quinta-feira, 31 de janeiro de 2019


COISAS DA ILHA 2 – VISÃO MÁGICA



  
Após ganhar o dia com um maravilhoso banho de mar numa belíssima manhã de janeiro e com a gentil espontaneidade de pessoas desconhecidas, sentei num banco sombreado para ainda contemplar o mar. E aí, fui ainda mais agraciada com a visão dos saveiros de vela de içar.
Os magníficos saveiros entravam no canal. Provavelmente viam de Salvador, rumo a Cacha Prego ou Maragogipe ou Maragogipinho ou Jaguaripe.  Dois de uma só vez, quando ver apenas um hoje em dia é o mesmo que achar trevo de quatro pétalas, ou um cavalo marinho.  Garantia de sorte. No caso, sorte de ver a poesia viva. Sim, o saveiro — esteticamente perfeito nas linhas do casco determinadas pelo graminho e no formato das velas de sensuais ondulações — é poesia materializada. Poesia largada ao vento e à destreza dos mestres saveiristas de tantos causos, como os contados por Jorge Amado no romance Mar Morto, recém lido.
Como Álvaro de Campos na “Ode Marítima” deixo-me levar pela visão das embarcações com suas sedutoras velas pandas e também entro no delírio que as coisas do mar provocam quando longamente observadas.  Entrego-me ao devaneio e vivo histórias. Enfrento tempestade. Como o Mestre Memeu, passo a noite toda agarrado ao que sobrou do saveiro naufragado, esperando por socorro. Ponho-me no lugar da mulher que de olhos fitos no mar aguarda seu homem chegar. Com esforço hercúleo iço a grande vela com a carangueja.  Sou viúva do mestre que Janaína levou a percorrer mundos sem fim. Vejo os cabelos de Janaína estendidos no rio em noites de lua cheia. Amo e sou amada sobre o tijupá sob o céu estrelado. Canto cantigas praieiras para ninar o meu homem ou estimulá-lo a vencer a corrida de saveiros. Vejo o cavalo assombrado que em certas noites escuras cavalga pelas margens do rio. E também conto causos da gente do mar, vistos, ouvidos, inventados, tal e qual Francisco, personagem do “Mar Morto”, um velho mestre aposentado que a mãe d’água deixou escapar. 
Também me entrego às lembranças das viagens feitas nos saveiros de vela de içar. Somente duas, mas determinantemente inesquecíveis.  Uma no Nuvem Azul, saveiro de Bitonho que dividia a cana do leme com Tuzinho,  na década de 70, indo pelo mar, do cais da feira do jardim Cruzeiro para Mutá. Era bela tarde de verão de vento farto. O Nuvem Azul deslizava. Em dados momentos, rápidas manobras de velas a nos fazer mudar de lado para contrabalançar peso. Para completar tinha as conversas dos homens do mar, caninha em canequinha de esmalte e feijoada preparada a bordo em fogareiro de carvão. Tinha a nossa juventude achando tudo maravilhoso. Daquela vez só faltou o café que curiosamente eles preparam sem coar, bastando jogar uma brasa dentro do café pronto para decantar o pó. 
 A segunda viagem, mais recente, foi no famoso Sombra da Lua (patrimônio cultural brasileiro tombado pelo Iphan), indo do Porto da Pedra a São Roque do Paraguaçu pelo Rio Guaí, com mestre Jorge no comando.  Ao contrário da outra, a tarde era nublada e de soareia, obrigando o bordejo em ziguezague na caça de vento e até mesmo varejadas em alguns trechos. O saveiro indo lentamente parecia se espreguiçar sem nenhuma pressa em chegar. E um percurso que normalmente dura duas a três horas, durou seis. Até bom, dando tempo para se ver bem a paisagem passante, para conversa fiada, para sonhar,  para aprender a não ter pressas e a se deixar reger pelos ventos. O sol se pôs deixando laivos alaranjados a se extinguir. O friozinho veio trazendo a lua a fazer caminho pro saveiro avançar. Neste momento foi servido o aipim cozido que havia sido colhido na hora do embarque. E a nave ia, ia bordejando dentro da noite. Como agora ia minha alma nas esteiras daqueles dois saveiros passantes, já distantes, nesta manhã de verão no canal de Itaparica.

19.01.2019





4 comentários:

  1. Que boas recordações veio em suas lembranças, da fase de adolescente!

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  2. verdade sim! e muito obrigada pela sa visita e comentário

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  3. Peguei carona no seu deleite daquela viagem no veleiro que partiu do cáis do Jardim Cruzeiro. Se não me falha a memória, eu estava nessa maravilhosa aventura. Enquanto você se deleitava,eu mergulhava na minha adolescência, vivida no bairro do Jardim Cruzeiro, cenário das minhas mais densas memórias, que estou há algum tempo resgatando, até como terapia. Com certeza o cáis, as marés e as palafitas deste local serão cenários de muitos enredos,alegres e dramáticos, que compõem a história da população que invadiu as marés e seus arredores, protagonizando cenas marcantes e dramáticas,
    mas também momentos sublimes e inesquecíveis. Você será a crítica e apresentadora.Topa?

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    1. Oi Evanice, com certeza você estava nesta aventura. Claro que topo fazer a apresentação e já esperando os originais para ler. Vou lhe ligar.

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