sexta-feira, 19 de maio de 2017



FLANANDO E SONHANDO EM ITAPARICA

Uma das coisas boas da vida é flanar, flanar, por exemplo, à noite pelas perfumadas ruas sossegadas da cidade de Itaparica. Itaparica tem disso sim, ruas quase desertas, onde muitas vezes só se ouve o ruído dos próprios passos, ou até, se não se duvidar, o pisar flanelado dos fantasmas; tem  castanheiras nas calçadas e jasmineiros nas varandas das casas de muros baixos com suas flores a incensarem o sereno.
            Houve época em que não havia casa sem jasmineiro para perfumar os serões nas varandas ou nos passeios. Nas movimentadas e ou perigosas ruas da metrópole tais costumes desapareceram, mas Itaparica ainda conserva os jasmineiros nos jardins e cadeiras nas calçadas, assim como as aconchegantes praças, as simpáticas casas antigas cheias de personalidade e caráter forte, além de muitas outras peculiaridades, a começar por ser a maior ilha do Brasil e a única estância hidromineral à beira-mar. 
Bastava apenas uma característica para ser um polo de turismo famoso no mundo todo, mas Itaparica, num só município é cidade histórica, é estância hidromineral e um dos mais belos balneários que há no mundo, com mar de calmas águas transparentes, paisagem estonteante em Porto dos Santos, Manguinhos, Ponta de Areia e a orla da sede. Teve a primeira armação de baleia das Américas, uma Santa heroína nas lutas da Independência, mulheres que venceram homens de guerra com simples galhos de cansanção, solar que abrigou três reis; Tem tamarindeiros seculares plantados em homenagem aos filhos da terra que foram lutar na Guerra do Paraguai e araçazeiro na areia da praia. Tem reserva ecológica com águas milagrosas do beato que tinha bem-te-vi a lhe seguir.  Tem tanto que desperdiça.
 E enquanto vou flanando pelas noturnas ruas cheirosas, entrego-me ao devaneio e vejo tudo muito limpo e bem cuidado, vejo lixeiras em todo canto, areia da praia sem copos, pratinhos e sacos plásticos. Vejo pintores com cavaletes nas calçadas tentando reproduzir os magníficos pores-do-sol; Vejo quarteto de cordas, corais, cantadores,  grupos de samba de roda se apresentando nas praças arborizadas e floridas. Vejo turistas entrando no Forte de São Lourenço, transformado em interativo Museu do Mar com seções de embarcações do recôncavo, de conchas e búzios, das baleias e golfinhos, tendo lojinhas vendendo livros de Ubaldo Osório, Xavier Marques e João Ubaldo Ribeiro, guia Turístico, postais, camisas e outras lembranças da terra. Vejo leitores nos jardins e nas salas da Biblioteca reformada sem mais telhado calorento. Vejo a Casa de João Ubaldo, onde ele nasceu,  sendo frequentada por estudiosos e curiosos do mundo todo. Vejo o Museu da Independência funcionando no Solar dos Reis. Vejo vários festivais artísticos culturais acontecendo o ano todo na cidade e também no melhor mar para navegação do planeta. Vejo as ruas centrais sem carros, substituídos por veículos não motorizados. Vejo a orla sem os monstrengos prédios de três andares ou modernosas casas em meio ao conjunto arquitetônico tradicional, sobretudo, vejo as casas sem muros altos. Vejo agradáveis bares e restaurantes defronte do mar com música suave e baixa, condizente com o ambiente. Vejo a Fonte da Bica sem poluição, tendo chafarizes no mesmo estilo da fonte original. Vejo a população laboriosa satisfeita com suas atividades econômicas, orgulhosa da sua cidade, feliz com a qualidade de vida que levam. E de tanto ver em devaneios, um dia hei de ver em tempo e espaço real.

