domingo, 17 de março de 2019


PREMONIÇÃO



Alguém me manda uma foto numa convidativa piscina. É o quanto basta para completar o já grande desassossego da alma, que nesta, enfim fresca, tarde de fim de verão ultra escaldante, anseia por vagabundear. Anseia em ir por aí, essencialmente para onde há mar. Mar de altas ondas, ventos vigorosos, coqueiral sacudido entre o cheiro de antigas férias exalado de certo matinho ralo na orla da areia. Melhor, para um mar de águas plácidas, transparentes, mornas e ficar a boiar, nestas águas cheias da maré de março de  quase plenilúnio, cercada de azuis por todos os lados, por cima, por baixo, por dentro.
E andar na praia, bater papo com amigos, comer acarajé e abará tomando água de coco ou até uma cervejinha. E tomar banho nas extintas lagoas ou riacho entre dunas, paralelo ao mar. Ah!  também larga-se nas redes das tantas varandas, sempre presentes nas sensações de enlevos revividos. E preguiçar, e ler, e pensar, e sonhar e chamegar ou apenas ficar a ver invejosamente carcarás ou urubus planando e escutar os sanhaços, sabiás, fogo-pagô, bem-te-vi, o dueto das saracuras três-potes ou dos casacos de couro e a triste juriti ao longe. E caminhar pelo cais enquanto o sol vai pincelando o belo quadro impressionista do fim de cada dia com matizes vermelhos, laranjas, amarelos, róseos, lilases sobre azuis gencianas do céu e mar, iluminando veleiros ancorados ou um barquinho solitário ocupado em pescar paz.
Como o rio segue pro mar, assim também a tarde avança para noite e já os aromas dos jasmins, castanheiras, coiranas, eucaliptos, almecegas, agora distantes, e as araçaranas de perto, já rescendem.  E alma errante vai de um ponto a outro, no desconhecimento dos limites do tempo e espaço, entre lembranças, quimeras, desejos atuais e os revividos. Isto não é assim muita novidade para quem tem cabeça nas nuvens, olhar perdido nos horizontes e vive a navegar nos oceanos do devaneio. Mas, agora a coisa é mais acentuada. Nos últimos dias sente-se algo diferente no ar. 


Há dois dias um pôr-do-sol estupendo deixou todo mundo pasmo e as redes sociais repletas de fotos fantásticas, mas nenhuma correspondendo fielmente ao real. Naquela tarde houve ameaça de tempestade, em dado momento fez-se o paradeiro que antecede aos temporais, seguido pelo ventinho cheirando a chuva, que não chegava a amenizar o calorão. Chegou-se a ver relâmpagos e ouvir trovões. Escureceu muito cedo, por volta das 16 horas já era quase noite. A tal alma errante suarenta trabalhava de frente para o computador, de repente uma claridade invadiu pela janela tal qual uma luz elétrica tivesse se acendido. Olhando para fora, espantou-se com o que viu. O mundo se acendera de fato. De ponta a ponta do céu havia se espalhado uma coloração nunca antes vista, impossível descrever. O mais incrível ainda foi o efeito criado sobre a vegetação, principalmente no  topo das copas das árvores. Estavam com uma luminosidade de pasmar. À esquerda, um enorme e perfeito arco-íris acentuava a beleza e, sobre a folha do coqueiro em frente, um carcará parecia também embevecido a contemplar aquele fenômeno.
Era anúncio de alguma importante transformação na Terra? Seria de fazer tremer diante dos últimos acontecimentos tão terríveis, mas a alma errante, dentro do desassossego do alçar voos, experimenta sensações agradáveis, uma indefinida alegria. E porque assim sente, é de se esperar que a hipotética transformação seja para pôr fim ao que não presta e fazer surgir um novo Jardim do Éden.    
16/03/2019

