NOSSA VIDA NÃO NOS PERTENCE
Por
uma dessas sem razões da vida, no momento em que paro à janela a contemplar uma
formação de nuvens branquinhas atrás dos lavados verdes que longamente se
estendem por aqui, me vem à cabeça a
frase: “a vida é minha, faço com ela o que quiser”. Pensando melhor, não é tão
sem razão assim, que essa frase aflora. Afinal muito tenho escutado ela nos
últimos tempos, principalmente pelos que se recusam a tomar a vacina contra a
covid 19 ou a respeitar as normas de proteção na pandemia. O sem razão, então, fica
sendo tão só porque o cenário é belo e há uma sabiá em concerto acompanhada
pela orquestra de mar e brisa, ou seja teria coisas mais agradáveis com que
ocupar a atenção.
Mas,
sabem como é a mente da gente, uma vez iniciada, a viagem prossegue. E a frase
persiste: “a vida é minha e...” Será? A dúvida vem. Será mesmo que a nossa vida
é nossa mesmo? só nossa? e podemos
dispor dela ao bel prazer? Basta pensar nas dores que uma vida que se acaba
provocam nos entes queridos ou os reflexos que nossas ações produzem na
sociedade, para concluir que não. A nossa vida não nos pertence, pelo menos,
não só a nós mesmos. Se o nosso existir afeta os outros, então a nossa existência
não é só coisa nossa e se é também de outrem, eticamente não temos direito de decidir
sozinhos o que fazer com ela. Causamos mais sofrimentos, trabalheiras, custos e
prejuízos aos outros e ao planeta do que podemos supor. Basta existir para
provocar impactos.

Veja-se
o caso da recusa da vacina e dos cuidados nesta pandemia. A primeira
vista, tomar vacina, usar máscara, ir ou não a festas é
uma mera questão pessoal.” Se ficar doente, problema meu”. Não mesmo. Se ficar
doente, vai fazer familiares e amigos sofrerem com seu sofrimento ou morte,
isso se não os contaminarem e matarem também. Vai sobrecarregar os
profissionais da saúde e coveiros que já vem trabalhando sob exaustão, vai
aumentar os custos dos hospitais, vai
exaurir um pouco mais os recursos da terra com o gasto de energia e de
outros materiais usados nos medicamentos e equipamentos, necessários ao tratamento médico. Vai impedir que outros
doentes tratem de suas doenças por receio de serem contaminados. Vai contribui
para que a pandemia se prolongue indefinidamente com todos os males físicos,
psíquicos, econômicos, sociais que vem causando.
Diante
disso a tão propalada liberdade e individualidade é posta em questão. Se olhado
direito, o livre arbítrio é mera ilusão, de que nos valemos para alimentar
nosso presunçoso egoísmo ou egocentrismo, para nos sentirmos poderosos, donos
da Terra, autônomos, independentes, livres, para disfarçar a nossa
indigência. Num momento histórico de tão
exacerbado individualismo como o que vivemos, é difícil encarar essa realidade.
A satisfação pessoal está colocada acima de qualquer interesse coletivo, muito
embora soframos as consequências do que atinge o coletivo, sendo nós próprios
parte desse coletivo. Colocamos a
liberdade destituída da responsabilidade ética acima da fraternidade.
Contudo
somos seres que precisam da autoafirmação dentro de um contexto de integração.
Somos sistemas e subsistemas ao mesmo tempo, como tudo no cosmos. É difícil
aceitar essa realidade da liberdade dentro de uma redoma, do individual limitado
pelo bem comum. Entretanto a compreensão da nossa efetiva condição poderia
resultar em bem maior. Em vez de continuar debatendo-se contra a vidraça
poderíamos nos entregarmos à solidariedade, que nos assusta porque nos pega
pelas asas, mas que nos põe fora para voar.

A
tarde avança, as nuvens fazem e se desfazem e eu continuo refletindo, derivando
para o devaneio. Penso que as coisas ficaríamos mais fáceis se em vez de
conquistar, procurássemos nos harmonizar com as leis universais, entre elas, a
principal, a lei do amor, a força de coesão universal que transforma o caos no
cosmos. Com essa compreensão, harmonizados, veríamos as vantagens, e poríamos
em prática, a cooperação, a solidariedade ainda que a custo de momentânea
restrição da liberdade individual. É o que a atual pandemia parece conclamar:
uni-vos seres humanos, ponham mais peso no prato da balança em que está a
necessidade de integração, porque se houvesse solidariedade, se tivesse havido
real colaboração de todos, a pandemia já teria passado e todos estaríamos
livres para fazer o que quisessem sem medo, sem remorsos, felizes por celebrar
a vida.
Sim,
a pandemia veio lançar diretamente questões fundamentais: Como podemos ser
felizes em meio a um mundo de infelicidades? Como podemos ser indiferentes as
dores alheias, quando também sentimos dores? Cada um não é um outro para os
outros? Não seria tempo de seguir a regra de ouro de fazer aos outros aquilo
que deseja pra si. Não estaríamos no tempo de rever os valores, os modos de
produção e de relação e se tratar de equilibrar o trinômio da revolucionária
divisa. Liberdade, igualdade, Fraternidade, e não apenas fazer prevalecer um
dos termos? Liberdade com responsabilidade e respeito ao outro, ao coletivo,
para que haja igualdade de oportunidades conforme a regência da fraternidade, e
se construa um mundo feliz, em que todas as vidas tenham igual valor e não somente
algumas usurpadoras de privilégios.
O dia
começa se apagar atrás das nuvens, agora tangerinas, vagando sobre o céu
genciana. A sabiá se calou, mas os violoncelos da orquestra marinha continuam
entoando o adágio em surdina, enquanto o vento fazendo os coqueiros de harpa vai
tangendo suas palhas que adernam lentamente. Já é hora de deixar de filosofar e
ficar ao pé da natureza apenas como se deve estar segundo o poeta Fernando
Pessoa, sem pensar em nada, pois, como ele também diz, “sábio é o que se
contenta com o espetáculo do mundo”.