sábado, 27 de janeiro de 2018



Numa Íntima Noite


 

No primeiro dia do ano a primeira lua cheia, recém-saída do mar, soberana navega dourada num céu sem nuvens ou estrelas. Vai, ergue-se, levada pelo ventinho manso vindo da maré vazando, que também faz os coqueiros se espreguiçarem. E a noite, é noite de Lorca e se torna íntima. Íntima nos mistérios aos quais somos integrados, íntima nas saudades todas que afloram.
Sobre a escrivaninha há uma única rosa branca se abrindo no jarrinho estreito e nela a lembrança de alguém muito querido, agora distante nas montanhas. E como outrora, a imagem da rosa conduz ao mundo transcendental. E neste mundo há uma casinha encravada numa colina toda verde, com alpendre de madeira debruçado sobre plácida enseada lá embaixo. Há uma chuva de estrelas, sobre uma escura estradinha de barro entre matos numa noite de aniversário. Há uma rede numa varanda em meio aos aromas da coirana, eucalipto e almêcega.
Há banho nas escadinhas da comprida cascatinha, sob a espreita de gnomos.  Há também corpos abraçados à beira-mar fustigados pelo noturno forte vento marinho. Há lua cheia nascendo vermelha do mar em praia deserta ou vista da janela do ônibus acompanhando o casal em viagem e muitas e muitas luas em diversas situações de enlevo e êxtases. Lua que fazia quem dizia não cantar, cantar: “lua bonita se tu não fosses casada/ eu pegava uma escada/ ia lá no céu te beijar”... Há pombinha avisando que o fogo apagou no amanhecer de risos fáceis. Há o estidular de cigarras se despedindo do verão à hora do ângelus e Luiz Gonzaga fazendo fundo musical para o jantarzinho frugal numa casinha simplesinha, onde se tomava banho de balde com água tirada da cisterna ao cair da noite. E em tudo isso há carinhos e carinhos e carinhos e a felicidade dos corações cheios de amor.
Na intimidade desta noite em que um coração solitário, mas pleno de amorosas companhias, se deixa levar por uma rosa branca que se faz de estrela guia; nesta noite há tudo que é possível conceber. E a memória vai célere de um tempo a outro aleatoriamente, sem cronologia. Avança, atrasa-se, avança mais um pouco, torna a retroceder. Os diversos estratos da existência, que compõe o ser, são remexidos num balanço de vida. Da serenata na Lagoa do Abaeté se vai a chácara com vista para a montanha azul e de lá se passa ao Colégio onde era importante pensar e segue-se de canoa da Ponte do Funil até Barreira de Jacuruna para banhar-se no riacho Cardoso. E neste vaivém há violão e cantoria nas noites sem fins e cantada musical; há o jeep vermelho do belo moreno; há acampamentos na Ilha; há samba de roda e viagens aventurosas; há uns olhos cor das águas, que logo deixaram de alumbrar.
E no pulsar das lembranças no íntimo desta noite há o especial subúrbio com um enorme tamarindeiro no meio a pista por não terem coragem (ou a crueldade) de cortá-lo embora ainda não se falasse em ecologia. Neste subúrbio em seguida à Ave Maria o autofalante tocava valsas de Strauss e o Cine Plaza anunciava o início da sessão noturna de todos os dias com Moonlight Serenade executado pela orquestra de Gleen Miller, enchendo os ares de saudável nostalgia e a comover a romântica menina esperando beijo; Também ali, o jovem casal vizinho ouvia trechos da ópera O Guarani de Carlos Gomes, a amiga Celina gostava de Ray Connifs e nas festinhas da casa do petroleiro se dançava ao som dos Românticos de Cuba, Trio Irakitan e assemelhados. Então, no pulsar da noite íntima assomam questões dignas de dissertação ou tese: por que naqueles tempos os suburbanos ouviam Strauss em autofalantes e pessoas simples (o povo) se deliciavam com boleros, músicas eruditas e músicas orquestradas e agora só escutam excitantes ruidosos porcarias? O que houve com os brasileiros de lá para cá? Ou o que se fez com os jovens e com a cultura nacional?
A lua já passa do zênite e começa a descer rumo ao horizonte do outro lado. As questões começam, as recordações não se esgotam, mas o sono chega e é hora de se integrar ao outro reino dos sonhos.


