E nasce o Estrela do Mar
Era
fim de tarde do dia seis de janeiro de 2018 quando a Praça do Campo Formoso
começou a ser tomada por vistosos coloridos e reluzentes reis magos com
oferendas, pastorinhas com cestinhas de flores, ciganas com pandeirinhos cheio
de fitas. Do mesmo modo vieram os músicos da fanfarra, os cavalos marinhos, a
exuberante estrela-guia, a porta-estandarte abrindo alas e a anunciar ao mundo
que as utopias, vez por outra, deixam de ser utopia.
Tudo
começou na cabeça de Elisabeth Barros Pardo a dinâmica criativa Betinha. Era
tão só um sonho e como tal, brumoso e improvável. Um sonho que se formara das
lembranças da infância misturado aos relatos dos mais antigos, à religiosidade,
à inventividade e o amor pelo lugar onde nasceu
pela sua cultura e tradições. Mas ela tem amigas também visionárias,
sonhadoras, talvez até um pouco louquinhas, mas que seria do mundo sem a
loucura dos artistas? .E estas amigas, tendo à frente Linda Coutinho, de
imediato abraçaram a ideia, sem cogitar das dificuldades nem da exiguidade do
tempo.
Surpreendentemente
ainda é grande a legião dos que creem em varinhas de condão e no poder da
vontade e logo todo mundo aplaudiu e se prontificou a promover o resgate do
Terno de Reis de Itaparica, após muitos anos desaparecidos. Na primeira
reunião, na acolhedora casa de Linda, deu-se a escolha do nome. Repetia-se a
história contada na cantiga sobre o romance entre um grãozinho de areia
sonhador e uma estrela no céu que resultou no aparecimento da Estrela do Mar. Se
na música passaram anos e muitos anos, no caso, a gestação foi curta, mais
precisamente, dois meses, até que o Terno de Reis Estrela do Mar fosse com todo
garbo, brilhar nas ruas de Itaparica.
Todos
queriam, mas o difícil era conseguir reunir o pessoal para os preparativos. Em
certa altura foi preciso dramáticos apelos para que a confecção das alegorias e
os adereços fosse feita. Ensaio só houve três, um no Campo Formoso e os outros
no Jardim do CTL. Contudo não se ficou parado. No curto espaço de tempo foram
feitas pesquisas sobre a composição e apresentações de terno de reis, bem como
a seleção das músicas, a maioria marchas-rancho antigas e algumas canções
típicas de Itaparica lembradas por Lícia, Cosme e Lavínia; gravações das
músicas, impressão das letras; procura de músicos e do moto-som; gravações das
chamadas; pedido de carrinho elétrico para transportar aqueles impossibilitados
de andar por longas distâncias, que infelizmente não deu certo (um porque
estava quebrado e outro o dono não quis colaborar), contudo de última hora um
carro, mesmo sem ser aberto, foi ornamentado e ninguém ficou de fora por causa
disso.
Enquanto
as costureiras Suely, Maria da Fátima e Diná se esforçavam para dar conta das
caprichadas fantasias, Betinha, Noélia, Vera, Fernanda, Malu, Denise, e Ró se
empenhavam, às vezes até tarde da noite, em produzirem ou adornarem, o
estandarte, os adereços da estrela guia, as flores de papel crepom, as tiara de
flores, os cavalos marinhos, as estrelas do mar, as lanterninhas, as cestas de
flores e mais os chapéus dos músicos, 48 pandeiros, 20 lanternas, 11 bambolês,
5 arcos. E no dia de Reis, lá estavam
todos devidamente paramentados e alegres como crianças. Por falar em crianças,
elas também estavam presentes junto a alguns jovens, em meio à turma com alguns
anos no costado, criando memória futura, garantia de continuidade da tradição,
pois enquanto houver memória de alguém as tradições não morrem e podem sair do
estado de coma a qualquer momento, como acontecia agora com o Terno de Reis
Estrela do Mar.
E
lá se foi o bando pelas avenidas, ruas e ruelas de Itaparica, brincando,
cantando e dançando ao som das antigas marchas-rancho ecoadas da moto-som de
Marcelo e da turma da Fambob comandada pelo professor Antonio Carlos. Iam
espalhando alegria por onde passava, atraindo seguidores, causando admiração,
surpreendendo, encantando. Aqueles que os recebiam em suas casas eram saudados
com cantigas de cheganças “Boas noites meus senhores todos/ boa noite senhoras
também”... de bênçãos, “ que essa mesa
seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai”
e também de folia em que não faltavam indiretas: “Estrela do mar/ dança
no terreiro/ que a dona da casa/ tem muito dinheiro// Es
trela do mar / dança na calçada/ que dona
da casa/ tem galinha assada...” E assim iam mostrando que ainda há espaço para
o sonho, a ingenuidade, a singeleza neste mundo de sofisticação, de violência e
industrialização cultural. No próximo ano tem mais
trela do mar / dança na calçada/ que dona
da casa/ tem galinha assada...” E assim iam mostrando que ainda há espaço para
o sonho, a ingenuidade, a singeleza neste mundo de sofisticação, de violência e
industrialização cultural. No próximo ano tem mais
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