domingo, 16 de abril de 2017





Andanças - 1

            Ignorando as instituições humanas os primeiros dias de outono continuam sendo de verão. Houve uma chuvinha, é certo, mas apenas para lavar as folhas e deixá-las refletir melhor o intenso azul do céu. Isto apesar dos últimos tempos estarem trevosos com alastramento da insensatez por todo mundo avivando o fascismo e nazismo e no Brasil a ideologia Temer a nos fazer tremer e temer o futuro.
            Assim no mundo, assim na vida pessoal, quando entre tantas coisas dá-se o embate com o Plano de Saúde ao se precisar fazer uma cirurgia. Então a gente lembra dos versos de Vinicius de Moraes, “Mais que nunca é preciso cantar/ é preciso cantar e alegrar a cidade.” E cantamos e saímos por aí a cata de encantamentos para animar os corações e suavizar a atmosfera, porque ninguém resisti muito tempo às tristezas continuadas, porque, como se sabe, cantar espanta os males e “um pouco de beleza, é uma alegria para sempre".
            Saímos com Linda e Rosana Coutinho, Elisabeth Pardo, conduzidas por Willian (sic) por nossa Ilha afora, nos deliciando com o que vemos e descobrimos nos pequenos mundinhos que quase não aparecem nos mapas ou jazem esquecidos, ainda bem, da turbulência da fria civilização tecnológica, onde se tem tudo menos a serenidade, onde se tem tudo, menos tempo para o que realmente importa.
            E numa manhã azul chegamos à Barra do Paraguaçu, onde a beleza e o sossego fizeram morada, o que levou Linda a indagar, “o que se faz aqui?”. Logo mais ela teria a resposta. Não se via casas comerciais nem outros serviços. Via-se largos espaços arborizados à beira do mar de translúcidas águas calmas que recuam na maré baixa para dar lugar às vastas coroas de areia, campo de mariscagem e de prolongamento do silêncio. Ah! o silêncio. Debaixo de uma frondosa amendoeira estavam as mesas e cadeiras do único restaurante, com clientes tranquilos. Em pleno domingo de sol forte, nenhum som das sofrências, pagodes, paredões e de outras misérias enlouquecedoras que assolam na Bahia.
Mais adiante, na parte em que carro não entra, um conjunto de casas coloridas é acréscimo do pitoresco. Ali, defronte de um quiosque à moda de coreto encontramos um velho pescador bem aprumado apesar da muita idade.  Debaixo do chapelão de palha o sorriso ilumina o dia mais ainda, e animado, mas pachorrentamente fala do lugar, das pescarias, da sua vidinha. Lembra o dia em que ainda pequeno levou um corte de facão no pé que deixou o dedo dependurado. A falta de assistência médica não foi problema: o pai correu ao quintal, tirou água do caule da bananeira, colocou na ferida, amarrou o pé e logo ficou bom sem nem sequer ficar marca.
 Conta lendas como a fonte milagrosa que existe perto do cemitério. É só beber da água para alcançar as graças queridas e também se manter forte e saudável. Ele mesmo sendo comprovação disso, exibindo jovialidade e saúde. Conversa boa, mas queríamos ver mais. Tiramos fotos, nos despedimos e fomos adiante. Adiante, o encontro das águas do Rio Paraguaçu com o mar sob antigo cais tendo obelisco em homenagem à Maria Quitéria e um farolete. Voltamos, almoçamos à sombra da amendoeira diante do mar e em quietude contemplativa.
 E coroando o passeio, uma surpresa. Na hora de pagar a conta, indo passar o cartão no interior do restaurante, no outro lado da rua, nos deparamos com um mundão de flores, de arranjos florais em galhos e cipós, mandalas e outros objetos, primorosamente feitos de conchas e escamas. Era o artesanato, mais que isso, a arte de Adelaide. Ela engenhosa, hábil e criativamente usa conchas de lambretas, vieiras, tacaraúnas, tarioba, unha de noiva, mãozinha, sururu, ostras e mais, unha de peguari, osso de baleia e escamas, combinando os diversos formatos e as cores próprias das conchas para compor suas peças.
Foi também neste momento que Linda teve resposta para sua indagação inicial: “O que se faz num lugar como este?”, pois ficou sabendo que além de criar suas obras de arte, Adelaide tem agenda cheia a semana toda, realizando trabalhos com a comunidade: aulas de artesanato, curso de inglês, atividades diversas com idosos entre outras, tudo no voluntariado. Não há dúvida, Barra do Paraguaçu é um pedacinho do mundo não apenas belo pela natureza, mas também por sua gente sorridente, afável que sabe viver na paz da simplicidade e da solidariedade. 



