O inverno que chega
Após um belo breve
veranico de fim de outono, as chuvas intensas caindo sonorosas nos telhados,
nas árvores, nos cimentos humanos e na terra agradecida são clarins do inverno
que chega amanhã. Um poeta diria que os
céus choram as dores do mundo, mas um amante preterido diria que os céus
penalizados choram as suas mágoas, e dito isto sentiria aumentar a intensidade
das chuvas que lhe saem dos olhos.
Em meio a dor o
rejeitado constata que em tempo de saudade toda miudeza é lembrança ardente: o
marisqueiro que passa mercando siri de mangue, traz a lembrança da varanda com
arcada de pedras onde se comia siri com o perfeito pirão. As escadinhas do
cais, a rede na varandinha, o mar diante da praça, o fim de tarde na praia dos
tamarindeiros e tantas e tantas minudências ganham significado além do real e
faz sofrer. Para isso servem os momentos de bondade, beleza alegria, para se
tornarem lembranças ardentes no tempo da saudade. Mas além das saudades do
vivido há as saudades do que faltou viver. E as chuvas de fora e de dentro
aumentam.
Todavia as chuvas caem
alheias a qualquer dor. Caem porque é este o destino das nuvens pejadas de água,
desaguarem assegurando a continuação da vida biológica no planetinha azul. Lembrar
dessa verdade é ficar feliz com as chuvas e também com as próprias lágrimas,
porque desanuviam mágoas, lavam a alma e o coração. Como diz a canção “chore,
que a tristeza/ foge do seu olhar”. E o olhar limpo é mar calmo de baía
espelhada a refletir outros olhos e convite a novas travessias. E já o amante enjeitado trata de transmutar a
nostalgia.
Então, vai tomar
chocolate quente, ler poesia, ouvir algo como abertura de Peer Gynt a pô-lo a
navegar por fiordes de longínquas terras de memória atávica e a se dar conta de
que o enigma e a diversidade da vida não merecem as lágrimas dos apaixonados. Compreende
que o amor verdadeiro não confrange o amado com lágrimas grades e, ademais, “Pra que
chorar/ Pra que sofrer/ Se há sempre um novo amor/ Em cada novo amanhecer”. Canta.
E aí concentra
o pensamento nas coisas ruins para se consolar com o fim, para não se angustiar
diante do que se foi, para não sofrer além do razoável. E aí se concentra
também nas coisas boas para se
consolar com o vivido, não mais para lamentar, mas para ser grato à vida pelas
alegrias tidas. E sente a alma se elevar.
As chuvas continuam
caindo, o friozinho se instala, porém não mais os céus choram as dores do mundo
nem as dores de amante descartado. Agora sendo apenas o que são sem metáfora ou
analogias. E o coração grato e reconfortado contempla a cortina d’água que
desce das beiradas do telhado, o verde esperança das folhas lavadas a adejarem
ao vento. E o coração em sossego emana ondas e mais ondas de amor, que o põe em
estado de graça e, alçando os espaços, vai, vai proteger seu bem-querer. E
assim será por todo inverno que se inicia.
Itaparica 20 de
junho 2017