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


COISAS DA ILHA 2 – VISÃO MÁGICA



  
Após ganhar o dia com um maravilhoso banho de mar numa belíssima manhã de janeiro e com a gentil espontaneidade de pessoas desconhecidas, sentei num banco sombreado para ainda contemplar o mar. E aí, fui ainda mais agraciada com a visão dos saveiros de vela de içar.
Os magníficos saveiros entravam no canal. Provavelmente viam de Salvador, rumo a Cacha Prego ou Maragogipe ou Maragogipinho ou Jaguaripe.  Dois de uma só vez, quando ver apenas um hoje em dia é o mesmo que achar trevo de quatro pétalas, ou um cavalo marinho.  Garantia de sorte. No caso, sorte de ver a poesia viva. Sim, o saveiro — esteticamente perfeito nas linhas do casco determinadas pelo graminho e no formato das velas de sensuais ondulações — é poesia materializada. Poesia largada ao vento e à destreza dos mestres saveiristas de tantos causos, como os contados por Jorge Amado no romance Mar Morto, recém lido.
Como Álvaro de Campos na “Ode Marítima” deixo-me levar pela visão das embarcações com suas sedutoras velas pandas e também entro no delírio que as coisas do mar provocam quando longamente observadas.  Entrego-me ao devaneio e vivo histórias. Enfrento tempestade. Como o Mestre Memeu, passo a noite toda agarrado ao que sobrou do saveiro naufragado, esperando por socorro. Ponho-me no lugar da mulher que de olhos fitos no mar aguarda seu homem chegar. Com esforço hercúleo iço a grande vela com a carangueja.  Sou viúva do mestre que Janaína levou a percorrer mundos sem fim. Vejo os cabelos de Janaína estendidos no rio em noites de lua cheia. Amo e sou amada sobre o tijupá sob o céu estrelado. Canto cantigas praieiras para ninar o meu homem ou estimulá-lo a vencer a corrida de saveiros. Vejo o cavalo assombrado que em certas noites escuras cavalga pelas margens do rio. E também conto causos da gente do mar, vistos, ouvidos, inventados, tal e qual Francisco, personagem do “Mar Morto”, um velho mestre aposentado que a mãe d’água deixou escapar. 
Também me entrego às lembranças das viagens feitas nos saveiros de vela de içar. Somente duas, mas determinantemente inesquecíveis.  Uma no Nuvem Azul, saveiro de Bitonho que dividia a cana do leme com Tuzinho,  na década de 70, indo pelo mar, do cais da feira do jardim Cruzeiro para Mutá. Era bela tarde de verão de vento farto. O Nuvem Azul deslizava. Em dados momentos, rápidas manobras de velas a nos fazer mudar de lado para contrabalançar peso. Para completar tinha as conversas dos homens do mar, caninha em canequinha de esmalte e feijoada preparada a bordo em fogareiro de carvão. Tinha a nossa juventude achando tudo maravilhoso. Daquela vez só faltou o café que curiosamente eles preparam sem coar, bastando jogar uma brasa dentro do café pronto para decantar o pó. 
 A segunda viagem, mais recente, foi no famoso Sombra da Lua (patrimônio cultural brasileiro tombado pelo Iphan), indo do Porto da Pedra a São Roque do Paraguaçu pelo Rio Guaí, com mestre Jorge no comando.  Ao contrário da outra, a tarde era nublada e de soareia, obrigando o bordejo em ziguezague na caça de vento e até mesmo varejadas em alguns trechos. O saveiro indo lentamente parecia se espreguiçar sem nenhuma pressa em chegar. E um percurso que normalmente dura duas a três horas, durou seis. Até bom, dando tempo para se ver bem a paisagem passante, para conversa fiada, para sonhar,  para aprender a não ter pressas e a se deixar reger pelos ventos. O sol se pôs deixando laivos alaranjados a se extinguir. O friozinho veio trazendo a lua a fazer caminho pro saveiro avançar. Neste momento foi servido o aipim cozido que havia sido colhido na hora do embarque. E a nave ia, ia bordejando dentro da noite. Como agora ia minha alma nas esteiras daqueles dois saveiros passantes, já distantes, nesta manhã de verão no canal de Itaparica.

19.01.2019





domingo, 27 de janeiro de 2019



COISAS DA ILHA 1 – ALGUMAS NOTA



No Ferry-boat Zumbi dos Palmares apinhado, ar condicionado sem funcionar, um calor dos infernos e de repente alguém em alto e bom som anuncia ventilador ecologicamente correto. A voz se aproxima e surge o vendedor de leques. No rosto  o sorriso e nas mãos vários coloridos leques abertos. Ao notar a curiosidade de uma senhora, para diante dela e a abana com o leque dizendo que era um “teste driver”. E o mau humor dos suarentos passageiros se desfaz em risos. Como diria Fernando Pessoa. “Assim a brisa / nos ramos diz, / sem o saber,/ uma  imprecisa,/ coisa feliz”.