quinta-feira, 6 de abril de 2017











Gentileza

Gentilmente o pássaro preto me acordou cantando bem junto a minha janela. Evidente que esta não era a intenção da avezinha. Na certa se comunicava com os parentes ou simplesmente louvava a vida. Mas a carência de gentileza, nestes tempos do meu pirão primeiro, é tão sentida que apraz crer nesta doce ilusão. Mesmo porque a gentileza é assim, como o feliz cantar despropositado de um pássaro à nossa janela de manhã cedo: um raio de sol a incidir no coração, enchendo-o de energia e alegria.
O dia todo fica iluminado quando logo cedo se recebe, seja de quem for, um amistoso bom-dia, uma deferência qualquer, especialmente, um sorriso sem aparente motivo, tão só o abrir-se à cordialidade. “É bom deixar / um pouco de ternura e encanto indiferente / de herança, em cada lugar”. Dizia Cecília Meireles. Haverá gratificação maior do que ser, espontaneamente sem alarde, um agente da fraternidade? A genuína gentileza faz feliz a quem recebe e quem a oferece. Opera milagres, abre portas, neutraliza animosidades, elimina conflitos, facilita o entendimento, melhora as relações, principalmente porque “um gesto gentil também desencadeia reações similares em cadeia”, frisa a jornalista Eliane Brum no artigo Gentileza gera gentileza.
A este propósito, corre na internet a historia de um executivo que se surpreende ao ver seu amigo agradecendo e elogiando o comportamento corriqueiro do motorista de taxi. Questionado, o amigo responde que está na Campanha da Gentileza explicando: o taxista ganhou o dia com o que eu disse. Imagine agora que ele faça vinte corridas hoje. Vai ser gentil com todas as 20 pessoas que conduzir, porque alguém foi gentil com ele. Por sua vez, cada uma daquelas pessoas será gentil com seus empregados, com os garçons, com os vendedores, com sua família. Sem muito esforço, posso calcular que a gentileza pode se espalhar pelo menos em mil pessoas, num dia” Em seguida acrescentou que pretendia agir assim com todas as pessoas que encontrasse naquele dia,  e se,  ao menos, três delas ficassem felizes, ele estaria influenciando as atitudes de um sem número de outras. E, se ninguém se sensibilizasse, não importava. “Para mim, não custou nada ser gentil”, concluiu
O valor da gentileza também pode ser aquilatado pela sua ausência. Muito da irritação, do cansaço, da dor de cabeça, da intolerância, da gastrite, da ansiedade, do estresse de todo dia advém da falta de gentileza de uns para com os outros. Do bom dia que não foi pronunciado, do por favor, com licença, muito obrigado, desculpe que não foram ditos, da ajuda negada, da impaciência no trânsito,  do pedido de informação negado ou dado de má vontade, dos telefonemas não atendidos, da música alta e da voz estridente em qualquer canto, do atendimento desleixado, dos maus modos, das palavras ásperas, do e-mail não respondido, da crítica destrutiva,  da cara de mau, do sorriso economizado, do elogio omitido, da postura defensiva.  “Uma soma de pequenos e desnecessários gastos de energia que só serviram para nos intoxicar”, diz Eliane Brum, observando ainda que: “se cada um de nós fizer uma reconstituição mental do nosso dia, hoje mesmo, vai perceber que o pior dele foi causado porque não foram gentis conosco nem fomos gentis com os outros.” Portanto, não cabe se fazer de vítima, pois não é só a indelicadeza do outro que nos atinge, mas também a que praticamos ou não, devido ao efeito bumerangue. Bom é retribuir uma indelicadeza com a gentileza, evitando-se o círculo vicioso. Pode-se mostrar que não se gostou da maneira como foi tratado sem ser indelicado.
Ser gentil é uma atitude existencial. Gentileza é um modo de agir, um jeito de ser, uma maneira de enxergar o mundo. Ser gentil, portanto, é um atributo muito mais sofisticado e profundo que ser educado ou meramente cumprir regras de etiqueta, porque embora possamos (e devamos) ser educados, a gentileza é uma característica diretamente relacionada com caráter, valores e ética; sobretudo, tem a ver com o desejo de contribuir com um mundo mais humano e eficiente para todos. Ou seja, para se tornar uma pessoa mais gentil, é preciso que cada um reflita sobre o modo como tem se relacionado consigo mesmo, com as pessoas e com o mundo.” É o que enfatiza Rosana Braga no artigo Invista no poder da gentileza.
 Talvez aí esteja a explicação para a escassez da gentileza atualmente. Na era do individualismo exacerbado, ninguém enxerga ninguém. Recentemente um cientista fez um estudo interessante. Vestiu-se de gari e ficou a limpar os corredores da universidade. Ninguém o reconheceu. Nenhum colega ou aluno deu um bom dia ao servente que limpava a área que eles usavam. Outra experiência semelhante confirma a cegueira das pessoas: um concertista, aplaudidíssimo em suas apresentações nos teatros, resolveu tocar violino numa gare de metrô e igualmente passou despercebido dos transeuntes. A este respeito, vale ler outro trecho de Rosana Braga:
“A rotina nos cega, costumo dizer. Pressionados por ideias equivocadas, que nos pressionam a ter sempre mais, a cumprir prazos sem nos respeitarmos, a atingir metas que, muitas vezes, não fazem parte de nossa missão de vida e daquilo em que acreditamos, nos tornamos mais e mais insensíveis. E nesta insensibilidade, vamos agindo e nos relacionando com as pessoas —  mesmo com aquelas que amamos — de forma menos gentil, mais apressada e mais automatizada, sem nem nos darmos conta disso. É por isso que, a meu ver, ser gentil não pode depender do outro, não pode ser uma moeda de troca, tem de ser uma escolha pessoal, um entendimento de que podemos fazer a nossa parte e contribuir, sim, para um mundo melhor. Leonardo Boff tem uma frase maravilhosa que resume bem o que quero dizer: ´Não serão nossos gritos a fazer a diferença e sim a força contida em nossas mais delicadas e íntegras ações´.”
Pertencendo à família do amor, ou sendo um dos seus estágios iniciais, a delicadeza sempre gera delicadeza. Por isso o Espírito Meimei disse que "o primeiro degrau do Paraíso chama-se gentileza" (apud Noeval de Quadros no artigo O Poder da Gentileza). E não se trata só do Paraíso Celeste de depois da morte, mas também o Éden Terrestre, pois com a continuada e expandida melhoria das relações se fará um mundo gentil. E um mundo gentil certamente se constitui num Paraíso. Comecemos por reparar quem está ao redor e seguir a regra de ouro: “trate o outro como gostaria de ser tratado”. Aprendamos a ver qualidades e ter sempre a intenção de ser cordial e espalhar alegria.

