NA FILA DO BOLO
O
Pai, a filha e o marido da filha chegaram cedo, mas já encontraram a fila
grande naquela manhã de 23 de junho. Como se sabe, brasileiro adora fila e não
perde oportunidade de formar uma: se a
bilheteria do estádio ou do teatro vai abrir às 10 horas, desde as cinco a fila
começa a se formar. Longe de ser entediantes as filas para os nascidos no país
abençoado por Deus e bonito por natureza serve de catarse, ali se reclama da
razão da fila, dos preços, do governo, dos jogadores; ali se discute a última
partida de futebol e se conta piada, fala-se da própria vida e das alheias. E se for daquelas que varam a madrugada bem
provável “rolar” um sambinha e virar um forrobodó. Nas filas podem acontecer
quase tudo e naquele dia não seria diferente.
Também
todo mundo sabe que um bom baiano no São João não dispensa canjica, amendoim
cozido, milho cozido, milho assado, pamonha de milho ou carimã e, sobretudo os
bolos de aipim, carimã, milho e tapioca. Porém, como diria Caymmi, “o trabalho
que dá pra fazer é que é”. E em tempo de redes sociais, “ninguém quer saber do
trabalho que dá”, inda mais quando são achados prontos nos mercados, padarias,
delicatessen ou lojas de venda de bolo que viraram moda e proliferam em todo
canto. Portanto não era de se estranhar que onde o pai, a filha e o marido
chegaram ainda cedo, a fila estivesse tão grande estendendo-se pela rua. Já
começavam chegar vendedores de cafezinho, de água, amendoim cozido e torrado,
pipoca, cachorro quente e até cerveja. Que eles têm o dom de surgirem do nada
onde há filas e engarrafamentos.
Lá
de trás vinha, de algum celular, a voz
de Luiz Gonzaga cantando “Ai que saudades que eu sinto / Das noites de São João
/ Das noites tão brasileiras na fogueira / Sob o luar do sertão... provocando
doces recordações aos mais velhos, saudosamente comentadas, levando outros a
condenarem a descaracterização dos festejos atuais do forro carnavalescamente
eletrizado. Mas, na frente a voz de um senhor idoso sobressaia sobre tudo,
fazendo gracejos, pilheriando. Empolgado consigo mesmo, lá para tantas
imprudentemente proclamou bem alto:
—
A fila está grande porque as mulheres preguiçosas de hoje em dia não querem
mais fazer bolo.
De
imediato, do meio da fila ecoou a estridente indignação da filha que estava ali
com o pai e o marido:
—
Os homens também podem fazer bolos, por que não fazem?
—
Porque gostam de pegar fila. – Completou a senhora vizinha.
O
senhor da frente riu, outros mais riram. O pai da mocinha enfezou a cara por achar que
a filha estava arranjando confusão. O marido
pôs as barbas de molho. O machista falador se calou por reconhecer a mancada que
dera ou por simples medo de ser linchado, porque embora com poucas palavras
simples, sem conter nenhuma ofensiva, fora dita de tal forma com firmeza
inconteste a fazer calar e tremer qualquer machão numa fila com muitas mulheres.





