quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Ipê e Valdomiro

 

De repente, no meio da primavera antecipada na segunda quinzena de agosto, o inverno irrompe com ventos fortes muito frios e alguma chuva a lembrar que a regência do tempo ainda lhe pertence e que a primavera espere a sua vez. No instante em que nisso penso, recebo do professor Jonilson a foto de um majestoso ipê amarelo, puro ouro sobre o azul no enquadramento da foto, a atestar a continuação do inverno, pois, como se sabe, os ipês são árvores invernais.

E justo no momento que contemplo a foto, recebo a notícia da morte de Valdomiro Santana. Meu amigo escritor, ensaísta, amante das artes e de tudo que é bom, belo e toca a alma. Questionador, crítico severo, às vezes intransigente, a ponto de fazer inimizades, mas sempre autêntico a inspirar confiança. Podia dele se discordar, mas jamais dizer que tivesse dois pesos e duas medidas. Não se furtava de dizer o que pensava para agradar ninguém, nem ao melhor amigo, nem à maior autoridade.

Por isso mesmo, eu muitas vezes submeti meus escritos à sua apreciação e quando da organização do meu livro de crônica pedi a ele que fizesse a revisão e me ajudasse na seleção e ordenamento das crônicas. Isso porque eu sabia que ele faria com isenção, apontando erros, sem nenhuma concessão, como aliás, o fez. Mas, para além do rigor com que impunha seu senso crítico e defendia seus pontos de vista ele era sensível e afetuoso em essência. Comovendo-se com facilidade e derramando ternuras. Como demonstram as mensagens do extenso carteado que mantivemos.

Ante a bela foto do ipê e a triste notícia, naquele estado indefinido entre a incredulidade, pasmo e lembranças, recorri ao arquivo das mensagens de e-mails que me enviava. E na primeira que li, aleatoriamente, ele contava que tivera um sonho em que eu aparecia como um ipê de onde saia inúmeros pássaros coloridos. E essa coincidência dos ipês da foto e do email com a notícia da sua saída desse mundo deu o que imaginar. Continuei lendo os e-mails em que se revela o intelectual erudito e perfeccionista no seu modo de ser gentil e afetivo. Numa dessas mensagens ele assim graceja falando coisa séria:

“Um gesto meu, bem pueril, me ocorreu agora: mandar fazer uma faixa (fundo branco e letras em vermelho e verde) e colocá-la na entrada do condomínio onde você mora: EU GOSTO DE VOCÊ. Não colocaria seu nome, para não individualizar, e assim essas quatro palavras luminosas serviriam para aquecer por dentro muitas pessoas, no sentido de torná-las menos egoístas e mais ternas. Muita gente se perguntaria: quem botou essa faixa aí? Quem é esse EU e quem é esse VOCÊ? E essas quatro palavras virariam uma epidemia em outros condomínios. Iriam se espalhando, se espalhando, ganhando espaços, bocas, ouvidos, corações. Teriam o poder de um poema de Quintana e de um de Cecília juntos, já pensou?”

          

  Em outra mensagem, voltando ao mesmo tema, diz: “As quatro palavras mais importantes para qualquer ser humano são: "Eu gosto de você". O afetivo é o efetivo. É o que fica. Sem isso a vida não vale nada. Quando uma pessoa ouve essas quatro palavras, ela se ilumina por dentro e por fora. Ilumina-se e pulsa. Toda a experiência humana gira em torno dessa expectativa, da recepção que daí pode advir, do que flui uma pele para a outra pele.”

E em mais uma mensagem,  explica seu processo de criação, deixando evidente a aplicação do rigor  a si próprio:  “ Na verdade, me dou à escrita literária em doses homeopáticas. Reescrevo mais do que escrevo. Horas e horas, dias, cortando, limando, curtindo o som de uma palavra, revirando-a, experimentando mil coisas com ela, seu jogo na composição de uma frase etc.” E por ai vai, e por aí vou pinçando trechos reveladores, mas que não cabem no espaço de uma crônica.

