Andanças - 1
Ignorando
as instituições humanas os primeiros dias de outono continuam sendo de verão.
Houve uma chuvinha, é certo, mas apenas para lavar as folhas e deixá-las refletir
melhor o intenso azul do céu. Isto apesar dos últimos tempos estarem trevosos
com alastramento da insensatez por todo mundo avivando o fascismo e nazismo e
no Brasil a ideologia Temer a nos fazer tremer e temer o futuro.
Assim no mundo, assim na vida
pessoal, quando entre tantas coisas dá-se o embate com o Plano de Saúde ao se
precisar fazer uma cirurgia. Então a gente lembra dos versos de Vinicius de
Moraes, “Mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade.”
E cantamos e saímos por aí a cata de encantamentos para animar os corações e
suavizar a atmosfera, porque ninguém resisti muito tempo às tristezas
continuadas, porque, como se sabe, cantar espanta os males e “um pouco de
beleza, é uma alegria para sempre".
Saímos com Linda e Rosana Coutinho, Elisabeth
Pardo, conduzidas por Willian (sic) por nossa Ilha afora, nos deliciando com o
que vemos e descobrimos nos pequenos mundinhos que quase não aparecem nos mapas
ou jazem esquecidos, ainda bem, da turbulência da fria civilização tecnológica,
onde se tem tudo menos a serenidade, onde se tem tudo, menos tempo para o que
realmente importa.
E numa manhã azul chegamos à Barra
do Paraguaçu, onde a beleza e o sossego fizeram morada, o que levou Linda a
indagar, “o que se faz aqui?”. Logo mais ela teria a resposta. Não se via casas
comerciais nem outros serviços. Via-se largos espaços arborizados à beira do
mar de translúcidas águas calmas que recuam na maré baixa para dar lugar às
vastas coroas de areia, campo de mariscagem e de prolongamento do silêncio. Ah!
o silêncio. Debaixo de uma frondosa amendoeira estavam as mesas e cadeiras do
único restaurante, com clientes tranquilos. Em pleno domingo de sol forte,
nenhum som das sofrências, pagodes, paredões e de outras misérias
enlouquecedoras que assolam na Bahia.
Mais
adiante, na parte em que carro não entra, um conjunto de casas coloridas é
acréscimo do pitoresco. Ali, defronte de um quiosque à moda de coreto
encontramos um velho pescador bem aprumado apesar da muita idade. Debaixo do chapelão de palha o sorriso ilumina
o dia mais ainda, e animado, mas pachorrentamente fala do lugar, das pescarias,
da sua vidinha. Lembra o dia em que ainda pequeno levou um corte de facão no pé
que deixou o dedo dependurado. A falta de assistência médica não foi problema:
o pai correu ao quintal, tirou água do caule da bananeira, colocou na ferida,
amarrou o pé e logo ficou bom sem nem sequer ficar marca.
Conta lendas como a fonte milagrosa que existe
perto do cemitério. É só beber da água para alcançar as graças queridas e
também se manter forte e saudável. Ele mesmo sendo comprovação disso, exibindo
jovialidade e saúde. Conversa boa, mas queríamos ver mais. Tiramos fotos, nos
despedimos e fomos adiante. Adiante, o encontro das águas do Rio Paraguaçu com
o mar sob antigo cais tendo obelisco em homenagem à Maria Quitéria e um
farolete. Voltamos, almoçamos à sombra da amendoeira diante do mar e em quietude
contemplativa.
E coroando o passeio, uma surpresa. Na hora de
pagar a conta, indo passar o cartão no interior do restaurante, no outro lado
da rua, nos deparamos com um mundão de flores, de arranjos florais em galhos e
cipós, mandalas e outros objetos, primorosamente feitos de conchas e escamas.
Era o artesanato, mais que isso, a arte de Adelaide. Ela engenhosa, hábil e
criativamente usa conchas de lambretas, vieiras, tacaraúnas, tarioba, unha de
noiva, mãozinha, sururu, ostras e mais, unha de peguari, osso de baleia e
escamas, combinando os diversos formatos e as cores próprias das conchas para
compor suas peças.
Foi
também neste momento que Linda teve resposta para sua indagação inicial: “O que
se faz num lugar como este?”, pois ficou sabendo que além de criar suas obras
de arte, Adelaide tem agenda cheia a semana toda, realizando trabalhos com a
comunidade: aulas de artesanato, curso de inglês, atividades diversas com
idosos entre outras, tudo no voluntariado. Não há dúvida, Barra do Paraguaçu é um
pedacinho do mundo não apenas belo pela natureza, mas também por sua gente
sorridente, afável que sabe viver na paz da simplicidade e da solidariedade.




