quarta-feira, 20 de dezembro de 2017



Numa certa manhã joalheira



A manhã se revela em lápis-lazúli. Por ordem dos mistérios dos processos criativos, esta frase é a primeira coisa que me vem à cabeça ao acordar. E o mais intrigante, vem como início da crônica que teria de fazer. Antes de pegar no sono, tinha levado bom tempo tentando encontrar um tema. Muitas ideias ocorreram, sem se sustentarem ou se desenvolverem. Mas em momento algum pensei em pedras preciosas, muito menos em lápis-lazúli. Para falar a verdade, pouco sabia sobre esta rocha gema. Nem da sua cor característica estava segura, apenas intuía ser azul. Então por que a sentença surgiu assim, direcionando a crônica para joias, cores, luzes e agudas reflexões?
Cedo ao que chega. Com o prazo se extinguindo não há como me fazer de rogada ou demorar em especulações. E para evitar leviandades, corro a pesquisar. Logo nas primeiras garimpagens, encontro o que seria uma resposta à minha indagação.  No artigo, “A poesia na óptica da Óptica”, a escritora portuguesa Maria Estela Guedes explica:
Tal como o pintor escolhe as tintas, e o jardineiro as flores segundo o seu colorido, também o poeta visa a beleza com os mesmos elementos. Porém as tintas do poeta não são substâncias vermelhas ou azuis, e o poeta pode gostar do lápis-lazúli sem saber qual exatamente a cor do lápis-lazúli, porque os sons da palavra têm um colorido especial ao ouvido: é a própria palavra "lápis-lazúli" que o encandeia e transporta para os domínios do maravilhoso, se bem que nenhuma cor seja mais profundamente bela que o lápis-lazúli — e esta observação merecia um capítulo próprio na questão do método, acerca da individualidade de cada olhar sobre as cores”.
Realmente, os sons desta palavra têm colorido especial ao ouvido, encanta e conduz ao reino do maravilhoso. A própria frase, “a manhã se revela em lápis-lazúli” poderia ser considerada um verso. Então, no meu inconsciente residiria um poeta? Ou, tão só, fazendo as vezes de médium, teria captado o sopro de algum espírito desencarnado? 
Sem dúvida é uma palavra poética, tanto pela sonoridade (cabe observar a pronúncia correta de lazúli, com acentuação no zú e não no lá), como pela beleza da pedra azul escura, cambiando para o violeta, da lazurita, tendo, mais ou menos, salpicos brancos da calcita e grãos dourados da pirita. Não havia, pois, como deixar de ser presença marcante na literatura universal. “Muita poesia sumeriana e acadiana faz referência ao lápis-lazúli como uma gema própria de esplendor real.” Diz a enciclopedia.
Um dos mais famosos poemas do irlandês William Butler Yeats, ou simplesmente, W. B. Yeats, como costumava assinar, intitula-se justamente “Lápis-lazúli”. A partir da escultura chinesa do século XVIII em lápis-lazúli que recebeu de presente do amigo Harry Clifton no seu septuagésimo aniversário, o autor medita sobre o papel da arte em um mundo essencialmente trágico.
Também o poeta português Antonio Nobre emprega a fascinante pedra azul (significado literal do termo em latim) para acentuar as magnificências do seu quimérico palácio de fidalgo provisório, assim exclamando na primeira estrofe no poema “O meu Condado!”: No campo azul da alada fantasia / Edifiquei outr´ora, por meu mal, / Castelos de oiro, esmalte e pedraria, / Torres de lápis-lazúli e coral.”
Voltando à manhã, não há como negar que ela se revela em lápis-lazúli. Afinal esta é uma das pedras do mês. A outra, é a turquesa, também azul, mas em outro tom. Embora nesta história de pedras do mês e dos signos não haja unanimidade (basta consultar umas duas fontes diferentes pra constatar), fico com o velho “Novo Tesouro da Juventude”, que sustenta esta versão. Ao menos nesta nossa latitude e longitude, dezembro é adequadamente o mês de intensos azuis, Azuis com que o verão se reinaugura; azuis com que se fazem os ânimos na estação da luz; azuis com que se revestem as lições do mestre festejado neste momento.
Os azuis descansam, confortam, pacificam, relaxam, elevam a alma e induzem à contemplação. Os olhos estendidos nos azuis se entregam aos devaneios e, mesmo estando em terra firme, mesmo dentro de uma rede numa varanda, eles vãos de barquinho a vela viajando por mundos insuspeitos.
Os sacerdotes egípcios acreditavam que meditando na profundidade das tonalidades dos azuis, conseguiam penetrar nos mistérios da vida, estabelecendo contato com os deuses. Como se pode ler num site da Internet, “o azul assinala a entrada nos domínios mais profundos do espírito e uma das suas qualidades mais sutis é a aspiração. Essa cor faz parte do espectro frio e, por sua quietude e confiança, promove a devoção e a fé. O azul é uma cor popular associada ao dever, à beleza e à habilidade. A serenidade dessa cor traz consigo paz, confiança e sentimentos curativos agradavelmente relaxantes”.
Daí que para os adeptos da cristalologia terapêutica, a lápis-lazúli é uma gema de contemplação e meditação por excelência, “atraindo a mente para o interior à procura de sua própria fonte de poder. Dispondo de grandes propriedades de cura e purificação, estimula a clareza mental e o senso de força, vitalidade e virilidade. Aumenta habilidade psíquica e revigora o corpo durante o crescimento espiritual. Expressa o verdadeiro Eu.”
Vejo que ao sair do sono, minhas pálpebras abriram a arca do tesouro, pois dei de cara com uma manhã joalheira. Muitas são as gemas, sobretudo jades e esmeraldas das folhagens e algumas pérolas em forma de nuvens, mas todas incrustadas no imenso cabochão azul de lápis-lazúli, que assinala a entrada nos domínios mais profundos do espírito.                                    


