sábado, 18 de julho de 2020


Mas as flores nascem


Há pouco estávamos em março. As três amigas aproveitavam os últimos dias de verão na bem amada Itaparica. E eram banhos naquelas claras, mansas, mornas águas da Praia do Forte. E eram cervejinhas acompanhando os petiscos de Simone e Mario. Eram intermináveis conversas. Eram caminhadas e contemplações e jantar na calçada do cais com Betinha e Antônio  entre muitas risadas, alegria solta.
Veio abril, veio maio, junho, e agora julho. Veio o outono e passou, chegou o inverno e vai passando, vai passando sem que a gente confinada perceba essa passagem.  Desde março, quando a pandemia do coronavírus chegou por aqui, os dias parecem todos iguais nesta quarentema que já dura 120 dias. Parecem, apenas parecem, porque estamos em estado de suspenção e espera vivendo de maneira diferente.
No entanto tanta coisa tem acontecido! Ontem, por exemplo, foi um dia pródigo de novidades. À tarde descobri o menor beija-flor do mundo. Até então achava que o menor era um verdinho, de verde metalizado com rabo curto (Chlorostilbon lucidus, se não me engano), mas eis que estando na varanda após almoço, vimos a criaturinha marrom, minúscula, quase só bico, colibriando entre as flores do clerodendro vermelho, ou lágrima de cristo. E foi muito bom ficar olhando aquele serzinho, ir pra lá, ir pra cá, voar pra frente, voar pra trás, parar no ar, refestelando-se de néctar, dando encanto a uma tarde trivial.


Pouco depois do jantar, a novidade ficou por conta do apagão, revelando a noite verdadeira. Fazia frio, havia brisa a embalar as folhas adormecentes sob o acalanto do mar distante. No céu, sobre o silêncio, algumas estrelas espiavam por entre o esgarçamento das nuvens clareadas por um resto de lua minguante semicoberta. Mas, havia mais. Na escuridão, por toda parte acendiam-se pontos de luz como fagulhas. Eram os vagalumes pisca-piscando a nos deixar felizes. Logo havia violão, cálices com vinho do porto e cantoria até a energia elétrica voltar e apagar a noite com suas luzes artificiais.



E hoje, ao meio dia, mais outro acontecimento inusitado. De repente um grito e um susto de fazer pernas tremer por horas. A gata Tuca atacava uma grande cobra verde, obviamente com risco de ser picada. Grita daqui, chama de lá até a gata sair do alcance da serpente. Ufa! Mas a cobra continuava no quintal, bem perto da casa. Era grande, talvez um metro e meio, toda verde, belo verde lustroso. E não dava mostras de querer ir embora. Assustada quando nos viu, subiu numa árvore. Ficamos acompanhando o rápido deslocamento dela nos galhos. Às vezes perdíamos de vista. De novo a víamos esticar-se, ficar dependurada, dar pequenos saltos. De galho em galho, passando do pau pombo pra o cajueiro e deste para piaçavas se dirigia à matinha atrás da cerca. A essa altura, já sabíamos que era a ágil cobra cipó, que embora tendo veneno não envenena. Mas mordida de cobra sempre é mordida de cobra e faz algum estrago com a boca suja que elas têm.
Quando pensávamos que já tinha ido embora, eis que a vimos voltar. Nisto um mico anunciou perigo na área e logo o bando todo, uns 10 que vivem aqui, partiu contra a cobra. Mais que depressa ela desceu, foi pra o chão e novamente se aproximou da casa, se meteu por debaixo do degrau, se enfiou num buraco na areia e sumiu por instante, para aparecer adiante já na raiz da árvore. Ou seria outra? Dizem que cobras andam em pares. Percebendo a relutância dela de se afastar, suspeitamos que ali tinha algo que a prendia, talvez um ninho. Mais tarde, lendo as notícias do dia, achei a explicação para a insistente visita. 16 de julho é o Dia Mundial da Cobra e ela ou elas ou o casal  vieram comemorar conosco que já recebemos várias visitas destas e não as matamos.


