Ipê e Valdomiro
De repente, no
meio da primavera antecipada na segunda quinzena de agosto, o inverno irrompe
com ventos fortes muito frios e alguma chuva a lembrar que a regência do tempo
ainda lhe pertence e que a primavera espere a sua vez. No instante em que nisso
penso, recebo do professor Jonilson a foto de um majestoso ipê amarelo, puro ouro
sobre o azul no enquadramento da foto, a atestar a continuação do inverno,
pois, como se sabe, os ipês são árvores invernais.
E justo no momento que
contemplo a foto, recebo a notícia da morte de Valdomiro Santana. Meu amigo escritor,
ensaísta, amante das artes e de tudo que é bom, belo e toca a alma. Questionador,
crítico severo, às vezes intransigente, a ponto de fazer inimizades, mas sempre
autêntico a inspirar confiança. Podia dele se discordar, mas jamais dizer que tivesse
dois pesos e duas medidas. Não se furtava de dizer o que pensava para agradar
ninguém, nem ao melhor amigo, nem à maior autoridade.
Por isso mesmo, eu muitas
vezes submeti meus escritos à sua apreciação e quando da organização do meu
livro de crônica pedi a ele que fizesse a revisão e me ajudasse na seleção e
ordenamento das crônicas. Isso porque eu sabia que ele faria com isenção,
apontando erros, sem nenhuma concessão, como aliás, o fez. Mas, para além do
rigor com que impunha seu senso crítico e defendia seus pontos de vista ele era
sensível e afetuoso em essência. Comovendo-se com facilidade e derramando
ternuras. Como demonstram as mensagens do extenso carteado que mantivemos.
Ante a bela foto do
ipê e a triste notícia, naquele estado indefinido entre a incredulidade, pasmo
e lembranças, recorri ao arquivo das mensagens de e-mails que me enviava. E na
primeira que li, aleatoriamente, ele contava que tivera um sonho em que eu aparecia
como um ipê de onde saia inúmeros pássaros coloridos. E essa coincidência dos
ipês da foto e do email com a notícia da sua saída desse mundo deu o que
imaginar. Continuei lendo os e-mails em que se revela o intelectual erudito e
perfeccionista no seu modo de ser gentil e afetivo. Numa dessas mensagens ele assim
graceja falando coisa séria:
“Um gesto meu,
bem pueril, me ocorreu agora: mandar fazer uma faixa (fundo branco e letras em
vermelho e verde) e colocá-la na entrada do condomínio onde você mora: EU GOSTO
DE VOCÊ. Não colocaria seu nome, para não individualizar, e assim essas
quatro palavras luminosas serviriam para aquecer por dentro muitas pessoas, no
sentido de torná-las menos egoístas e mais ternas. Muita gente se perguntaria:
quem botou essa faixa aí? Quem é esse EU e quem é esse VOCÊ? E essas quatro
palavras virariam uma epidemia em outros condomínios. Iriam se espalhando, se
espalhando, ganhando espaços, bocas, ouvidos, corações. Teriam o poder de um
poema de Quintana e de um de Cecília juntos, já pensou?”
Em outra
mensagem, voltando ao mesmo tema, diz: “As quatro palavras mais importantes
para qualquer ser humano são: "Eu gosto de você". O afetivo é o
efetivo. É o que fica. Sem isso a vida não vale nada. Quando uma pessoa ouve
essas quatro palavras, ela se ilumina por dentro e por fora. Ilumina-se
e pulsa. Toda a experiência humana gira em torno dessa expectativa, da
recepção que daí pode advir, do que flui uma pele para a outra pele.”
E em mais uma mensagem, explica seu processo de criação, deixando
evidente a aplicação do rigor a si
próprio: “ Na verdade, me dou à escrita
literária em doses homeopáticas. Reescrevo mais do que escrevo. Horas e horas,
dias, cortando, limando, curtindo o som de uma palavra, revirando-a,
experimentando mil coisas com ela, seu jogo na composição de uma frase
etc.” E por ai vai, e por aí vou pinçando trechos reveladores, mas que não
cabem no espaço de uma crônica.
Voltando à foto
do ipê. Lembro da lenda, que Valdomiro bem gostaria saber, se é que não sabia. Conta-se que quando Deus estava preparando o mundo, reuniu todas as
árvorese pediu que cada uma escolhesse a época em que gostaria de florescer e
embelezar a Terra. Foi aquela folia. Alegremente diziam: “Outono”, “verão”,
“primavera”. Mas nem uma vez se escutou alguma dizer inverno. Notando isso,
Deus parou a reunião e perguntou por que ninguém escolhia o inverno. Cada uma
tinha sua razão: “porque o inverno é muito seco!” “E muito frio!” “E tem muitas
queimadas!
Então Deus falou:
“Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno, que seja
corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas. No inverno, também a Terra precisa de flores para embelezar o
ambiente dos homens....” Silêncio... Todas as árvores calaram-se. Foi
então que uma árvore quietinha lá no fundo, falou: “Eu vou! Eu quero
florescer no inverno”. Sorrindo Deus perguntou qual era o nome dela. E ela
disse se chamar Ipê.
E enquanto as outras árvores se mostravam surpresas com a coragem do Ipê em querer florescer no inverno. Deus decretou: “Por atender meu pedido farei com que você floresça no inverno não só com uma cor, mas com muitas cores para que também no inverno o mundo seja colorido. Terás diferentes cores e texturas e sua linhagem será enorme”. E assim, uma das mais lindas árvores que existem dá cor e diminui a melancolia ao inverno cinzento.
Acredita-se que fechar os olhos e imaginar um Ipê-amarelo favorece a cura do corpo e da alma. E eu tendo um belíssimo ipê amarelo diante dos olhos, a ele recorro em busca de alento para a tristeza que me vai na alma nesse instante de perda de mais um amigo querido.





