Dez. 2009
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Cantoria na UTI


        Amanheceu ainda na UTI cantando baixinho. Afinal eram muitas as razões para cantar naquela manhã. A claridade que se infiltrava entre as frestas das cortinas nas janelas altas era indício de que o dia estava belíssimo naquela antevéspera da primavera e em dias assim cantar é um imperativo. Após meses e meses de conturbadas esperas e apreensões, apesar dos penosos transtornos antes do procedimento cirúrgico, ela estava bem, sem dores, esperando a hora de ir embora. Era um renascimento e para celebrar a vida cantava. Além disso, as desconhecidas e invisíveis vizinhas de um lado e do outro, precisavam de alento. Então cantava.
      Cantava em surdina cantigas que falavam de volta das flores e da esperança, da beleza da vida, do sol que ilumina passos e faz esquecer dores e tristezas, da beleza do amanhecer. Estava sem comer há mais de 30 horas. O jejum de oito horas se estendeu com o atraso advindo da pane do aparelho para realização do exame imprescindível. Entre providências e ditos, uma funcionária do hospital muito profissionalmente compenetrada explicou que o aparelho não estava quebrado, apenas não funcionava. Marcada para às 13 horas, a cirurgia só começou no início da noite e o café dia seguinte só chegou na UTI depois das 9h.
      Além da fome, a perna onde entrara o cateter ainda estava imobilizada embora já tivesse passado do tempo de ser liberada. Mas ela cantava. Àquela altura, descobrira que não tomara um medicamento importante prescrito para meia-noite. Deixaram de dar, sem nada dizer, simplesmente porque tal remédio não era disponibilizado na farmácia do hospital. Questão só resolvida quando a médica chegou e assim mesmo com a ajuda da boa vontade de uma técnica de enfermagem. Tinha dois acessos na mão e outro no pescoço que limitava o movimento da cabeça e incomodava. Só no momento da retirada viu que estava com um cateter de 20cm enfiado na jugular, tendo levado três pontos para segurá-lo ali. Mas logo ia se livrar de tudo isso, sobretudo das arritmias que a levaram àquela situação. Diante desta perspectiva, após tanta apreensão, percebendo que o dia lá fora era azul, sentindo vontade de confortar as companheiras de UTI que ainda ficariam, só podia cantar, relevando totalmente os últimos incômodos. “Manhã, tão bonita manhã / Na vida, uma nova canção”.
       Sua voz não tinha nada de especial e cantava baixinho, para si mesma. Mas cantava vendo as flores desabrochando, as nuvens passando e bordando o céu muito azul com formas primorosas. Cantava vendo “os pingos da chuva do dia anterior ainda brilhando, ainda bailando ao vento alegre”. Cantava andando por veredazinhas iluminadas pelo sol. Cantava ouvindo passarinhos, crianças rindo, rios fluindo, mar murmurejando. Cantava incorporando em si a pacificada beleza do amanhecer. Cantava com o coração feliz e a alma elevada. E a vibração dos sons assim entoados reverberava no ambiente e na própria cantora. As outras pacientes aquietadas pareciam dormir confortavelmente e logo apareceu uma fada madrinha na figura da técnica de enfermagem Graça, que se pôs a cuidar da cantora com carinho e alegria e até penteado fashion improvisou usando a touca enrolada como prendedor de cabelo, que realmente deixou-a com melhor aparência. Entre gracejos e beijinhos ia e vinha tudo fazendo para melhorar a condição. Também outras, com o mesmo astral, se juntaram em certos cuidados como na retirada dos acessos. No final, o clima era de festa numa célula da UTI naquela manhã do Dia da Árvore. E até à saída do hospital foi tratada com mimos pela moça que a levou na cadeira de roda, pelo porteiro ajudando-a a entrar no carro.
    Enfim, lisonjeada, gratificada, feliz, mentalmente continuou cantando: “Vê o sol iluminando / por onde nós vamos indo”. E “porque são tantas coisas azuis/ e há tão grandes promessas de luz/ tanto amor para dar/ de que a gente nem sabe”. “Canta meu coração / alegria voltou / tão feliz na manhã deste amor”.