Bem verdade que vivemos um período trágico entre a pandemia do vírus e as loucuras do endemoninhado presidente e seus asseclas. Mas, um amigo  realizou um velho acalentado sonho e ficou feliz;  o segundo se curou do covid 19 e festejou igualmente feliz; o terceiro avisou que estava vendo a  chuva e me lembrava que um dia de chuva é inspirador e tão belo quanto um dia de sol; uma amiga viu as belas velas das embarcações do Recôncavo e me mandou as imagens também para me inspirar; a outra aprendeu valiosas lições com a solidão. E os bulbos da angélica brotaram viçosamente, poucos dias depois de plantada, a dizer que a beleza da vida persiste para além das feiuras espalhadas por insensatos humanos. Sim, as angélicas nasceram e logo estarão perfumando os ares daqui e comovendo os olhos dos que as virem com o coração.



segunda-feira, 20 de abril de 2020


Portas fechadas, janelas abertas



Nestes tempos de portas fechadas convém manter as janelas bem abertas. As janelas físicas, por onde entra a beleza do dia ainda muito azul e o ar para arejar os ambientes; e as janelas metafóricas do coração e mente por onde a sabedoria amorosa pode chegar, através da percepção sensível do momento especial em que se vive.
 No instante em que os humanos, devido à pandemia do coronavírus, são obrigados a parar e se deparam com a ameaça de um colapso geral, é hora de não duvidar de que “há males que vem para o bem”. É hora de aproveitar a imensurável oportunidade que se apresenta para se acertar os passos pessoais e coletivos e ajeitar o viver no mundo.
Pode ser que o grande mal não resulte em grande bem, mas não será porque o provérbio está errado e sim  por defeito de visão, por renitência  dos presunçosos insensatos seres, que se dizem racionais e inteligentes, mas presos nos seus equívocos e cegueira  não souberem ver e entender as nuances e o significado do que está acontecendo.
São inúmeras as lições que estão se apresentando. Começa com as pessoas tendo que deixar a dispersão da vida moderna para interiorizar-se, estar consigo mesmas, avaliar, pensar, descobrirem-se e deixar de ser gado. Depois, aprendendo a ter o ócio criativo, isto é, dispor de tempo livre para ler, estudar, criar, deixar suas potencialidades fluírem.  Também estão sendo obrigadas a ter convivência familiar mais constante, muitas vezes em ambientes restritos, resultando em definições, correções ou término das relações.  
Estão também tendo que ter cuidados, e nisto, a chance de perceberem a interdependência que há entre todos e tudo no Planeta; verem claramente que mesmo os mais ricos e  poderosos são na verdade  indigentes, dependendo de tudo que não são eles próprios para viver, estando à mercê da natureza da qual é parte integrante; além de certificar-se de que ninguém é ilha e que, efetivamente, ninguém pode ser feliz sozinho.
Por outro lado, as restrições, as ausências, as perdas, os sofrimentos, a que se acham submetidas, evidenciam os valores do que realmente importa; ressalta a real  dimensão das coisas em suas vidas. Quantas das necessidades que eram indispensáveis ontem se tornaram insignificantes? Quantos adiamentos de planos e carinhos se tornaram  lamentáveis? E há milhares de pessoas dentro de carros em espera de doação de comida. Os carros que têm não servem para comer. E a nação mais poderosa do mundo, com todo seu poderio em armas e tecnologia, se acha impotente ante um minúsculo  inimigo silencioso.
Entre as evidências se sobressaem também o descalabro dos sistemas políticos e econômicos de escravização das pessoas, das disparidades entre as condições financeiras e existenciais e os maus tratos que se faz à Terra, insensatamente se destruindo o habitat em que se vive. Assim, o que era impensável, o que não podia ser, agora tem de ser e se mostra viável.  
Em síntese, as pessoas estão sendo obrigadas a aprender a bem se relacionar consigo mesmas, com os semelhantes e com o meio ambiente. Os comportamentos precisam ser mudados. Não deve ser por acaso que a pandemia do coronavírus está se acirrando no equinócio de outono no hemisfério sul e da primavera no hemisfério norte. De um lado o outono, a maturação, a morte, o fechamento, fim de ciclo. Do outro, a primavera, o novo o renascimento, a abertura, inicio de novo ciclo. As polaridades se completando a clamar por mudanças substanciais. 
Estamos numa encruzilhada, talvez tenhamos chegado ao ponto de mutação de que trata Fritjof Capra. É hora de troca de paradigma, de deixar o velho caminho para seguir uma nova senda que se abre diante da humanidade. A hora é essa. O Planeta pode muito bem passar, obrigado, sem os seus mais terríveis predadores, como, aliás tem dado mostras, nesses poucos meses de quarentena dos homens. Enquanto os seres humanos tentam aprender e a se ajustar à nova realidade o Planetinha, alheio, continua girando e a natureza cumprindo as estações. 




