Mundo Novo
Os dias vão passando
implacavelmente, cada vez mais rápido para quem já acumulou muita idade. O sol
continua, com participação primorosa das nuvens e ventos, estreando um novo
espetáculo de luz e cor a cada amanhecer e entardecer. E a gente há mais de um
ano estagnada nos adiamentos e nas esperas. Adiando planos, consertos,
consultas, viagens, encontros, abraços e beijos. Esperando a pandemia passar, a
vacina chegar, o governo mudar, a humanidade se transformar.
E neste compasso a
gente busca compensações e nesta busca a gente se entrega ao devaneio. Abre-se
a cortina e emerge um mundo resplandecente. Cenário mais que perfeito com
muitas árvores, flores, pássaros, águas límpidas, céu azulíssimo. Tudo sem
menor sinal de agressão ou poluição. E as cenas se desenrolam. E tudo
surpreende e encanta e nos engrandece e nos torna felizes. Cumpre-se o dizer de
que após a tempestade vem a bonança. Cumpre-se o axioma de que só se aprende
com o sofrimento, coisa que há bem pouco se duvidava vendo-se a contínua
reincidência.
Pela primeira vez cenário
e cenas se casam. No belíssimo e dadivoso Planeta azulzinho as encenações
humanas já não destoam do pano de fundo. As ações estão em perfeita harmonia
com ambiência. Plenamente conscientes da interdependência de tudo que há,
convencidos que são servos e não senhores da natureza, os humanos mudaram. Sim,
as lições dadas pela pandemia do covid 19, enfim surtiram efeitos. E já não
existem pobres e ricos, nem explorados e exploradores, nem raças, nem
estrangeiros, nem imigrantes, nem enjeitados, relegados, esquecidos, nem luxo
nem miséria nem isso nem aquilo que discrimina, separa, conflitua, infelicita.
Divisão, só de bens e de recursos, de partilha. Diferenças, só a diversidade
que enriquecem culturalmente.
As cidades não são
mais ilhas de concretos, onde cada um se esconde do medo para viver o
individualismo egocêntrico no ilusório conforto da caverna atapetada. Nem o
cimento dos viadutos são cinzas lençóis dos sem nada. Os campos não são mais
vastos latifúndios nublados de venenos do agronegócio nem espremidas e
ressequidas roças familiares de gatos pingados deserdados da sorte. Não há mais
grandes fortunas, nem acúmulos de capital, nem especulações, nem consumismo,
nem superprodução com seus desperdícios, encarecimentos e exaurição dos
recursos da Terra.
Não, no novo
mundo tudo é diferente. As cidades são jardins, onde as pessoas, conhecidas ou
não, se veem, se cumprimentam, se sorriem, festejam a alegria, celebram a vida.
Os campos são trechos conservados do Paraíso, onde se produzem alimentos sadios
para todos em regime de cooperativismo. O mundo é de todos os viventes e não de
apenas alguns equivocados gananciosos privilegiados aproveitadores do Planeta.
O uso de tudo é comum, dentro da compreensão de que não é preciso reter para
dispor. A ordem vigente é o respeito a tudo e a todos, à lei universal. É a
harmonia entre os diferentes dentro de Gaia, essa pequena bola sem fronteiras,
cheia de vida animal, vegetal, mineral, em que de modo fatal entrelaçadamente vivemos
viajando no espaço sideral.
Sim, enfim, chegou-se à compreensão da
interdependência de tudo e de todos, de modo que a real felicidade pessoal
depende dos outros indivíduos, sejam esses insetos, plantas e doutores. A começar pela dependência que os humanos têm
das árvores, dos rios, das fontes e das abelhas, sem os quais não têm o
oxigênio, água e alimentos de que precisam para existir. A natureza pode
dispensar os seres humanos, mas estes não podem viver sem a natureza. E numa sociedade doentia, na qual predominam as
discriminações, o abismo entre escassez e o supérfluo, o desamor, o isolamento,
a falsidade, a esperteza, a violência, as poluições, as devastações as
doenças, ninguém consegue ser feliz de
verdade, mesmo os ditos “aquinhoados da sorte”. Sobre todos paira a
insegurança, o medo a intromissão de um vírus letal a pegar todos de surpresas,
fazendo tudo parar e ser repensado.
Após muita relutância, perdas e sofrimentos, a
humanidade, afinal aprendeu e construiu o mundo novo. Passou-se a viver em outra condição com menos
coisas e mais serenidade e alegria, tendo por base a simplicidade, a compaixão,
a solidariedade, cooperação, a partilha, a fraternidade o amor. “E povo cantando
seu canto de paz”.
Mas eis que o telefone toca e o devaneio se interrompe.
A gente se dá conta de que sonhou, sonhou demais. Antes que a decepção vire
tristeza a gente lembra do documentário assistido há poucos dias, sobre uma
comunidade rural em Minas Gerais, que vive nos moldes do que se devaneou aqui.
Talvez mero reflexo ampliado do que foi visto e ouvido no filme. Seja como for,
a constatação de que tal comunidade existe de verdade, serve de alento à esperança.
E a gente continua sonhando com o Mundo Novo que poderia ou poderá vir a ser.
25 de fevereiro de 2021


