DOCE DE ABACAXI E CANTO DE SABIÁ

 

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Enquanto à beira do fogão Noêmia vigia o ponto, o cheiro do doce de abacaxi impregna a casa toda. E a casa já não é esta casa, ainda que seja tão antiga quanto àquela. E o tempo já não é este tempo. E a menina toda em festa, inebriada pelo aroma do doce, saltita de um lado pro outro, mal podendo esperar pelo fim do cozimento, ansiosa e feliz. Aquele era um tempo de impressões fortes e felicidades fáceis. A calda encorpa, as rodelas douram-se, o cheiro acentua-se e a menina quer saber se já pode provar.
Ainda teria de esperar esfriar. “Doce quente faz mal”, lhe dizem. Aquele era também o tempo em que as coisas “faziam mal”, e sem que se soubessem bem qual e porque, as pessoas se resguardavam. Abacaxi era uma destas coisas malignas, como a manga com leite, o passar debaixo de escada, vestir roupa pelo avesso, guarda-chuva aberto dentro de casa, derramar sal. E o pai não permitia que se comesse abacaxi ou tomasse suco ou sorvete. Só o doce era consentido. Inda bem, porque aquilo era um manjar dos deuses que a mãe, agora à beira dos 102 anos, naqueles idos fazia com maestria.
Sem saber de química ou alquimia, ela não entendia como a fruta brava deixava de “fazer mal” quando virava doce. Chegava a duvidar de tamanha malignidade, ainda mais ao passar, no fim de ano, pela Rampa do Mercado, ou alguma outra feira livre, sendo envolvida pelo aroma agridoce do abacaxi maduro misturado aos das outras frutas da época, manga, caju, umbu; ainda mais quando via pessoas, inclusive amigas, comendo a fruta sem que nada lhes acontecesse. Duvidava, mas, por via das dúvidas, não se arriscava a experimentar nem longe da vigilância dos pais. Naquele tempo, os pais sabiam das coisas e não era nada fácil fazer por detrás deles aquilo que não fariam nas suas presenças. Desobedecer, enganar, causar decepção provocavam inquietação de espírito, davam remorsos. 