domingo, 23 de fevereiro de 2020


O Mistério dos Peixes

                                                                                                                  Praia da Coroa, local do caso  

Estes meus amigos!... Um dia ainda vou escrever um livro, que ficará enorme, descrevendo cada um e suas peripécias. Já me disseram que tenho vocação para atrair doidos, talvez por sina ou porque os iguais se atraem. Seja como for, eu digo que ainda bem, porque os que são absolutamente normais costumam ser chatos de galochas. E a doidice é mansa, tendo a ver com jovialidade, com criancice, com elã. Coisa que fez meu filho concluir que, independente da idade acumulada, as pessoas continuam as mesmas com incertezas,  paixões, em estado de constante experimentação, portanto sujeitos a erros, acertos e atitudes infantis ou loucas, ‘aprontando todas’.
Vejam vocês e tudo isso para contar a última façanha do meu amigo Roberto, o Beto da Coroa de Vera Cruz e das coroas. Amante dos bichos, das plantas, das brincadeiras e de também da esbórnia, como ele mesmo denomina a bebedeira de fim de semana, quando realiza a Caminhada Alcoológica. Agora restrita aos sábados e domingos, conforme ele explica: “As sextas-feiras já tirei do Curriculum há quase dois anos. Estou ficando veínho. A saúde ainda está boa, não vou estragá-la” 
Na semana passada a Caminhada Alcoológica de domingo, resultou no mistério dos peixes. A peregrinação etílica começou de leve no Bar do Gege com três cervejas pequenas. O esquentamento continuou  na Barraca  Buraco Doce com duas  cervejas grandes. No Bar da Fátima  (Gaga)  mais duas  cervejas, completadas com Jatobá gelada  (cachaça com casca de jatobá). No Bar de Leo, mais cervejas e duas salinas.  pequenas.  Salinas é uma cachaça “especial” de Minas Gerais.
E a romaria prosseguiu com  muita conversa fiada e paradas nas Barracas de Dinho e de Sonia para mais  jatobá  e  cerveja e, por fim, em Osnir e Nalvinha para os vários cafezinhos, ou seja,  mistura  de café, erva-doce, cachaça,  pau pereira, pau tenente ( “não do tenente,  viu.” Ele adverte) e outros ingredientes, que Nalvinha, não revela de jeito nenhum. Bem, depois de cumprir tamanha missão etílica, lá seguiu Beto pra casa, ao entardecer, contando com amparo do seu anjo-da-guarda para não tropeçar nem perder o rumo ou o prumo.
Nem deu pra entrar em casa, escornou na rede da varanda. Gata sobre a barriga e o cão debaixo da rede. Enfim, bem protegido. Lá para as tantas se levantou  decidido  a ir para cama. Antes de entrar em casa notou um volume sobre a mesa. Oxente, o que era aquilo?, surpreso, se perguntou.  Ao tocar no saco plástico, sentiu que estava gelado. Abriu. Lá estavam alguns peixes de cerca de 20 cm, limpos e tratados. Ele não tinha a menor ideia de como aqueles peixes foram parar ali. Não era do seu feitio comprar peixes quando em farra. E vieram as conjecturas. Teria comprado por insistência de algum pescador?  Teria encontrado o saco dependurado na grade do portão e ele, meio bebum, levou pra dentro quando chegou?  E se tivesse afanado de alguém com quem estivera bebendo? Ficou preocupado. Já era muito tarde para  sair e investigar. Colocou os peixes no congelador para não estragar, resolvido a esclarecer no dia seguinte.


