DIA LINDO
Não sei como
estará o dia em que esta crônica for lida. Mas hoje o dia está lindo. Agora,
neste exato momento, o dia está lindo. Nem quente nem frio, nem particularmente
primaveril, outonal, estival ou invernal, mas, amalgamando todas as estações no
que elas têm melhor, está perfeito, mais-que-perfeito. E quando o dia está
assim, não se pode ficar triste. Pensar, falar, lembrar de tristeza é pecado
mortal, como também o é, deixar de dizer, de escrever, de gritar aos quatros
ventos, que o dia está lindo! E por estar desta maneira, luminosamente plácido,
com as cores avivadas, vontades fora de moda emergem do recôndito da alma.
Então... Então,
de repente, é muito importante, muito urgente, ficar a ver o vagaroso vagar das
alvas nuvens. É preciso dar as mãos e sair por aí, pelas estradas do sol, inteiramente
livre de dores e anseios passados, presentes e futuros. É preciso cantar, não para espantar mágoas nem
cativar ninguém, é preciso cantar sem razão alguma, tão somente é preciso
cantar, como é premente também sorrir, dançar, abraçar, dar bom dia a torto e a
direito, abrir a janela para que a libélula largue de se debater contra a vidraça,
ou salvar a formiga duma pocinha. De repente, os olhos umidificam-se perante a rosa
branca em par com o róseo botão semiaberto ou a com a delicadeza do sebinho
saltitando de galho em galho, ou do minúsculo colibri verde sorvendo néctar. Tudo
porque o dia está lindo.
Porque o dia
está lindo, todos os amigos de todos os tempos, inclusive os que são só
memória, podem de reunir num imenso
piquenique na clareira entre frondosas árvores limosas, ou debaixo dum denso coqueiral,
como os existentes outrora, diante do mar azulíssimo. Novos amores podem nascer ou antigos amantes
se reencontrarem e se desmancharem em ternuras inteiramente esquecidos do quê
os fizeram se apartar. A beleza do dia invade os corações e já não há nenhum
inimigo ou desafeto, assim como não há mais ninguém se achando feio. Todos são
Narcisos sem narcisismos, pois os semblantes que se refletem nos espelhos é a
alegria que lhes vai ao âmago enternecido com tanta formosura do dia. O mais casmurro dos casmurros sorri, os
doentes levantam-se e andam e os velhos com seus netos seguem as filarmônicas
que passam em direção aos coretos das praças.
E porque o dia
está lindo, todas as crianças são anjos de candura e obediência que apenas
sorriem, acarinham, brincam em quintais e, nas salas de espera, nos cinemas,
mercados, shoppings, mantêm-se quietas e silenciosas, sem pular, berrar,
espernear, esbarrar, aporrinhar. E não só as crianças, também os adultos sabem
se comportar em lugares públicos, sem incomodar quem está por perto, de modo
que é possível alguém ler enquanto espera ser atendido pelo médico. Aliás, porque o dia está lindo, todos os
aparelhos de TV das clínicas, bancos, bares, restaurantes, que mais contribuem
para o barulho e para impedir os diálogos, desapareceram. Na verdade, os próprios
estabelecimentos empresariais (tudo que tem teto e parede) sumiram, ou, ao
menos, estão vazios, porque dia assim pede varandas, praias, jardins, parques,
espaços abertos, onde a beleza do dia esplende e comove.
E comovidas, as
caçambas de areia param de desmanchar as dunas, as vastas, altas dunas, de
Busca Vida e Jauá, que tanto o Movimento Paranapiacaba, lutando contra a
ganância de uns e omissão e indiferença de outros, insiste em preservar. E
porque o dia está lindo, as matas, mesmo as pequenas, circunscritas ao
condomínio, são deixadas, em paz, livres dos megaprojetos imobiliários
escudados em atividades espirituais ou de oferta de míseros empregos. Ante a
gratuidade de tamanha beleza os escudos ficam transparentes e o dinheiro deixa
de ser prioridade. E os tamanduás-mirins, as raposas, as lebres, as corujas,
todos os bichinhos da restinga festejam o prolongamento da vida silvestre, acompanhados
por um sem número de coloridos e canoros passarinhos, os grande partícipes da lindeza
do dia.
Comovidos, todos
os carros de, ou com, som, que tanto perturbam o sossego alheio, são desligados.
Cônscio do ridículo e da grosseira falta de educação, ninguém mais quer convencer,
se impor ou se mostrar através da potência dos seus alto-falantes. E os sons
que se ouve são suaves adágios e árias: o azulado solo de violino dos sanhaços;
a cantata do vento nas folhagens; o sibilar das cigarras; o rumorejo das ondas
ao espraiar-se nas praias ou batendo nas pedras dos cais; o cantar de
passarinhos; uma voz em acalanto cantando longe, longe; um estalar da vagem que
se abre para a semente cair; o castanholar das asas da rolinha fogo-apagou no
alçar voo; o assovio do chefe mico em chamamento do bando.
Comovidos muitos
se põem com afinco a limpar os rios para que possam novamente espelhar o céu,
onde, em meio às nuvens refletidas, deslizam barcos e pedalinhos em passeios
nos dias bonitos como este; e o Rio Joanes, sobretudo em sua foz, volta a
exibir refulgentes azuis no seu
serpentear por sobre e por entre areia branquinha, sem mais conspurcar a também
esplendorosa praia de Buraquinho. Comovidos, homens, mulheres, crianças saem atrás
dos rastros humanos a catar lixo largado à-toa, a plantar árvores e flores, a
pintar casas e prédios. Tudo reluz e o dia fica ainda mais bonito. O reluzir
toca fundo, chega à essência divina de cada um, reacende a centelha que anima o
ser. Então, todos descobrem em si, a ilimitada capacidade de amar irrestritamente
e intensas ondas amorosas se formam em cada coração e transbordam e se mesclam
e, enfim a fraternidade universal vigora.





