De lua, piões, arraias etc
Aqui
no canto escuro da varanda, acompanho o ascender da lua cheia. Enormemente
bela, num céu sem nuvens e sem estrelas, vai trocando o ouro pela a prata enquanto
sobe. O vento bem fresco, quase frio, salpica as pequeninas pétalas das flores
da pitangueira sobre a grama do jardim e traz saudades recentes. Bastava estar
assim sossegada olhando a lua, sentindo o vento, revivendo os doces instantes
de ontem. Mas algo dito ou ouvido, ou imaginado põe a mente a girar mais que
pião dos bons.
Ah!
os piões, quem ainda brinca com eles?
Noutro dia vi, impressionada, um vídeo mostrando como os piões são
feitos artesanalmente no torno. Creio que o marceneiro, já com certa idade,
embora muito concentrado devia se divertia com o trabalho, talvez revivendo
suas próprias brincadeiras, alguns torneios, onde exibia destreza fazendo o
pião rodar sobre o pé, subir pela perna, pular para a palma da mão e outros
malabarismos. Agora caprichava na feitura de piões para alegria de outras
crianças. Tanta habilidade, tanto esmero para fazer um simples brinquedo! Só
por isso valia nunca deixar a brincadeira acabar.
Mas
no mundo virtual, cibernético ou da tecnologia da informação ou da inteligência
artificial não há lugar para piões, nem petecas, patinete, carrinho de rolimã,
perna-de-pau ou de latas, telefone sem fio, periquitos de papel, arraias. No
Mundo de arranha-céus não há mais quintais para as brincadeiras de casinha com
comidinhas de folhas ou cozinhados. No mundo de carros e violência não há ruas
livres ou seguras para as brincadeiras de rodas, passa-anel, fita, melancia, demarré,
picula, chicotinho queimado, macaco (ou amarelinha), bom vaqueiro, onde está a
Margarida, boca-de-forno. No mundo das indústrias, superprodução e consumismo
os brinquedos são automatizados, movidos a controle remoto, comprados todos
prontos, inclusive as arraias, ou papagaio, ou pipa, como também são chamadas,
que nos antigos agostos impunha um longo ritual em muitas casas.
Lembro
muito bem deste ritual na minha casa, praticado pelo meu irmão e seus amigos.
Primeiro ir ao armazém da esquina comprar flechas (não sei se de cana, milho ou
algum capim) e no armarinho comprar papel de seda, e carretel de linha.
Cortavam o papel em retângulo num tamanho padrão. O retângulo podia ser de uma
só cor, mas o mais comum é que fosse formado por pedaços de cores diferentes em
mil combinações criativas (caneca, pão de leite, xadrez etc), cada um se
esmerando para fazer a mais bonita, a mais original. A flecha era aberta ao
meio e cortadas em duas taliscas no tamanho do retângulo após formarem o X
sobre o papel, onde eram coladas. Daí vinha o mais difícil, amarrar a linha nas
quatro pontas das taliscas e fazer a chave perfeita, imprescindível para bom desempenho
da arraia ao subir ao céu e, sobretudo nas manobras para cortar as arraias
alheias. A maioria fazia chave de 4 e os mais hábeis faziam a chave de 5 saindo do meio da arraia
ou da interseção do X, para causar admiração. Outro detalhe muito importante
era a rabada feita com bolinhas de algodão amarradas na linha, formando a
cauda, que precisava ter peso e tamanho ideal. Quem não podia comprar algodão,
usava tiras de saco de aniagem. Por fim,
vinha o preparo do cerol. Com pedras quebravam vidro até formar um pó, às vezes
peneirado numa meia pra ficar mais fino, sendo então misturado à cola feita em
casa mesmo com goma de engomar roupa, ou farinha de trigo, ou quem podia, goma
arábica. Outro motivo de inveja era quando um passava sacudindo um frasco com
goma arábica derretida para fazer a cola. O carretel de linha era quase todo
desenrolado no quintal, estendidos da cerca ás árvores e pilastras da varanda
para que pudessem ser encerados com o cerol, aplicado com as mãos, sem nenhuma
proteção. Depois de secar pegavam o
carretel, enfiavam um pedacinho de madeira de uma extremidade a outra, e com maestria reenrolavam a linha passando
alternadamente por baixo e por cima do
pauzinho, dando o formato de oiti. Enfim, era correr atrás do vento. E eles não
construíam apenas uma, não, mas várias. Tendo até quem fabricasse para vender. Qual menino de
hoje conhece e estaríamos dispostos a cumprir todo este processo? Basta ir ali
comprar arraia, a maioria de plástico.
Quando ficamos
mais velhos e fazemos alusões aos tempos idos, somos acusados de saudosistas,
mas como evitar as referências ao passado, se nele está as nossas experiências
e aprendizagens? Não necessariamente
tudo do passado é mal como nem tudo do presente é bom. Melhor se faria, e se
viveria se de fato houvesse aprendizagem com as experiências próprias e dos
outros, se verdadeiramente se extraísse lições da história para não repetir
erros, evitar outros, corrigir rumos, aperfeiçoar o que merece e garantir o
presente e o futuro melhor do que se tem.
E para concluir,
nada mais oportuno do que uma sensata observação de E. F. Schumacher, autor do
famoso livro O negócio é ser pequeno:
“Máquinas cada
vez maiores, acarretando cada vez maior concentração de poder econômico e
praticando cada vez mais violência contra o ambiente, não representam progresso,
são uma negação da sabedoria. A sabedoria requer uma nova orientação da ciência
e da tecnologia em direção ao orgânico, ao gentil, ao não violento, ao elegante
e ao belo”.
Itaparica,
04 de fevereiro 2018