Voltando à foto do ipê. Lembro da lenda, que Valdomiro bem gostaria saber, se é que não sabia. Conta-se que quando Deus estava preparando o mundo, reuniu todas as árvorese pediu que cada uma escolhesse a época em que gostaria de florescer e embelezar a Terra. Foi aquela folia. Alegremente diziam: “Outono”, “verão”, “primavera”. Mas nem uma vez se escutou alguma dizer inverno. Notando isso, Deus parou a reunião e perguntou por que ninguém escolhia o inverno. Cada uma tinha sua razão: “porque o inverno é muito seco!”  “E muito frio!” “E tem muitas queimadas! 

Então Deus falou: “Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno, que seja corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas. No inverno, também  a Terra precisa de flores para embelezar o ambiente dos homens....” Silêncio... Todas as árvores calaram-se. Foi então que uma árvore quietinha lá no fundo, falou: “Eu vou! Eu quero florescer no inverno”. Sorrindo Deus perguntou qual era o nome dela. E ela disse se chamar Ipê.

E enquanto as outras árvores se mostravam surpresas com a coragem do Ipê em querer florescer no inverno. Deus decretou: “Por atender meu pedido farei com que você floresça no inverno não só com uma cor, mas com muitas cores para que também no inverno o mundo seja colorido. Terás diferentes cores e texturas e sua linhagem será enorme”. E assim, uma das mais lindas árvores que existem dá cor e diminui a melancolia ao inverno cinzento.  

Acredita-se que fechar os olhos e imaginar um Ipê-amarelo favorece a cura do corpo e da alma. E eu tendo um belíssimo ipê amarelo diante dos olhos, a ele recorro em busca de alento para a tristeza que me vai na alma nesse instante de perda de mais um amigo querido.       



 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

Um Ponto de Luz


 

 Na madrugada escura há um ponto de luz diante da janela aberta. Da minha cama posso vê-lo bem. Um ponto de luz único, muito brilhante, grande, muito grande, maior que os   demais astros vistos por nós a olho nu. Eu não sei se é uma estrela ou um planeta e qual nome tem. Meus parcos conhecimentos de astronomia, malmente me permitem identificar as Três Marias (O Cinturão de Orion) e o Cruzeiro do Sul. E que importa o nome? Seria tão só uma denominação inventada por alguém. Importa que é um ponto de luz, que solitariamente brilha, uma piscadela do universo, um aceno que me acorda às 4h da manhã, me põe, primeiramente a contemplar e depois a pensar, pensar, longamente pensar.

Se eu fosse ainda suficientemente criança, diria que esse ponto de luz é a minha estrela da boa sorte a me velar. É bom, muito bom crer nisso, pois que é confortante ter uma estrela a nos garantir boa sorte, como o é também ser zelado, ainda que por um pingo de luz no escuro da noite. Mas como não sou mais suficientemente criança, lembro que não posso chamá-la de minha. Outros insones, devem agora mesmo estar dizendo, minha estrela. Naturalmente,  ela é de cada um que a vê e admira, é de todos, todavia não é de ninguém, tal qual a Tereza da Praia, da dupla Dick Farney e Lúcio Alves, música de Tom Jobim  e Billy Blanco. Assim cientifica que não é preciso ter para dispor, ou dito de outra maneira, é possível ter sem possuir, o que representa um aprendizado do desapego e da partilha. E lá vai o pontinho de luz passando lições da arte de viver.

O amanhecer se insinua no suave clarear do horizonte. E o ponto de luz, se torna ainda mais brilhante E eis que já o imagino como um farol a alertar para os perigos e a apontar o caminho seguro a seguir. Ter uma guiança em meio à acidentada escuridão oceânica da vida é também muito confortante. Mas não basta ter o mapa, é preciso saber como segui-lo. A luz ilumina a rota, mas não aplaca ventos nem amansa ondas. O caminho está traçado, mas a travessia é que são elas.  Ai! que esse belo pontinho de luz com sedução e as esfíngicas piscadelas, conforta e inquieta ao mesmo tempo.  

