sábado, 27 de janeiro de 2018



Conversa de Sabiá



A sábia sabiá sabia das dores alheias e se pondo no galho mais próximo da janela olhou-me e explicou que a sensibilidade que faz sentir mais as dores, é a mesma que faz sentir mais alegrias. A facilidade de se enternecer e comover-se com minudências é a mesma. Se, se aflige com a mutilação da árvore da esquina, ou ao ver-se passarinhos em gaiolas; também se exulta diante do brilho novo das folhas dos oitizeiros e encanta-se com o canto azuladamente agudo do sanhaço ou ainda reflete sobre as tiradas filosóficas da sabiá laranjeira no amanhecer do segundo dia do ano.
E a sabiá dá uns pulinhos, ensaia voo, mas volta como quem esqueceu alguma coisa e continua a dissertar. Diz que há sim a possibilidade de se sofrer menos, particularmente em certas circunstâncias, fechando-se aos novos amores, por exemplo, cercando-se das muralhas das desconfianças, das prevenções, das prontas generalizações, da contenção dos sentimentos. Mas o estado de defensiva constante acaba por diminuir a vivência de bons momentos, restringindo a alegria de viver, limitando da história de vida. É a velha condição, do isto ou aquilo, ou menos com menos, ou mais com mais.
Com pio repetido que soa com uma risada de ironia, a sabiá, enfim voa e indiferente às questões existencial de quem a ouviu, vai se deliciar com as últimas reluzentes pitangas. Um gato matreiro a observa provavelmente com nenhuma boa intenção. Mas a ave símbolo do Brasil saboreando os frutos, cuja safra logo acabará, decidida a não perder a chance do regalo, ignora o perigo, ou simplesmente não deixa que a ameaça, que enfim não se cumpre, lhe tire o prazer do momento. Sabe que viver é muito perigoso e quem arrisca não petisca.
O gato se estica na mureta de varanda, faz pose e adormece. A sabiá vai agora a cata de manga completamente alheia as reflexões que provoca. Quantos não se privam de pequenos prazeres, como o flanar por ruas desertas de uma perfumada cidadezinha encantadora por medo do que pode, mas não é certeza, acontecer? Muitos e muitos se f3cham detrás de muros altos, cerca elétrica, evitam sair de casa, lançam mão dos mais diversos expedientes, iludem-se para se sentir a salvo. Mas segurança verdadeira não há. E todos os cuidados e os medos viram paranoia abalam a saúde, faz a vida tornar-se, no mínimo, desinteressante.
E enquanto se iludi com a precária segurança física e a defensiva emocional, pouco se cuida do que verdadeiramente importa, dedicar-se à melhoria do ser, cultuando valores mais condizentes ao bom relacionamento, único meio de construção de um mundo melhor. Enquanto continua-se tentando conciliar o inconciliável, em servir a dois senhores, insistindo na concorrência, na disputa de poder e ostentação, no confortite exacerbado, na visão parcial das coisas; enquanto não se enxerga a interdependência de tudo que há no universo; enquanto os homens se acharem donos da terra e dela poder fazer o que bem entender;  enquanto acreditar-se que o inferno são os outros e que em primeiro lugar o meu pirão, ou justificar os excessos de supérfluos e desperdícios com a afirmação de que ganhei o dinheiro como meu esforço e possa fazer com ele o quiser e ninguém tem nada com isso; enquanto não encontrar-se a sensatez e  livrar-se das incoerências;  enquanto não se ver que a vida clama pela simplicidade e cooperação, os problemas tenderão a se agravar e nenhuma criação humana será capaz de deixar ninguém verdadeiramente a salvo de maneira salutar. 
A sabiá (o corretor gramatical insiste em corrigir para o sabiá, mas esta é uma sabiá fêmea com certeza) voltou ao galho perto da janela, mas por hoje basta.   E a crônica que se pretendia poética se tornou um artigo quase panfletário, É no que dá ouvir sabiá.

 Itaparica 02/01/2018

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