Logo cedo saiu para desvendar o mistério dos peixes aparecidos em sua varanda.  Voltou aos mesmos bares, fazendo perguntas. Não, ninguém o tinha visto com saco de peixe na chegada ou na saída. Cada vez ficava mais intrigado. De repente avistou um pescador seu conhecido. Resolveu sondá-lo e disse:
— Olá, os peixes estavam ótimos!
— Que peixes? — O pescador indagou.
Xiii, não, fora o pescador que lhe dera ou vendera os peixes; E agora? Já tinha perguntado a tanta gente!... Teria esquecido de alguém? Não poderia mesmo lembrar de todas as pessoas que encontrara e batera papo nas barracas de praia movimentadas nos finais de semana da Ilha. Depois de muito pensar, achou que o jeito era esperar que alguém, chegasse para ele e perguntasse: “Aí, gostou dos peixes”. Mas até o meio da semana, quando ele me contou essa história, ninguém lhe tinha feito tal pergunta e o mistério dos peixes continuava.
Só lhe restava esperar pelo próximo fim de semana, quando com certeza, segundo ele, iria aparecer quem lhe fizesse a tal indagação reveladora durante a sua habitual Caminhada Alcoológica. Enquanto isso os peixes permaneciam no congelador, que ele não ia correr o risco de comer peixes de procedência desconhecida. Mas o fim de semana veio e passou e ninguém perguntou pelo peixe  e a quem ele indagava, não sabia de nada. Nem os peixes no congelador falavam. O enigma parecia insolúvel.
Foi aí que ele lembrou de dona Zizi, velhinha de 98 aninhos para quem ele fazia um favor. Certo dia ele conseguiu  bem mais barato um remédio que ela comprava todo mês. Daí em diante ela sempre muito agradecida pede para ele comprar.  Por mera intuição, ligou para a filha da velhinha. E enfim, o mistério se desfez. Fora a Dona Zizi que mandara o bisneto levar os peixes de presente, entregando-o na porta de  sua casa, por volta das 19 hs, quando ele regressava da Caminhada Alcoológica.



sábado, 22 de fevereiro de 2020


Roberto e a gata





Os gatos são os maiores sedutores do universo. São caras de pau determinados ao extremo e também charmosos, manhosos, carinhosos, enfim, irresistíveis. Coitado daquele que cai na mira deles.  Não há escapatória. Não adianta tentar ignorar, não adianta escorraçar, não adianta nada. Então quando meu amigo Roberto disse que um bichano aparecera na sua porta, eu, vítima algumas vezes desta sedução, já imaginei o que ia acontecer e lhe disse:
— Você acabou de arranjar um gato;
—Que nada, apareceu aqui na porta, fiquei com pena, botei um pouco de comida lá no passeio
— Ih! Amigo, Você botou comida? Está perdido. você foi  adotado, se prepare.
— Adotado, que adotado? Tenho cachorro, ele já está latindo pra caramba, ele ou ela não vai ter coragem de entrar.
— Bem se vê que você não conhece nada de gatos. Não vai demorar e vai estar no seu colo.
            Ele não acreditou no que eu disse, mas, a partir daí, todo dia tinha uma resenha: “A gatinha não sai mais daqui da porta..  Ela está dormindo na árvore... É uma gracinha... Tenho medo que alguém faça alguma malvadeza com ela... Estou procurando quem possa adotá-la”. e por aí, ia. Mandou vários áudios apelativos para a neta, com  voz de gato rogando pra ser adotado. Ofereceu aos vizinhos e até para mim, me elegendo como madrinha. Contou das tentativas da gatinha (afinal com sexo identificado)  em entrar no jardim, sendo escorraçada pelo cachorro.
            — Não sei o que acontece com Duque, nunca se importou com gato nenhum, mas dessa não quer saber.
            Expliquei que o cão já estava antevendo o que viria e tentava impedir, além, é claro, do ciúme. Até então reinando sozinho, via uma safada da rua se chegando, ameaçando a sua exclusividade. Os dias passavam e novas resenhas: “A gatinha andou pelo muro... Deu pra me seguir. Vou na padaria, a gata vai atrás, vou no mercado, a gata atrás... Noutro dia me acompanhou até o ponto de ônibus... Consegui uma casa para ela... A gatinha voltou, nem ficou dois dias na casa da vizinha”...
            Certo feita Roberto teve de ir a Salvador, levou dois dias fora. Logo que voltou pra casa, me telefonou pra dizer que a gatinha tinha sumido. Estava triste. Mais tarde, tornou a ligar pra dizer ter encontrado a gata que estava numa casa próxima, pelo visto, bem aceita. Ele passou por ela, chamou, mas, ela nem te ligo e lá ficou. Embora dissesse que estava satisfeito porque ela parecia abrigada e sendo cuidada, meu amigo não escondia a decepção. Mas Já no dia seguinte me comunicava o regresso da gatinha à porta da sua casa. Eu lhe disse que tinha sido puro charme, típico dos bichanos, a mostrar independência afetiva.
A essa altura eu não tinha a menor dúvida de que meu amigo havia sido completamente seduzido pela felina. Não demorou muito e ele me contou que a gata  estava dormindo na cama de Duque. Também conseguira dobrar o cão. Daí em diante a coisa foi rápido e lá vinham vídeos da gata fazendo gracinhas na cama dele e relatos e queixas. “Esta gata está impossível. Amola as unhas no meu sapato, derruba coisas da mesa, está me dando prejuízos.  Vou mandar pra você”.  
E eu apenas ria. A gata não mais saia de casa. Parava na frente dele, dava pequenos mios e ficava marchando, ou se jogava no chão, botando a barriga pra cima lançando um meigo olhar pedinte. Subia na cama se enroscava ao lado dele ronronando. Um dia ela empurrou a porta do banheiro, pulou no ombro dele, que estava sentado no vaso, e se aninhou nos seus cabelos.