Pintura: Eduardo Espinheira

            Tento voltar a dormir, mas continuo a contemplar e refletir. E me indago: Do tal ponto de luz, a Terra seria vista tal qual eu o via?  Seria, então, um contato imediato de primeiro grau entre o planetinha azul e o astro não identificado? Mais uma coisa que não sei, nem saberei. Mais uma constatação do tanto que não se pode saber. E eu que já quis saber tudo... E até acreditava que seria possível... Dura aprendizagem o da resignação ou da aceitação do cosmo como é, dos enigmas e mistérios, das impossibilidades, das limitações pessoais, da própria ignorância e pequenez.

Já disse em crônicas, e volto a repetir, que nada como a contemplação do céu para nos fazer ver a nossa real condição e dimensão no universo. Diante da imensa incógnita e infinitude do espaço sideral, das galáxias e dos sistemas estelares, a ínfima individualidade humana só não é nula, porque no cosmo, composto de sistemas e subsistemas interdependentes, nada é insignificante. Isto pode servir de algum consolo, mas deixa claro que não há  lugar para nenhuma presunção.  Sem dúvida, esse ponto de luz é mesmo confortante e inquietante, dubiamente dual, como quase tudo na vida.

A alba se alarga. As cores do amanhecer se espalham. Uma nuvem passa encobrindo o ponto de luz e quando se vai, o clarão do novo dia já havia a apagado a noite, assim como a noite havia apagado o dia anterior. A luz que revela, também oculta no excesso de claridade.  A escuridão que esconde, também realça a luz na escassez de claridade. Piscou filosoficamente o Ponto de Luz que havia na madrugada ao desaparecer no clarão do sol.

                                                                             Pintura: Eduardo Espinheira
                                                                                                                               
                                                                                                                08/02/2022

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 11 de setembro de 2021

 

MARIPOSINHAS BRANCAS





 

Como eu disse certa feita, são várias, em diversidade e em quantidade, as inusitadas visitas que recebo e que suscitam admiração, alegrias, encantamentos, as vezes temores, longas reflexões e sempre rendem crônicas. E a coisa continua.  Há três dias estou com novos hóspedes em casa e não sei nada sobre eles. Nem sei se são eles ou elas. Uso o masculino apenas por norma gramatical que faz o ‘ele’ prevalecer até quando sujeito é de gênero indefinido ou nas abstrações. Herança dos tempos machista que perdura aqui e ali.

 Mas voltemos aos meus misteriosos hóspedes. Umas sete criaturas pequeninas, mimosas, muito brancas, de alvura perfeita como as roupas lavadas antigamente com sabão em pó rinso, silenciosas, discretas, não causam nenhuma alteração na rotina da casa. Chegaram sem serem notados, se instalaram na cozinha, nas portas de vidro que dá para área de serviço, da geladeira e dos armários, onde permanecem imóveis até agora.  Somente, quando sem querer, esbarrei numa, houve sinal de vida a revelar que são seres alados e que, portanto, voam. Então descobri que eram minis mariposas.



Por aqui não faltam mariposas. Tem as grandes, escuras chamadas bruxas a que se atribuem malefícios e agouros, porque segundo a lenda são feiticeiras transformadas em borboleta e que o pó das suas asas cega.  São comuns as de tamanho médio de cores variadas, agora, dessas diminutas branquinhas, nunca tinha visto. Entre o fascínio e a curiosidade, chegou pertinho, tiro fotos, e vou pesquisar. Preciso conhecer meus hóspedes. De imediato, fico sabendo que os povos guajiros da Colômbia consideram a mariposa branca como espírito de um antepassado que vem ao mundo terreno visitar seus parentes e que por isso não se deve matar nenhuma quando entram em casa.

E novas descobertas faço. Descubro, por exemplo, que ao contrário do que se costuma acreditar as mariposas não voam em volta das lâmpadas porque são atraídas pela luz. Na verdade é mais um dos males que os humanos provocam na natureza com as artificialidades que criam para compensar suas carências. Por não termos luz própria como os vagalumes, as águas vivas, as estrelas e precisarmos dela para enxergar, inventamos as lâmpadas que além de apagarem as luzes das noites e até nos cegarem por encandeamento, confundem as tartarugas e outros animais noturnos como as mariposas que têm por característica a orientação transversal, ou seja, se orientam segundo a luz da lua.