Precisou ficar adulta para poder se deliciar à vontade com o fruto que tem cheiro, gosto e o frescor de verão, embora agora dê o ano inteiro. Mas os temporãos não são tão balsâmicos e gostosos. O cheiro vindo da cozinha chega também à varandinha lateral com vista para as altas velhas mangueiras. Como a menininha de outrora, não vê a hora de provar o doce de abacaxi. Enquanto aguarda, na imobilidade que a forte crise do nervo lhe obriga estar estirada na espreguiçadeira, vai devaneando ao vagar dos sentidos.  Além do cheiro do doce, o recital de um sabiá, ou seria uma sabiá, que já dura um quarto de hora, conduz a outro divagar por momentos menos remotos, porém também já idos quando a espreguiçadeira ou a rede cabia mais de um.

No avançado da primavera os sabiás cantam a partir da madrugada, por volta das quatro horas. Ainda hoje, ouvindo o concerto matinal lembrou-se de uma conversa de sabiás, que certa feita ouviu, numa ocasião como aquela, junto à janela do quarto.  Interrompendo o recital entre as ramagens do pau-brasil, o  laranjeira indagou da parceira:

— Esta não é a mesma janela de dias atrás?

— É sim

— Mas cadê aqueles dois, que acordados cedinho ficavam a se mimar e a nos ouvir?

— Acho que agora, dos dois, restou apenas um.

— O que terá havido em tão pouco tempo? Pareciam tão passarinhos!...

— Talvez só a típica inconstância humana.

— É, não vale a pena entender os humanos. Cantemos.

E cantaram louvando a beleza do amanhecer. Cantaram acalentando o coração solitário. E a cantoria continuou, como a de agora à tarde que já dura cerca de meia hora e acentua a gostosura do doce de abacaxi, enfim servido por Noêmia.

 

Itaparica, 9 de nov. 2017

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O inverno que chega

Após um belo breve veranico de fim de outono, as chuvas intensas caindo sonorosas nos telhados, nas árvores, nos cimentos humanos e na terra agradecida são clarins do inverno que chega amanhã.  Um poeta diria que os céus choram as dores do mundo, mas um amante preterido diria que os céus penalizados choram as suas mágoas, e dito isto sentiria aumentar a intensidade das chuvas que lhe saem dos olhos.  
Em meio a dor o rejeitado constata que em tempo de saudade toda miudeza é lembrança ardente: o marisqueiro que passa mercando siri de mangue, traz a lembrança da varanda com arcada de pedras onde se comia siri com o perfeito pirão. As escadinhas do cais, a rede na varandinha, o mar diante da praça, o fim de tarde na praia dos tamarindeiros e tantas e tantas minudências ganham significado além do real e faz sofrer. Para isso servem os momentos de bondade, beleza alegria, para se tornarem lembranças ardentes no tempo da saudade. Mas além das saudades do vivido há as saudades do que faltou viver. E as chuvas de fora e de dentro aumentam.
Todavia as chuvas caem alheias a qualquer dor. Caem porque é este o destino das nuvens pejadas de água, desaguarem assegurando a continuação da vida biológica no planetinha azul. Lembrar dessa verdade é ficar feliz com as chuvas e também com as próprias lágrimas, porque desanuviam mágoas, lavam a alma e o coração. Como diz a canção “chore, que a tristeza/ foge do seu olhar”. E o olhar limpo é mar calmo de baía espelhada a refletir outros olhos e convite a novas travessias.  E já o amante enjeitado trata de transmutar a nostalgia.
Então, vai tomar chocolate quente, ler poesia, ouvir algo como abertura de Peer Gynt a pô-lo a navegar por fiordes de longínquas terras de memória atávica e a se dar conta de que o enigma e a diversidade da vida não merecem as lágrimas dos apaixonados. Compreende que o amor verdadeiro não confrange o amado com lágrimas grades e, ademais, “Pra que chorar/ Pra que sofrer/ Se há sempre um novo amor/ Em cada novo amanhecer”. Canta. E aí concentra o pensamento nas coisas ruins para se consolar com o fim, para não se angustiar diante do que se foi, para não sofrer além do razoável. E aí se concentra também nas coisas boas para se consolar com o vivido, não mais para lamentar, mas para ser grato à vida pelas alegrias tidas. E sente a alma se elevar.
As chuvas continuam caindo, o friozinho se instala, porém não mais os céus choram as dores do mundo nem as dores de amante descartado. Agora sendo apenas o que são sem metáfora ou analogias. E o coração grato e reconfortado contempla a cortina d’água que desce das beiradas do telhado, o verde esperança das folhas lavadas a adejarem ao vento. E o coração em sossego emana ondas e mais ondas de amor, que o põe em estado de graça e, alçando os espaços, vai, vai proteger seu bem-querer. E assim será por todo inverno que se inicia.
Itaparica 20 de junho 2017