Pouco depois começou a novela da castração: castra, não castra, dá ou não a injeção anticoncepcional, que é altamente cancerígena. Onde castrar? E o perigo da anestesia?  E o medo da cirurgia?  E eu só dizendo que ele precisava cuidar logo disso se não quisesse encher a casa de gatos. São cerca de três gestações por ano, cada uma com média de quatro gatos, podendo chegar a seis. Afinal ele se decidiu.
No dia da cirurgia ficou tenso, telefonou várias vezes durante se certificando que fizera o certo e, depois pra saber quanto tempo ela levaria para acordar.  À medida que o efeito da anestesia se prolongava a inquietação dele aumentava.  A cirurgia fora de manhã e no meio da tarde a gatinha ainda não despertara. Confesso que comecei a me preocupar também. À notinha recebo outra ligação de Roberto com a triste notícia: a gatinha tinha morrido. Poxa!, chocada, não sabia o que dizer. E ele muito abalado, repetia:
— Bem que eu não queria operar. Parecia que tinha algo me avisando. A bichinha estava aqui brincando no meu colo, me fazendo carinho e eu levei ela pra morrer...
Após desabafar, desligou, ficando eu triste, me sentindo um pouco culpada por ter incentivado ele a levar a gatinha para castrar. Nem tive coragem de perguntar se já a enterrara. Ainda estava nisso quando o telefone tocou de novo.  Era Roberto feliz da vida a dizer que a gatinha estava viva. Não, ela não tinha morrido, acordara, estava molinha, mas se movera. Ele a levou pro quarto. Mais tarde, outras ligações para informar   que ela comera, que bebera, que andara. Pronto. Daí as perguntas eram sobre os curativos e demais cuidados.
A recuperação foi rápida, mais ainda com lance dramático. Tendo que sair, ele deixou a gatinha dentro de casa fechada apenas com pequena abertura na janela para ventilar. Quando voltou, cadê a bichana? Tinha sumido. Procura daqui, procura dali. Andando já sem rumo na varanda e jardim, viu a roupinha cirúrgica, que ela ainda usava, presa na ponta da lança do muro. Susto grande, pensou no pior, mas não havia sinal de gatinha, nem de sangue, nem de nada, mas a preocupação não passava. O que teria acontecido? Como ela conseguira passar pela quase fresta da janela? Como a bichinha estaria?
Não demorou muito para ter a resposta. A gatinha apareceu, vindo da rua, entrou pela grade do portão e veio se esfregar na perna dele, sem ligar para a zanga. Por sorte nenhum ponto se partiu e quando chegou a ocasião, ela mesma arrancou uns pontos e ele tirou o restante.  Bem, agora a bichana está menos encrenqueira, passa a maior parte do tempo na cama de Roberto, fazendo e pedindo carinhos, espichando-se, exibindo poses, bem dona da casa e do seu dono.