Os insetos noturnos quando saem para caçar voam em uma certa direção com relação à lua de modo a poder retornar ao seu habitat. Mas, uma fonte luminosa na terra mais intensa que a luz da lua, acaba por confundi-los e os fazerem voar em círculos ao redor dessas lâmpadas, até morrerem ao encostar nelas e queimar as asas. E esse voejar fatal das mariposas serve de metáforas para músicas poesias e de inspiração para lendas. Assim, fazendo-se a comparação, diz-se que uma pessoa tomada pela paixão, não enxerga a verdadeira luz e acaba se perdendo na ilusão.



Também se faz analogia com aqueles que buscam a iluminação espiritual, que procuram Deus. Por ser um inseto que passa por várias etapas de transformação, simboliza o processo de espiritualização, que exige período de recolhimento, de introspecção de mudanças pessoais até a conquista da serenidade, libertando-se dos equívocos, das ilusões e atingindo o estado de graça ou da  bem-aventurança, tal qual a mariposa que se arrasta como lagarta, passa tempo isolada  no aperto do casulo, até conseguir com muito esforço criar e libertar as asas e, enfim, voar.



Entro no mundo da biologia e certifico-me da importância das mariposas na natureza, sendo elemento da dieta de diversos animais, além de ajudar no controle de plantas invasoras e na polinização. Descubro que elas têm espirotrombas, algo como a “língua-de-sogra”, brinquedo das festas infantis. Quando querem comer desenrola a língua para sugar o alimento e ao acabar a recolhe enrolando. Contudo há espécies com a Mariposa Atlas que não tem boca porque não precisa se alimentar. Durante a fase de lagarta, ela come muitas folhas, estocando boa parte para crescer e sobreviver como mariposa. E tem mais, algumas podem ficar imóveis por muito tempo, aguardando o chamado sexual ou até sentir cheiro de algo que lhe sirva de alimento, ou ainda por estar no fim da vida, já que elas vivem apenas alguns meses.

Sobretudo fico sabendo que as mariposas brancas também representam sorte e a prosperidade. Muitos consideram que elas têm ótimas energias e que sua presença em casa é sinal de boas notícias. Mera superstição, é claro, mas é muito bom acreditar que minhas lindas e misteriosas hóspedes vieram me trazer sorte, sempre oportuna, mais ainda nestes tempos cheios de riscos. E que venham, pois, as boas notícias, de que, como todos, tanto ando necessitada.



 

 

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

 

NOSSA VIDA NÃO NOS PERTENCE




Por uma dessas sem razões da vida, no momento em que paro à janela a contemplar uma formação de nuvens branquinhas atrás dos lavados verdes que longamente se estendem por aqui,  me vem à cabeça a frase: “a vida é minha, faço com ela o que quiser”. Pensando melhor, não é tão sem razão assim, que essa frase aflora. Afinal muito tenho escutado ela nos últimos tempos, principalmente pelos que se recusam a tomar a vacina contra a covid 19 ou a respeitar as normas de proteção na pandemia. O sem razão, então, fica sendo tão só porque o cenário é belo e há uma sabiá em concerto acompanhada pela orquestra de mar e brisa, ou seja teria coisas mais agradáveis com que ocupar a atenção.

Mas, sabem como é a mente da gente, uma vez iniciada, a viagem prossegue. E a frase persiste: “a vida é minha e...” Será? A dúvida vem. Será mesmo que a nossa vida é nossa mesmo?  só nossa? e podemos dispor dela ao bel prazer? Basta pensar nas dores que uma vida que se acaba provocam nos entes queridos ou os reflexos que nossas ações produzem na sociedade, para concluir que não. A nossa vida não nos pertence, pelo menos, não só a nós mesmos. Se o nosso existir afeta os outros, então a nossa existência não é só coisa nossa e se é também de outrem, eticamente não temos direito de decidir sozinhos o que fazer com ela. Causamos mais sofrimentos, trabalheiras, custos e prejuízos aos outros e ao planeta do que podemos supor. Basta existir para provocar impactos.


