sábado, 27 de janeiro de 2018



Itaparica sempre bela 

 

  

Certa feita escutei do Sr. Vital Santos Souza, dizer que o mar é sempre bonito, só que às vezes, excede. Sim, em qualquer condição de tempo e vento, em qualquer momento o mar é sempre belo. E assim também Itaparica, sempre bela, mas há estações em que excede, como agora em que acácias enchem as ruas de luminosos cachos de ouro, e a explosão vermelha dos flamboyants entre verdes intensos se projeta num céu sem nuvens de azul quase genciana. E ainda tem os rosas das árvores do inicio da Avenida Ruy Barbosa, uma das quais, num ato de rebeldia e originalidade, destoando das suas irmãs, este ano trocou a cor original pelo lilás.
Ah! e este cheiro do mar nesta manhã! Este cheiro, não de sargaços que não é tempo deles, mas da maré vazante, de maresia, menos que isso, de vapor, de relento do mar, ainda que diurno. Este cheiro sutil, que tangido pela brisa penetra em casa, faz se ser feliz sem se saber porque. É a felicidade das coisas simples da vida, que nesta denodada e mágica Itaparica ainda é tão evidente.
A esta hora as marisqueiras  já estão em atividades na Coroa do Limo, na Ilha do Medo, pros lados da Quinta Pitanga e Brasileiro. E elas agachadas ou sentadas na areia úmida cavam a cata de chumbinho também chamado de papa-fumo ou ainda de vôngole usado em moquecas, frigideira ou em pratos mais sofisticados. Algumas preambulam a procura de Maria Preta e outros mariscos de superfície pela longa, longa, longa extensão da coroa de areia deixada pelo mar recuado, onde é bom vagar despreocupadamente, experimentando sensação de liberdade plena, ao menos momentânea. Ali o silêncio e a placidez são quase absolutos e se interiorizam e torna um o flanar em meditação.
Além do mar estão os becos e ruelas; o casario antigo de estilos e idades variadas, que em certos trechos margeam estreitas ruas; as árvores, algumas seculares, esculturadas pelo vento e o tempo; as muitas praças; as históricas igrejas, uma datada de 1610 com seus telhados em tribeiras e alpendre lateral;  a capela nicho da santa heroína da guerra da independência; a fortaleza portuguesa erguida sobre as ruinas holandesas;  o solar dos reis que hospedou pai, filho e neto reais em períodos distintos; o hotel arcado de grandes salões dando para o mar, cujos alicerces soterram vestígios da primeira armação de baleia das Américas e abafa para sempe a pestilência da banha das baleias sendo convertidas em óleo; a casa do imortal escritor; a biblioteca com seus jardins internos; a Praça da Quitanda com seus enormes oitizeiros e castanheiras; o Largo do Campo Formoso bem fazendo jus ao nome; o mercado que já foi colégio; Fonte da Bica com sua curativa água rejuvenescedora; a singular e linda Casa de Cultura e Ética; o chocolate feito com o cacau do quintal; e as históricas eras todas permanecendo na psicosfera da cidade, perceptível em certas horas aos sensitivos, e são muitos os que se tornam sensitivos pelas fortes emanações e se deixam fascinar.   
Sim, Itaparica é sempre bela, mesmo quando as chuvas pintam tudo de cinza, e faz sumir a Ilha do Medo e as ruas deserta se tornam puro deleite dos antigos fantasmas ou simples amantes de sossego. É sempre bela, mesmo quando as cores do crepúsculo se suavizam entre as nuvens, mesmo quando é maltratada e se constroem casas modernosas em meio ao casario antigo ou esdrúxulos prédios na orla, ou se altera a feição da Praça da Bica, ou se substitui pedras portuguesas cor-de-rosa por piso pré-moldado, ou se mutilam e ceifam as árvores, ou quando o barulho agride ouvidos e a paz local e os plásticos maculam praia e a transparência das águas do mar. Itaparica ainda é sempre bela porque, apesar dos pesares, conserva a essência e esta essência há de tocar o coração e a alma dos seus filhos naturais e os adotivos, inflando-os do justo orgulho pela sua terra tão especial. Orgulho que se converterá em amor, amor que cuida, que preserva, que embeleza, que protege, que inspira ações adequadas para deter a tempo a eminente descaracterização, o desperdício de tão primoroso cenário, a perda do bem maior ou a morte da galinha de ovos de ouro.  






Itaparica, janeiro de 2018

Nenhum comentário:

Postar um comentário