***


O céu estava cinzento, mas não o suficiente para reter os raios do sol de modo que assim que chegamos à praia dos tamarindeiros – na baixa-mar ali era o melhor lugar para o banho – nos aboletamos nas cadeiras debaixo de um sombreiro. Pedimos o de beber ao menino da barraca, nos dispondo a exercitar a nobre arte de não fazer nada, tão glorificada por João Ubaldo Ribeiro.  Ficamos bestando, conversa mole, olhando o entorno. Dois meninos bem pequenos disputavam uma bola, o tempo todo dominada pelo o de sunga azul, restando ao outro apenas as malogradas tentativas de alcançá-la. 
Apareceu uma menina oferecendo acarajés. Logo outra mocinha chegou também oferecendo acarajés, quase atropelando a concorrente. Não gostamos do modo dela e confirmamos o pedido com a primeira. Bebemos, tomamos banho, catamos alguns plásticos da areia da praia, os acarajés chegaram. Ainda não tínhamos acabado de comer a porção dos mágicos bolinhos de feijão quando a segunda vendedora reapareceu trazendo num pratinho uma amostra do seu produto, dizendo que era para a gente experimentar a qualidade dos acarajés  e numa próxima vez dar preferência a ela.
Provamos e aprovamos e quando ela voltou novamente não podemos dispensar o elogio. Os acarajés dela eram melhores sim. A cabocla sorriu e entabulamos longo bate papo. Eficiente na jogada de marketing e do empreendedorismo, ela também se revelou mulher de garra, que cuida de marido, filho, casa, vende acarajés, faz faculdade de gastronomia e ainda executa esporadicamente serviços de soldagem. Apesar da pouca idade tem grande experiência profissional como soldadora, tendo trabalhado para algumas empresas terceirizadas da Petrobrás. E além de tudo é uma boa contadora de história, nos deliciamos com os casos do seu velho pai forte, teimoso e mulherengo.

***


Belíssima manhã de janeiro. Agora sozinha chego ao Jardim dos Veranistas, ou dos Namorados, como queiram. O mar está naqueles dias em que se excede em beleza, como diria o Sr. Vital. Verde azulado, transparente e calmo. Só no meu coração as ondas crescem, ondas de amor que sempre se formam diante do bem e do belo. Aproximo-me da beira do cais. A maré está vazando, mas a coroa e a praia ainda estão cobertas, água chegando até a base da murada. Olho a escadinha dupla. De dentro do mar, um homem que comanda a brincadeira de três meninos me alerta para descer pelo lado direito, o mais seguro, onde os degraus estão em bom estado e tem corrimão.
Digo-lhe que estava apenas procurando lugar para deixar a saída de praia.  Então ele fala para eu pôr a roupa na bicicleta dele, ali encostada. “Ninguém bole não”.  Prontamente atendi e entrei no mar. Andei, andei, procurando maior fundura, mas a água não passava da cintura. Mergulhei, boiei mirando o azul celeste mais-que-perfeito. Felicidade. Mais uma vez a constatação de quão pouco se precisa para se ser feliz. A vontade era ficar, ficar, ficar, porém com o sol quase a pino era preciso sair. Sempre é preciso sair de algum lugar ou de algo. E andei de volta. O dono da bicicleta estava agora ao pé da escada. Comentei que embora o desejo fosse de continuar ali gozando daquela maravilha, tinha de ir porque estava sem protetor solar.  E com a mais gentil boa vontade do mundo, ele propõe.
— A senhora quer ficar? Posso mandar o meu neto buscar o protetor solar, moro logo ali na rua detrás.
— Não, precisa não, muito obrigada. — Agradeci maravilhada com tamanha espontânea delicadeza.  Ele ainda insistiu dizendo que era rapidinho, mas afirmei que já curtira bastante. Conversamos um pouco, contou que estava com 28 pessoas em casa, falamos sobre saúde, modo de viver e Itaparica. Segui meu caminho e após primeiros passos encontrei uma senhora que com a mesma espontaneidade puxou conversa, falando sobre filhos, netos, educação e filosofia de vida.  O dia estava ganho, mas teve mais. Despedindo-me dela sentei num banco sombreado para ainda contemplar o mar. E aí, mais uma dádiva, que fica para a próxima crônica.
19.01.2019










quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


A Cainana e o Gordo





No inicio da sempre silenciosa manhã daquele condomínio dentro de uma das últimas reservas ambientais da região, os gritos ecoaram por toda rua. Ela pulou da cama atordoada sem entender o que ocorria. Só percebia, pelo desespero dos gritos, que alguma desgraça estava acontecendo, ainda mais, que de entre o alarido emergia frases aterradoras: “vai morrer”, “Ai meu Deus, vai morrer”, “Acudam, acudam”.  
Descendo as escadas o mais rápido possível encontrou a filha gritando: “Gordo, Goooordo”, “Vai morrer”, “Venha Gordoooo”, “Sai daí Gordoooo”. Sacudindo a vasilha, jogava um punhado da ração no chão da varanda. O Gordo indiferente aos chamados tinha olhar fixo na outra porta de vidro, numa atitude de ataque. Embora fosse difícil imaginar que aquela triste figura pudesse pretender comprar alguma briga, ali estava ele concentrado, pronto para o que desse e viesse, ao alcance de uma tremenda cobra de bote armado.
Triste figura sim, esquálido, esquelético, ralo pelo arrepiado, rígidas pernas arqueadas, olhos esbugalhados. O Gordo de gordo só tem hoje em dia a desmedida ironia. Outrora fora um gato gordo. Começou indo e vindo, não se sabe bem de onde, até se aboletar de vez na nova casa escolhida, talvez por querer companhia dos outros gatos que o receberam bem. Desafia a natureza, sendo mesmo um caso para estudo. Muitíssimo idoso, com problemas de fígado, rins, pulmão, vistas, seu organismo não consegue absorver os nutrientes apesar de comer muito. Devora a ração, não enjeita nada, até banana da terra cozida.
Não se sabe como ele ainda está vivo. É um destes enigmas da natureza. Não há o que fazer mais por ele a não ser dar a assistência carinhosa.  Felizmente não sofre e ainda arrisca uma corridinha toda vez que vai ao banheiro. Noutro dia deu uma carreira nos micos que estavam no chão da área de serviço e voou atrás dos saguins quando estes pularam na árvore. Caiu duma altura de desconjuntar gente sã, mas o danado não teve nada. E, agora acuava a enorme esquisita cobra.
Ao chegar à sala a filha ouviu e viu a enorme serpente saltar se chocando na porta de vidro da frente. Susto grande, mas o pior foi ver que o Gordo corria perigo. Ela arrodeou a casa saindo pela porta do fundo e tentava salvar o bichano. Provavelmente o salto da cobra teria resultado do ataque dele. Estava enrodilhada, o finíssimo rabo tremendo, pescoço inchado, preparada para o bote. E o Gordo aguardando para o pulo do gato como se fosse páreo para uma cobra daquela. Toda preta com rajadas amarelas esverdeadas pelo corpo, devia ter uns três metros.  Era sem dúvida assustadora. Enfim o Gordo se cansou de esperar preferindo a ração. Atendeu aos chamados saindo do alcance da cobra, ufa! Livre do gato, a cobra ainda se sentiu ameaçada, desta feita pela gata que a espreitava através da porta de vidro, e por fim deu o bote contra o vidro. Aquele não era seu dia sorte.
A esta altura a serpente já havia sido fotografada, e a foto enviada a Dr. Moacyr para identificação, enquanto se fazia pesquisas. O Google indicava ser uma Cainana, o que foi logo confirmado pelo veterinário. Não é venenosa, vive solitária, anda quilômetros se alimenta de sapos, ratos, ovos, mas é muito ágil, uma das mais ágeis e é capaz de estrangular animais maiores quando ameaçada.
A gata foi tirada da vista da cobra e a serpente tratou de rapidamente deslizar para jardim, e cair fora traumatizada com as pancadas contra o vidro, a perplexidade do obstáculo invisível e pela ousadia de ser atacada por um bicho decrépito. Mas ela não podia se queixar, pois afinal foi deixada em paz.  E o Gordo, nem te ligo, após refastelar-se com a dose extra de ração, pôs-se a dormir, como de costume, sentado, sustentando todo o corpo no focinho apoiado no chão.