Veja-se o caso da recusa da vacina e dos cuidados nesta pandemia. A primeira vista,  tomar  vacina, usar máscara, ir ou não a festas é uma mera questão pessoal.” Se ficar doente, problema meu”. Não mesmo. Se ficar doente, vai fazer familiares e amigos sofrerem com seu sofrimento ou morte, isso se não os contaminarem e matarem também. Vai sobrecarregar os profissionais da saúde e coveiros que já vem trabalhando sob exaustão, vai aumentar os custos dos hospitais, vai  exaurir um pouco mais os recursos da terra com o gasto de energia e de outros materiais usados nos medicamentos e equipamentos, necessários ao  tratamento médico. Vai impedir que outros doentes tratem de suas doenças por receio de serem contaminados. Vai contribui para que a pandemia se prolongue indefinidamente com todos os males físicos, psíquicos, econômicos, sociais que vem causando.

Diante disso a tão propalada liberdade e individualidade é posta em questão. Se olhado direito, o livre arbítrio é mera ilusão, de que nos valemos para alimentar nosso presunçoso egoísmo ou egocentrismo, para nos sentirmos poderosos, donos da Terra, autônomos, independentes, livres, para disfarçar a nossa indigência.  Num momento histórico de tão exacerbado individualismo como  o  que vivemos, é difícil encarar essa realidade. A satisfação pessoal está colocada acima de qualquer interesse coletivo, muito embora soframos as consequências do que atinge o coletivo, sendo nós próprios parte desse coletivo.  Colocamos a liberdade destituída da responsabilidade ética acima da fraternidade.

Contudo somos seres que precisam da autoafirmação dentro de um contexto de integração. Somos sistemas e subsistemas ao mesmo tempo, como tudo no cosmos. É difícil aceitar essa realidade da liberdade dentro de uma redoma, do individual limitado pelo bem comum. Entretanto a compreensão da nossa efetiva condição poderia resultar em bem maior. Em vez de continuar debatendo-se contra a vidraça poderíamos nos entregarmos à solidariedade, que nos assusta porque nos pega pelas asas, mas que nos põe fora para voar.


A tarde avança, as nuvens fazem e se desfazem e eu continuo refletindo, derivando para o devaneio. Penso que as coisas ficaríamos mais fáceis se em vez de conquistar, procurássemos nos harmonizar com as leis universais, entre elas, a principal, a lei do amor, a força de coesão universal que transforma o caos no cosmos. Com essa compreensão, harmonizados, veríamos as vantagens, e poríamos em prática, a cooperação, a solidariedade ainda que a custo de momentânea restrição da liberdade individual. É o que a atual pandemia parece conclamar: uni-vos seres humanos, ponham mais peso no prato da balança em que está a necessidade de integração, porque se houvesse solidariedade, se tivesse havido real colaboração de todos, a pandemia já teria passado e todos estaríamos livres para fazer o que quisessem sem medo, sem remorsos, felizes por celebrar a vida.

Sim, a pandemia veio lançar diretamente questões fundamentais: Como podemos ser felizes em meio a um mundo de infelicidades? Como podemos ser indiferentes as dores alheias, quando também sentimos dores? Cada um não é um outro para os outros? Não seria tempo de seguir a regra de ouro de fazer aos outros aquilo que deseja pra si. Não estaríamos no tempo de rever os valores, os modos de produção e de relação e se tratar de equilibrar o trinômio da revolucionária divisa. Liberdade, igualdade, Fraternidade, e não apenas fazer prevalecer um dos termos? Liberdade com responsabilidade e respeito ao outro, ao coletivo, para que haja igualdade de oportunidades conforme a regência da fraternidade, e se construa um mundo feliz, em que todas as vidas tenham igual valor e não  somente  algumas usurpadoras de privilégios.  

