Numa Íntima
Noite
No
primeiro dia do ano a primeira lua cheia, recém-saída do mar, soberana navega
dourada num céu sem nuvens ou estrelas. Vai, ergue-se, levada pelo ventinho
manso vindo da maré vazando, que também faz os coqueiros se espreguiçarem. E a
noite, é noite de Lorca e se torna íntima. Íntima nos mistérios aos quais somos
integrados, íntima nas saudades todas que afloram.
Sobre a escrivaninha há
uma única rosa branca se abrindo no jarrinho estreito e nela a lembrança de
alguém muito querido, agora distante nas montanhas. E como outrora, a imagem da
rosa conduz ao mundo transcendental. E neste mundo há uma casinha encravada
numa colina toda verde, com alpendre de madeira debruçado sobre plácida enseada
lá embaixo. Há uma chuva de estrelas, sobre uma escura estradinha de barro
entre matos numa noite de aniversário. Há uma rede numa varanda em meio aos
aromas da coirana, eucalipto e almêcega.
Há banho nas escadinhas
da comprida cascatinha, sob a espreita de gnomos. Há também corpos abraçados à beira-mar fustigados
pelo noturno forte vento marinho. Há lua cheia nascendo vermelha do mar em
praia deserta ou vista da janela do ônibus acompanhando o casal em viagem e
muitas e muitas luas em diversas situações de enlevo e êxtases. Lua que fazia
quem dizia não cantar, cantar: “lua bonita se tu não fosses casada/ eu pegava
uma escada/ ia lá no céu te beijar”... Há pombinha avisando que o fogo apagou no
amanhecer de risos fáceis. Há o estidular de cigarras se despedindo do verão à
hora do ângelus e Luiz Gonzaga fazendo fundo musical para o jantarzinho frugal numa
casinha simplesinha, onde se tomava banho de balde com água tirada da cisterna ao
cair da noite. E em tudo isso há carinhos e carinhos e carinhos e a felicidade
dos corações cheios de amor.
Na intimidade desta
noite em que um coração solitário, mas pleno de amorosas companhias, se deixa
levar por uma rosa branca que se faz de estrela guia; nesta noite há tudo que é
possível conceber. E a memória vai célere de um tempo a outro aleatoriamente,
sem cronologia. Avança, atrasa-se, avança mais um pouco, torna a retroceder. Os
diversos estratos da existência, que compõe o ser, são remexidos num balanço de
vida. Da serenata na Lagoa do Abaeté se vai a chácara com vista para a montanha
azul e de lá se passa ao Colégio onde era importante pensar e segue-se de canoa
da Ponte do Funil até Barreira de Jacuruna para banhar-se no riacho Cardoso. E
neste vaivém há violão e cantoria nas noites sem fins e cantada musical; há o
jeep vermelho do belo moreno; há acampamentos na Ilha; há samba de roda e
viagens aventurosas; há uns olhos cor
das águas, que logo deixaram de alumbrar.
E no pulsar das
lembranças no íntimo desta noite há o especial subúrbio com um enorme
tamarindeiro no meio a pista por não terem coragem (ou a crueldade) de cortá-lo
embora ainda não se falasse em ecologia. Neste subúrbio em seguida à Ave Maria
o autofalante tocava valsas de Strauss e o Cine Plaza anunciava o início da
sessão noturna de todos os dias com Moonlight Serenade executado pela orquestra
de Gleen Miller, enchendo os ares de saudável nostalgia e a comover a romântica
menina esperando beijo; Também ali, o jovem casal vizinho ouvia trechos da
ópera O Guarani de Carlos Gomes, a amiga Celina gostava de Ray Connifs e nas
festinhas da casa do petroleiro se dançava ao som dos Românticos de Cuba, Trio
Irakitan e assemelhados. Então, no pulsar da noite íntima assomam questões
dignas de dissertação ou tese: por que naqueles tempos os suburbanos ouviam
Strauss em autofalantes e pessoas simples (o povo) se deliciavam com boleros,
músicas eruditas e músicas orquestradas e agora só escutam excitantes ruidosos
porcarias? O que houve com os brasileiros de lá para cá? Ou o que se fez com os
jovens e com a cultura nacional?
A lua já passa do
zênite e começa a descer rumo ao horizonte do outro lado. As questões começam,
as recordações não se esgotam, mas o sono chega e é hora de se integrar ao
outro reino dos sonhos.
Itaparica,
11 de janeiro de 2018


Nenhum comentário:
Postar um comentário