quinta-feira, 29 de junho de 2017



NA FILA DO BOLO


O Pai, a filha e o marido da filha chegaram cedo, mas já encontraram a fila grande naquela manhã de 23 de junho. Como se sabe, brasileiro adora fila e não perde oportunidade  de formar uma: se a bilheteria do estádio ou do teatro vai abrir às 10 horas, desde as cinco a fila começa a se formar. Longe de ser entediantes as filas para os nascidos no país abençoado por Deus e bonito por natureza serve de catarse, ali se reclama da razão da fila, dos preços, do governo, dos jogadores; ali se discute a última partida de futebol e se conta piada, fala-se da própria vida e das alheias.  E se for daquelas que varam a madrugada bem provável “rolar” um sambinha e virar um forrobodó. Nas filas podem acontecer quase tudo e naquele dia não seria diferente.
Também todo mundo sabe que um bom baiano no São João não dispensa canjica, amendoim cozido, milho cozido, milho assado, pamonha de milho ou carimã e, sobretudo os bolos de aipim, carimã, milho e tapioca. Porém, como diria Caymmi, “o trabalho que dá pra fazer é que é”. E em tempo de redes sociais, “ninguém quer saber do trabalho que dá”, inda mais quando são achados prontos nos mercados, padarias, delicatessen ou lojas de venda de bolo que viraram moda e proliferam em todo canto. Portanto não era de se estranhar que onde o pai, a filha e o marido chegaram ainda cedo, a fila estivesse tão grande estendendo-se pela rua. Já começavam chegar vendedores de cafezinho, de água, amendoim cozido e torrado, pipoca, cachorro quente e até cerveja. Que eles têm o dom de surgirem do nada onde há filas e engarrafamentos.
Lá de trás vinha, de algum celular,  a voz de Luiz Gonzaga cantando “Ai que saudades que eu sinto / Das noites de São João / Das noites tão brasileiras na fogueira / Sob o luar do sertão... provocando doces recordações aos mais velhos, saudosamente comentadas, levando outros a condenarem a descaracterização dos festejos atuais do forro carnavalescamente eletrizado. Mas, na frente a voz de um senhor idoso sobressaia sobre tudo, fazendo gracejos, pilheriando. Empolgado consigo mesmo, lá para tantas imprudentemente proclamou bem alto:
— A fila está grande porque as mulheres preguiçosas de hoje em dia não querem mais fazer bolo.
De imediato, do meio da fila ecoou a estridente indignação da filha que estava ali com o pai e o marido:
— Os homens também podem fazer bolos, por que não fazem?
— Porque gostam de pegar fila. – Completou a senhora vizinha.
O senhor da frente riu, outros mais riram.  O pai da mocinha enfezou a cara por achar que a filha estava arranjando confusão.  O marido pôs as barbas de molho. O machista falador se calou por reconhecer a mancada que dera ou por simples medo de ser linchado, porque embora com poucas palavras simples, sem conter nenhuma ofensiva, fora dita de tal forma com firmeza inconteste a fazer calar e tremer qualquer machão numa fila com muitas mulheres.