O dia começa se apagar atrás das nuvens, agora tangerinas, vagando sobre o céu genciana. A sabiá se calou, mas os violoncelos da orquestra marinha continuam entoando o adágio em surdina, enquanto o vento fazendo os coqueiros de harpa vai tangendo suas palhas que adernam lentamente. Já é hora de deixar de filosofar e ficar ao pé da natureza apenas como se deve estar segundo o poeta Fernando Pessoa, sem pensar em nada, pois, como ele também diz, “sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.



 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

  

De Romance e Resedá

          


Nas dobras do tempo se perderam as sutilezas que romantizavam a vida, restando o atual momento de insípidos vazios espetáculos e explicitações. Mas no momento em que minha amiga Gracinha me envia uma foto das flores do resedá e conta uma historinha dos seus avós, o tempo se desdobra e me sinto tomada por suave ternura de encantamento que os pequenos quase nada da singeleza nos proporcionam.

Gracinha diz “essas são as flores do resedá, uma plantinha muito antiga. Tia Angélica me contou que na casa de Vó, no Catu, tinha um pezinho e que Vó tirava um galhinho e colocava no cinto de tecido na cintura pra estar perfumada quando Vô chegasse em casa. Ele era chefe do restaurante do trem e saltava no Catu, uma das estações, depois do trabalho. Delicadeza e muito amor!”

Sim, muito amor expresso de forma delicadamente sutil e que por ser assim, transcende aos amantes e enternece também a quem percebe. E minha amiga ainda complementa “Minha avó era muito doce. Quando ela e meu avô se desentendiam (os desentendimentos eram raríssimos), falavam baixinho, eu só ouvia ele dizer, baixinho mas zangado: Senhora! Que era como ele a chamava. E ela, Oscar! Era um barato!”.


Pura doçura até nas raras zangas. E tanta candura rescendendo o perfume de resedá me faz lembrar daquelas figuras antigas de enamorados em biscuit ou gravuras românticas em jardins de muitas flores. Ele oferecendo um ramalhete ou pequeno buquezinho a ela sentada num balanço também florido a olhá-lo ternamente. Ou, em outra cena, ela faceiramente prendendo uma flor nos cabelos ou no botão da blusa sob a fascinada contemplação dele. Era um tempo de poucas palavras, mas de altas significâncias dos pequenos gestos, longos silêncios, suspiros profundos, olhares furtivos, discretas declarações, insinuantes demonstrações de amor


Posso imaginar, uma cidadezinha com sua bela estação de trem, todas estações de trem são sempre muito belas, igreja num largo em torno da qual se distribuem algumas ruazinhas pacatas com seus ajardinados bangalôs de varandinhas aromadas de jasmins e outras flores antigas. Em um deles, no fim do dia, antes do alto-falante tocar a Ave Maria, uma jovem senhora, banho tomado, cabelos arrumados, vestido com enfeites de renda alvamente engomado, colhe raminho do balsâmico resedá e discretamente o põe no cinto para receber o marido, seu presente de todas as tardinhas, sendo também ela mesma o mimo cheiroso a dar-se a ele.

Tudo isso no tempo das sutilezas, no tempo de romantismo, no tempo de resedá, e outras flores antigas. Até as flores entram e saem de moda? Mas minha amiga tem jardim com flores antigas e delas ela fala desse jeito: “De resedá eu tenho dois pés. O primeiro foi comprado na mão de uma senhora, dona Alice, que morava perto da Igreja S. José, no centro. Ela mesma fazia as mudinhas de um pé que tinha e depois eu fiz uma muda e plantei no jardim. Na mão dela também eu comprei uma muda de jasmim estrela, aquele bem antigo e perfumado. Tenho dois pés enormes dele aqui. Um sobe pelo telhado da frente e perfuma a sala. O outro, é do lado da casa. Dona Alice já morreu e só vendia plantas antigas. Tenho também o jasmim bugari, parece uma rosa branca e super perfuma tudo em volta”.