             

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020


Uma Ilustre visita






         São muitas as visitas surpreendentes que recebemos aqui em casa. Nem falo dos corriqueiros sabiás e sanhaços que chegaram invadir meu quarto mais de uma vez dando  bom trabalho para pô-los pra fora. Nem também dos íntimos micos, família inteira que não para de crescer, e andam pela casa toda, chegando a abrir porta do armário onde temos de esconder as bananas. É mico no telhado, nos alizares das portas, nas janelas, nos degraus da escada, no chão, sem se importarem mais com os gatos. Taí, eu disse que não ia falar dos micos e aí estão algumas linhas tratando deles. E já que cheguei a tanto, permitam-me chegar a um pouco mais.

Outrora, os gatos chegaram a dar alguns desfalques na família dos saguins, mas com a idade, muita almofada, muito dengo e fartura de ração, os bichanos ficaram indispostos para enfrentar a ousadia, cada vez maior, dos macaquinhos. Uma cena inusitada, vista há poucos dias, dá ideia de como andam as coisas. Porta de vidro fechada. Do lado de fora os micos praticamente pedindo para entrar. Do lado de dentro, a gatinha espreitando. Armou o ataque, estendeu o corpo, deu passo em câmara lenta, tremelicou o focinho, tornou a se esticar e pumba, deu patada feroz no vidro. Do outro lado, o mico guinchou, feroz mostrou os dentes. No mesmo impulso que veio, a gata elasticamente voltou assombrada.   
Constantes também são os sapos de todos os tamanhos. Chegam, não dizem nada e se aproveitam das comodidades dos gatos. Comem a ração deles, usam seus bebedouros como piscinas onde passam horas a fio. E tem um, ainda mais folgado, que depois da refeição e do banho, tira soneca numa almofada. Felizmente nem todos visitantes são tão caras de pau. Alguns até se mantêm invisíveis, marcando presença com a voz, como os sofrês e as saracuras que às vezes levam horas em conversas repetidas, uma dizendo trêspotes, trêspotes, trêspotes e a outra respondendo, umcoco, umcoco, umcoco.  Às vezes, sem avisar, aparecem as jandaias e periquitos, que embora barulhentos se mantêm arredios nos seus chamegos. Ariscos também são os teiús, as corujinhas buraqueiras que na ponta das estacas da cerca nos espia, disfarça a bisbilhotice girando a cabeça para trás, crocita, pia e foge se a gente pergunta a que vieram.

