Conversa de Sabiá
A sábia sabiá sabia das
dores alheias e se pondo no galho mais próximo da janela olhou-me e explicou
que a sensibilidade que faz sentir mais as dores, é a mesma que faz sentir mais
alegrias. A facilidade de se enternecer e comover-se com minudências é a mesma.
Se, se aflige com a mutilação da árvore da esquina, ou ao ver-se passarinhos em
gaiolas; também se exulta diante do brilho novo das folhas dos oitizeiros e
encanta-se com o canto azuladamente agudo do sanhaço ou ainda reflete sobre as
tiradas filosóficas da sabiá laranjeira no amanhecer do segundo dia do ano.
E a sabiá dá uns
pulinhos, ensaia voo, mas volta como quem esqueceu alguma coisa e continua a
dissertar. Diz que há sim a possibilidade de se sofrer menos, particularmente
em certas circunstâncias, fechando-se aos novos amores, por exemplo,
cercando-se das muralhas das desconfianças, das prevenções, das prontas
generalizações, da contenção dos sentimentos. Mas o estado de defensiva
constante acaba por diminuir a vivência de bons momentos, restringindo a alegria
de viver, limitando da história de vida. É a velha condição, do isto ou aquilo,
ou menos com menos, ou mais com mais.
Com pio repetido que
soa com uma risada de ironia, a sabiá, enfim voa e indiferente às questões
existencial de quem a ouviu, vai se deliciar com as últimas reluzentes
pitangas. Um gato matreiro a observa provavelmente com nenhuma boa intenção. Mas
a ave símbolo do Brasil saboreando os frutos, cuja safra logo acabará, decidida
a não perder a chance do regalo, ignora o perigo, ou simplesmente não deixa que
a ameaça, que enfim não se cumpre, lhe tire o prazer do momento. Sabe que viver
é muito perigoso e quem arrisca não petisca.
O gato se estica na
mureta de varanda, faz pose e adormece. A sabiá vai agora a cata de manga
completamente alheia as reflexões que provoca. Quantos não se privam de
pequenos prazeres, como o flanar por ruas desertas de uma perfumada cidadezinha
encantadora por medo do que pode, mas não é certeza, acontecer? Muitos e muitos
se f3cham detrás de muros altos, cerca elétrica, evitam sair de casa, lançam
mão dos mais diversos expedientes, iludem-se para se sentir a salvo. Mas
segurança verdadeira não há. E todos os cuidados e os medos viram paranoia
abalam a saúde, faz a vida tornar-se, no mínimo, desinteressante.
E enquanto se iludi com
a precária segurança física e a defensiva emocional, pouco se cuida do que verdadeiramente
importa, dedicar-se à melhoria do ser, cultuando valores mais condizentes ao
bom relacionamento, único meio de construção de um mundo melhor. Enquanto
continua-se tentando conciliar o inconciliável, em servir a dois senhores,
insistindo na concorrência, na disputa de poder e ostentação, no confortite
exacerbado, na visão parcial das coisas; enquanto não se enxerga a
interdependência de tudo que há no universo; enquanto os homens se acharem donos
da terra e dela poder fazer o que bem entender;
enquanto acreditar-se que o inferno são os outros e que em primeiro
lugar o meu pirão, ou justificar os excessos de supérfluos e desperdícios com a
afirmação de que ganhei o dinheiro como meu esforço e possa fazer com ele o
quiser e ninguém tem nada com isso; enquanto não encontrar-se a sensatez e livrar-se das incoerências; enquanto não se ver que a vida clama pela
simplicidade e cooperação, os problemas tenderão a se agravar e nenhuma criação
humana será capaz de deixar ninguém verdadeiramente a salvo de maneira
salutar.
A sabiá (o corretor
gramatical insiste em corrigir para o
sabiá, mas esta é uma sabiá fêmea com certeza) voltou ao galho perto da
janela, mas por hoje basta. E a crônica
que se pretendia poética se tornou um artigo quase panfletário, É no que dá
ouvir sabiá.
Itaparica 02/01/2018
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