Então eu me pergunto: será que o romantismo passou porque essas flores desapareceram ou foi o contrário, estas flores sumiram porque o romantismo terminou? Seja como for, o caso é que minha querida Gracinha é uma sensível romântica que cultiva flores antigas e me inspira crônicas assim.  



sábado, 22 de maio de 2021


 

Matutando na Madrugada

 



Acordo no meio da madrugada com um ruido no forro. Ainda de olhos fechados penso que algum bichinho tenha entrado entre o telhado e o forro. Torço para que consiga sair logo. Ainda com muito sono vou adormecendo, mas ouço novo ruído, mais forte e percebo que é dentro do quarto. Abro os olhos a tempo de ver algo se bater no forro e cair na escrivaninha, atrás da impressora. Temo ter sido uma barata, apesar da   coisa ser bem grande.  Mas como estou debaixo do mosquiteiro me sinto um pouco protegida, na verdade, acuada. E se a bicha voar em direção da cama? Arrepio no corpo todo. 

Para piorar vem a necessidade de fazer xixi. Como sair do abrigo de filó, abrigo frágil, bem verdade, ainda sim uma proteção. Tento dormir. Cadê conseguir precisando ir ao banheiro e com uma possível barata no quarto? Encho-me de coragem, mesmo porque agora também o frio aumentou requerendo uma coberta. Levanto devagarinho, vou ao banheiro. Tudo bem, mas quando abro a porta do guarda-roupa para pegar o cobertor, escuto o barulho na escrivaninha. Corro pra baixo do mosquiteiro. Então vejo que é um passarinho que voa, mas se bate no teto.




Não é a primeira vez que isso acontece. Os pássaros entram pela janela sempre aberta e não conseguem sair. Feitos para voar no amplo espaço natural, eles não podem entender uma barreira ao voo. Afinal o mundo não tem teto e o coitado do pássaro, talvez um sabiá que cedo madruga, no escuro não dá pra distinguir, se debate na armadilha humana. Não sei como ajuda-lo, porque qualquer movimento meu o assusta fazendo se bater mais ainda. Insiste em passar por onde não pode e tomado pelo pânico não aceita ajuda. Nisto se iguala aos seres humanos que embora se gabem da inteligência que têm, continuam se batendo nas vidraças das impossibilidades e por medo ou cegueira da teimosia não veem as saídas nem as ajudas que lhes são oferecidas. E vão repetindo erros, criando um mundo caótico para si, para a sociedade em que vivem e para o lindo planetinha azul.


Querendo servir a dois senhores, colocando remendos novo em pano velho, querendo conciliar o inconciliável, vai-se atirando pedras para cima com a própria cabeça embaixo. Vai-se elegendo valores artificiais e o vírus da insensatez se alastra numa pandemia sem vacinas ou qualquer controle, mesmo porque a demência que este vírus causa não deixa ver o mal que é. Assim o vício da riqueza, do poder e fama embotam os sentidos a razão e a sensibilidade. Assim se queima e derruba florestas de onde vem o ar que se respira, polui-se rios da água que se bebe, mata-se manguezais e por ai adiante. Assim nascem projetos estapafúrdios como o de criar uma cidade com prédios de 30 andares num recanto paradisíaco, que poderia inclusive gerar dinheiro com o turismo sustentável.



Fico a pensar no que sente essa gente que manda destruir e os que executam a destruição. Como ter coragem de macular a alvura da areia daquela praia, cortar o coqueiral que alheio as intenções entoa longo acalanto ao passar da brisa? Como meter trator e motosserras naquela mata intensamente verde de clorofila e ar em desmedido arvoricídio e chacina dos animais?  Como não se comover com o cantar de passarinhos que sem razão alguma condenam à morte? Como não se extasiar com a sensação de límpida infinitude azul do mar e do céu? Tanta beleza em sossego não é suficiente para enternecer o coração e elevar a alma? A paz que ali se experimenta não plenifica o ser? Como então violentar os restos de paraíso que ainda resistem com empreendimentos questionáveis?