Outros visitadores são bem discretos, silenciosos até, como o imponente Alma de Gato que vem se fartar das lagartas de fogo nos cajueiros. E há as raras e rápidas visitas como o do casal de Acauã, de canto tristonho, que veio uma vez, pra nunca mais. Como há também os visitantes assustadores, como a grande cobra caínana cuja presença provocou grande alvoroço, e ainda as indesejáveis cobra coral e a maligna enorme cascavel que chegando à noitinha no jardim picou de morte a gata Rosinha. Como se vê, a casa é bem frequentada. Já recebemos iguana, louva-a-deus gigante, aranha caranguejeira. Raposa e tamanduá-mirim chegaram perto, mas não entraram. Hoje pela manhã recebemos mais um insólito visitante.
Tinha acabado de tomar café, cheguei à porta da cozinha para contemplar a matinha que se conserva atrás de nossa casa e absorver os seus eflúvios. Um movimento nas folhas da moita rasteira me chamou a atenção. Olhei, uma porção do chão parecia se mexer. Apurei as vistas da distância que estava no alto da varandinha. E vi que a tal porção de terra (areia escura) tinha corcova, carapaça com marcas amarelas. Era um simpático jabuti. O humilde quelônio, um dos animais brasileiros em ameaça de extinção, mas de grande significância na nossa cultura.  Famoso personagem astuto e inteligente das histórias indígenas e da literatura em geral, sendo objeto de estudos e até se constituindo num dos mais cobiçados prêmios.
Entre os indígenas é símbolo da esperteza, paciência, perseverança, gravidade e sabedoria, como se vê nas inúmeras narrativas (o jabuti e a fonte, e a anta, e as onças, e o veado, e os macacos, e as raposas, e o homem)  em que  sempre escapa dos perigos e faz os inimigos de besta. E assim passou à literatura e às histórias em quadrinhos. Na Turma do Pererê de Ziraldo é o eficiente mensageiro Moacir. Em Macunaíma de Mario de Andrade, assume até condição de Deus: “No princípio era só o Jabotí Grande que existia na vida”. Nas “Reinações de Narizinho” de Monteiro Lobato aparece também como uma figura vagarosa, mas esperta e obstinada, cheia de ânimo para vencer.
 E terminou virando o Prêmio Jabuti que a cada ano contempla autores, editores, ilustradores, livreiros e gráficos. Conta-se que a ideia foi lançada em 1958 por Edgar Cavalheiro, quando presidia a Câmara Brasileira do Livro (CBL). A escolha do Jabuti foi resultado da influência do modernismo e nacionalismo em voga na época e como uma maneira de homenagear Monteiro Lobato, então muito aclamado, e que valorizava os elementos e manifestações da cultura nacional, inclusive tendo dado vida ao Jabuti como personagem do seu famoso livro.
Portanto nos sentimos muito honrados e felizes em receber tão ilustre figura no nosso quintal. Ele veio vindo, procurando petiscos. Provou restos de maçãs, colocados nos pés de pinha como adubo, mas gostou mesmo foi da casca de melão. Ficamos observando, deixando a visita bem à vontade. Minha filha ofereceu água e pedacinho de melão, que ele experimentou apenas por delicadeza, voltando à casca. Preocupada, ela ficou pensando no que fazer para protegê-lo. Mas se ele chegara àquele tamanho era porque tinha boa condição de vida na matinha preservada além da cerca. Pouco depois, ele se foi por onde veio, atravessando por baixo da cerca. Ainda o vimos andando decidido até sumir atrás das moitas abaixo dos pés de piaçava, deixando, sem saber um rastro de contentamento e uma croniquinha. 

terça-feira, 13 de agosto de 2019


Sim, é possível


Eis que, por obra da magia da vida, me vi no reino das histórias de fadas. Por efeito de magia, sim, resultante da surpreendente generosidade de Trees e Pieter, casal de amigos, não tão íntimos (ela nunca vista pessoalmente), e de uma historinha de muitos anos atrás, também coisa do “era uma vez”, já contada numa crônica anterior. Não poderia prever tal viagem, mas lá estava eu. Ia por estradas margeadas de flores e flores, enveredando por túneis de árvores, atravessando bosques, alguns, quase florestas do lobo mau.

Ia aos castelos de grossas muralhas de pedras encimadas por ameias, altas torres quadradas e pontiagudas, escondidos nas matas, com antiquíssimas pontes levadiças, sobre os defensivos fossos circundantes, também largos lagos para os cisnes. E lá estando, ia da cocheira, à igreja com santa pendurada parecendo enforcada. Subia à torre de Rapunzel pela escada caracol feita de blocos de pedras encaixadas e descia aos calabouços. Adentrava ao misterioso laboratório de alquimia. Percorria salões, entre relíquias mis, mas não encontrava ninguém, embora estivessem ali: o príncipe encantado na estatuazinha do sapo coroado, os cavaleiros andantes dentro das armaduras de aço pesando 30 a 50 quilos com elmos, couraça, grebas, manoplas, espaldar, escarpe, ou na túnica de cota de malha. E as rainhas, reis, princesas, magos, servos transformados em bonecos de cera ou rondando como fantasmas.
      Do ressoar dos meus passos sobre ladrilhos enxadrezados ou de pedras lavradas emergiam gritos de batalhas, gemidos de enfermos, suspiros de amor, bramidos de paixões, tilintar de guizos dos bufões, vozes de acalanto, fala do espelho mágico, risada da bruxa após uma maldade qualquer, cicio de passos furtivos, praguejar de injuriados, súplicas de condenados, trovejar de vociferações, murmúrios de colóquios, sussurros de intrigas, sibilar das traições, versos e cantigas de menestréis a contar histórias e histórias reais e inventadas. Enfim, o reverberar das eras e sucessivas vidas.

