, porque ninguém resisti muito tempo às tristezas continuadas, porque, como se sabe, cantar espanta os males e “um pouco de beleza, é uma alegria para sempre".
            Saímos com Linda e Rosana Coutinho, Elisabeth Pardo, conduzidas por Willian (sic) por nossa Ilha afora, nos deliciando com o que vemos e descobrimos nos pequenos mundinhos que quase não aparecem nos mapas ou jazem esquecidos, ainda bem, da turbulência da fria civilização tecnológica, onde se tem tudo menos a serenidade, onde se tem tudo, menos tempo para o que realmente importa.
            E numa manhã azul chegamos à Barra do Paraguaçu, onde a beleza e o sossego fizeram morada, o que levou Linda a indagar, “o que se faz aqui?”. Logo mais ela teria a resposta. Não se via casas comerciais nem outros serviços. Via-se largos espaços arborizados à beira do mar de translúcidas águas calmas que recuam na maré baixa para dar lugar às vastas coroas de areia, campo de mariscagem e de prolongamento do silêncio. Ah! o silêncio. Debaixo de uma frondosa amendoeira estavam as mesas e cadeiras do único restaurante, com clientes tranquilos. Em pleno domingo de sol forte, nenhum som das sofrências, pagodes, paredões e de outras misérias enlouquecedoras que assolam na Bahia.
Mais adiante, na parte em que carro não entra, um conjunto de casas coloridas é acréscimo do pitoresco. Ali, defronte de um quiosque à moda de coreto encontramos um velho pescador bem aprumado apesar da muita idade.  Debaixo do chapelão de palha o sorriso ilumina o dia mais ainda, e animado, mas pachorrentamente fala do lugar, das pescarias, da sua vidinha. Lembra o dia em que ainda pequeno levou um corte de facão no pé que deixou o dedo dependurado. A falta de assistência médica não foi problema: o pai correu ao quintal, tirou água do caule da bananeira, colocou na ferida, amarrou o pé e logo ficou bom sem nem sequer ficar marca.
 Conta lendas como a fonte milagrosa que existe perto do cemitério. É só beber da água para alcançar as graças queridas e também se manter forte e saudável. Ele mesmo sendo comprovação disso, exibindo jovialidade e saúde. Conversa boa, mas queríamos ver mais. Tiramos fotos, nos despedimos e fomos adiante. Adiante, o encontro das águas do Rio Paraguaçu com o mar sob antigo cais tendo obelisco em homenagem à Maria Quitéria e um farolete. Voltamos, almoçamos à sombra da amendoeira diante do mar e em quietude contemplativa.
 E coroando o passeio, uma surpresa. Na hora de pagar a conta, indo passar o cartão no interior do restaurante, no outro lado da rua, nos deparamos com um mundão de flores, de arranjos florais em galhos e cipós, mandalas e outros objetos, primorosamente feitos de conchas e escamas. Era o artesanato, mais que isso, a arte de Adelaide. Ela engenhosa, hábil e criativamente usa conchas de lambretas, vieiras, tacaraúnas, tarioba, unha de noiva, mãozinha, sururu, ostras e mais, unha de peguari, osso de baleia e escamas, combinando os diversos formatos e as cores próprias das conchas para compor suas peças.
Foi também neste momento que Linda teve resposta para sua indagação inicial: “O que se faz num lugar como este?”, pois ficou sabendo que além de criar suas obras de arte, Adelaide tem agenda cheia a semana toda, realizando trabalhos com a comunidade: aulas de artesanato, curso de inglês, atividades diversas com idosos entre outras, tudo no voluntariado. Não há dúvida, Barra do Paraguaçu é um pedacinho do mundo não apenas belo pela natureza, mas também por sua gente sorridente, afável que sabe viver na paz da simplicidade e da solidariedade.