Procuro entender a falta de sensibilidade.  Será que a sensibilidade só chega para alguns, ou será que foi perdida na trajetória da humanidade deslumbrada com as parafernálias que inventa? Talvez a sensibilidade tenha sido perdida quando se pôs tetos no mundo, escondendo o navegar das nuvens no mar azul do céu e o estrelejar dos astros no veludo escuro da noite. Ao artificializar-se, ao distanciar-se da natureza os humanos esqueceram sua condição e, sobretudo, ao deixar de ver estrelas perderam a sua real dimensão em significância. Nada como um bom céu estrelado para criar o pasmo essencial, para nos fazer baixar a crista e nos botar em nosso lugar, mas também, como aos pássaros, nos fazer alçar voos extraordinários. Os tetos não só confundem as aves, mas também nos limitam e nos tornam ridiculamente presunçosos.

E por falar em pássaro, devo dizer que o que estava aqui felizmente achou a saída. Enquanto eu matutava o sol ergueu-se empurrando a noite para mais tarde. Na luz do novo dia a avezinha viu o seu caminho para espaço sem fim. Mas já era tarde pra voltar a dormir e sob o teto me pus a cumprir o cotidiano.

    




                                                                                                                                                                                                                                         

sexta-feira, 9 de abril de 2021

 

Sob as primeiras chuvas de abril

 


Há poucos dias eu dizia que as folhas luziam e reluziam sob a luz do sol de fim de estio. Agora acabei de ver as folhas também luzindo, mas sob as primeiras chuvas de abril. O verde lavado reluz alegrinho e as gotas retidas nas folhas verdinhas são pedrinhas de brilhante a tremeluzir. E fazem pensar.

Mais uma vez a constatação de que os opostos se igualam. Tanto o sol quanto a neve põem a vida a hibernar. Seja sob o solo crestado do sertão ou congelado onde neva, a vida fica adormecida e basta os primeiros chuviscos no chão esturricado ou os primeiros raios de sol sobre o chão gelado para a vida belamente acordar pujante.   

Aqui, na zona de meio-termo, ou seria do caminho do meio do taoismo? ou da moderação dos gregos? Aqui, que não neva nem tem sol esturricante, não chegamos a ver esse fenômeno, mas nem por isso deixamos de observar as sutilezas da natureza.

E as primeiras chuvas de abril se intensificam, pois afinal, abril, águas mil. Da beira do telhado desce a espessa cortina d’água. Uma leve fina névoa embaça o azul do céu e põe o brilho das folhas atrás de tule, compondo outra beleza no lugar.


E por falar em abril chuvas mil lá vem a lembrança da belíssima música “As cores de abril”, de Toquinho e Vinicius, uma das nossas odes à alegria, que há poucos dias circulou nas redes socias em forma de lindo vídeo. Um abril com cores e ares de anil, mundo aberto em flores pelas quais pássaros mil voam fazendo amor; um abril com canto gentil de bem-te-vi e com cores que não querem saber de dor; e em meio a tanta beleza, a natureza  transforma a vida em canção.



Fico pensando no dia da criação dessa música. Estariam os compositores no hemisfério norte onde a primavera é em abril? Ou teria sido por aqui mesmo, no outono, num abril atípico, quando em vez de chuvas havia cores, ares de anil, flores e pássaros?

E como pensamento puxa pensamento, no pensar num abril atípico chega também a surpresa de Trees, a amiga holandesa, diante do abril desse ano por lá, com tulipa na neve. Envia foto para comprovar. Como se não bastasse a estranheza de nevar na primavera, ela  conta que dez minutos  depois da neve cair fez-se tempo de verão. E concluiu dizendo, com o ditado deles: “April does whatever it likes to do”, ou seja “abril faz o que ele quer fazer”, sendo, portanto, imprevisível, ou simplesmente dono de sua vontade.

A chuva dá uma trégua para os verdes da vegetação se exibirem de banho tomado e roupa nova. Na mente ecoam a melodia e os versos  de Toquinho e Vinicius, sim “tudo é pura visão/ E a natureza transforma a vida em canção” E a gente se apaixona pela natureza, pela vida. Também de alma lavada, ao menos momentaneamente livre dos medos, das dores, das indignações deste tempo de trevas, a gente está pronta a seguir o conselho do poeta: “Vai e canta, meu irmão. / Ser feliz é viver morto de paixão”.