       O peso dessas reverberações impelia à atmosfera amena dos jardins. Então enveredava por labirínticas sendas entre arbustos podados, sentindo-me sob espreita. Seguia entre profusão de flores de todos os formatos e todas as cores, cercando esculturas, beirando regatos limosos. Via o quiosque cônico coberto por colmo  e, atrás de moita de hortênsias, um gnomo parecia aplaudir o idílio do jovem casal de trajes bufantes. E ouvia a brisa passar, sentada num grande banco de pedra debaixo de folhagens pendentes e ladeado por leões. E seguia curiosa por comprida aleia, para lá no fim encontrar um grande símbolo fálico. E mais flores, e mais árvores e mais encantamento.

Deixando as terras do castelo, entrava e saía em aldeias e cidades cheias de chalés floridos tal qual a casa de chocolate de João e Maria. Todas semelhantes, mas nenhuma igual à outra.  Navegava pelos canais, ora margeados por matas em barco medieval, ora por imponentes prédios históricos e casas barcos. Passava por campos com vaquinhas malhadas e muitas ovelhas, entre plantações de batatas em branca florescência, milho, juncos ou colmos, tulipas, e outras flores. No caminho havia Moinhos de vento e água a desafiar Dom Quixote. Dentro de um deles, o moleiro e sua família calçando tamancos de madeira, os eixos e engrenagens, a providencial lareira também usada como fogão e secador de roupa, os utensílios peculiares, as pequenas camas, onde dormiam sentados, recostados em travesseiros, para não serem perturbados pelos maus espíritos. 

E tinha festa do queijo em Horn, concerto em palco flutuante debaixo de sol forte em Klein Belties, crepúsculo às 22 horas na praia de Castricum; Tico-tico no Fubá e Aquarela do Brasil, tocadas por músico búlgaro na porta de um supermercado; mercadinho pegue-e-pague (sem vendedor nem vigias) em Blokzijl; festas de aniversários, com muitas tortas e doces deliciosos, ao ar livre apesar do frio forte, porque era verão (e no verão vive-se fora de casa não importa a temperatura), uma dessas festas numa fazenda de nome convidativo  “Schuif  Eens Aan” (“Venha se juntar a nós por um tempo”). E ainda tinha os museus, as feiras e tantas outras coisas...

Sobretudo a descoberta de que para além do Reino da Fantasia, o mundo real também tinha se encantado. Havia um arranjo social, em que se dava prioridade à educação, ao bem estar das pessoas, à alegria de viver com saúde, segurança, harmonia e beleza. Havia a compreensão de que é impossível ser feliz sozinho e tratavam de evitar a miséria alheia. O governo oferecia moradias sociais de qualidade em meio a parques arborizados e pagavam 70% do valor do salário mínimo aos desempregados pelo tempo que fosse necessário, além da educação inteiramente gratuita e o hospital público, sem filas, com salas de espera entre jardins internos, instalações amplas e claras, mais eficiente e bonito do que os particulares de outros lugares.

Entendiam que a beleza e a interação com a natureza constituíam elementos favorecedores da sanidade pessoal e do bem estar social. Então se enchiam de flores até em telhados, circundavam-se de bosques e praças.  Mantinham a bela arquitetura tradicional, livre de espigões, de viadutos e de shopping center. Aprendiam a ser solidários, a serem simples, a não ostentarem, a respeitar os semelhantes, o meio ambiente e a si próprio, ajudando-se mutuamente, reciclando o lixo, usando energia eólica e solar e muita, muita bicicleta. Num enorme camping cheio, ninguém incomodava ninguém e as instalações, inclusive as sanitárias, eram impecavelmente organizadas e asseadas. Daí via presídios sendo destruídos, e as pessoas vivendo despreocupadamente satisfeitas, inclusive os idosos, com vida ativa, indo e vindo a toda parte, a pé, de bicicleta, carrinhos motorizados, metrô, bondes, trem, barcos, andadores rolantes  e mesmo cadeiras de roda elétrica. 


Portando, sobretudo havia a grata e animadora constatação de que outro mundo é possível, sendo a Holanda um exemplo disso. Pequeno consolo para as aflições deste tempo de trevas em que o Brasil se desmantela sob ação de inconsequentes gananciosos traidores e de enlouquecidos demônios. 
 
10/08/2019