Jul. 2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2016



Instante na Varanda





Entre o ventinho que passa e a luz que incide, tremeluzem as folhas das enormes mangueiras antigas. Dir-se-ia que o tempo do sol voltou, embora não tenha desaparecido no outono e inverno de poucas chuvas e bastante calor. Mas afinal é primavera. Girando no espaço infinito, o Planeta está mais próximo da estrela em torno da qual gravita. 
Dir-se-ia que o tempo é de luz e promissão. Sim, o céu e o mar azulam mais,  há maior brilho e calor, as mangueiras já anunciam safra farta apesar das sucessivas mutilações que sofrem  e as flores desabrocham embora cada vez em menor quantidade com o fim dos jardins. A luz e as possibilidades estão aí, mas seguramente este não é um tempo de esperanças.
 Motivos para descrenças não faltam, pelo contrário, até excedem no atual momento histórico, quando há tanto retrocesso político-social no país; quando a bestialidade das guerras continua sem sinal de fim; quando as pessoas são robotizadas num mundo virtual; quando crianças sem infância são idiotizadas de todas as formas, desde os brinquedos prontos, passando pelos livros de conteúdo utilitário sem valor estético e encantatório da verdadeira literatura e o artificialismo tecnológico a que são submetidas ainda bebês.
Mas como manter a esperança é preciso para continuar existindo na Terra, recuso-me a tratar desses motivos.  Dizem os sábios que se deve focar no que se deseja e não naquilo que não se quer. Portanto, nesta tarde de sábado, com ventinho ameno, recostada na espreguiçadeira trato de achar “razões de quimera” como na canção Brisa da manhã de Mario Espinheira que também diz que “a brisa tece uma ilusão / de brisas vive o coração”.
E nem é preciso muito procurar porque uma borboleta entra na varanda, dá algumas voltas em torno de mim fazendo me sentir uma flor. E como é bom se sentir flor, mesmo uma florzinha silvestre ignorada pelos cultivadores de rosas ou simples desatentos transeuntes. Afinal as flores são apenas flores sem qualquer propósito além de viver, de ser o que são, livres de teorias, opiniões e gostos. 
Ademais há uma gata que dorme no colo depois de massagear o estomago e a barriga alheia.  De repente, sem que o sol se apague, cai uma chuvinha tão fininha, mas tão fininha que mais parece xixi de passarinho. E como veio, rápida se foi, se estivesse sedenta no deserto diria ter visto uma miragem. Mas a realidade é atestada por um sutilíssimo cheiro de terra molhada, sutilíssimo porque chuvisquinho tão tênue  mal deve ter tocado ao solo, sendo interceptado pela folhagem mais baixa.
Os passarinhos disputam as bananas e milho quebrado no muro em frente. A própria varanda, com suas arcadas de pedras e histórias para contar, é raio de sol nos tempos de trevas. E os alumbramentos da primavera passada ainda persistem na memória, iluminando coração.  Então, parodiando a canção da dupla Oscar Castro Neves e Luvercy  Fiorini, canto porque a beleza volta a me encantar.  
Encantada imagino que um novo mundo é possível. Um mundo gentil, fraterno, sereno, sempre luminoso, mesmo quando o sol está escondido atrás de nuvens e névoas, porque a luz está nos corações sabiamente amorosos e amoráveis.  E lembrando a amorosa e amorável Cecília Meireles, eu digo: Sim, eu canto, “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. /Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta”.