Itaparica, 11 de janeiro de 2018


Itaparica sempre bela 

 

  

Certa feita escutei do Sr. Vital Santos Souza, dizer que o mar é sempre bonito, só que às vezes, excede. Sim, em qualquer condição de tempo e vento, em qualquer momento o mar é sempre belo. E assim também Itaparica, sempre bela, mas há estações em que excede, como agora em que acácias enchem as ruas de luminosos cachos de ouro, e a explosão vermelha dos flamboyants entre verdes intensos se projeta num céu sem nuvens de azul quase genciana. E ainda tem os rosas das árvores do inicio da Avenida Ruy Barbosa, uma das quais, num ato de rebeldia e originalidade, destoando das suas irmãs, este ano trocou a cor original pelo lilás.
Ah! e este cheiro do mar nesta manhã! Este cheiro, não de sargaços que não é tempo deles, mas da maré vazante, de maresia, menos que isso, de vapor, de relento do mar, ainda que diurno. Este cheiro sutil, que tangido pela brisa penetra em casa, faz se ser feliz sem se saber porque. É a felicidade das coisas simples da vida, que nesta denodada e mágica Itaparica ainda é tão evidente.
A esta hora as marisqueiras  já estão em atividades na Coroa do Limo, na Ilha do Medo, pros lados da Quinta Pitanga e Brasileiro. E elas agachadas ou sentadas na areia úmida cavam a cata de chumbinho também chamado de papa-fumo ou ainda de vôngole usado em moquecas, frigideira ou em pratos mais sofisticados. Algumas preambulam a procura de Maria Preta e outros mariscos de superfície pela longa, longa, longa extensão da coroa de areia deixada pelo mar recuado, onde é bom vagar despreocupadamente, experimentando sensação de liberdade plena, ao menos momentânea. Ali o silêncio e a placidez são quase absolutos e se interiorizam e torna um o flanar em meditação.
Além do mar estão os becos e ruelas; o casario antigo de estilos e idades variadas, que em certos trechos margeam estreitas ruas; as árvores, algumas seculares, esculturadas pelo vento e o tempo; as muitas praças; as históricas igrejas, uma datada de 1610 com seus telhados em tribeiras e alpendre lateral;  a capela nicho da santa heroína da guerra da independência; a fortaleza portuguesa erguida sobre as ruinas holandesas;  o solar dos reis que hospedou pai, filho e neto reais em períodos distintos; o hotel arcado de grandes salões dando para o mar, cujos alicerces soterram vestígios da primeira armação de baleia das Américas e abafa para sempe a pestilência da banha das baleias sendo convertidas em óleo; a casa do imortal escritor; a biblioteca com seus jardins internos; a Praça da Quitanda com seus enormes oitizeiros e castanheiras; o Largo do Campo Formoso bem fazendo jus ao nome; o mercado que já foi colégio; Fonte da Bica com sua curativa água rejuvenescedora; a singular e linda Casa de Cultura e Ética; o chocolate feito com o cacau do quintal; e as históricas eras todas permanecendo na psicosfera da cidade, perceptível em certas horas aos sensitivos, e são muitos os que se tornam sensitivos pelas fortes emanações e se deixam fascinar.   
Sim, Itaparica é sempre bela, mesmo quando as chuvas pintam tudo de cinza, e faz sumir a Ilha do Medo e as ruas deserta se tornam puro deleite dos antigos fantasmas ou simples amantes de sossego. É sempre bela, mesmo quando as cores do crepúsculo se suavizam entre as nuvens, mesmo quando é maltratada e se constroem casas modernosas em meio ao casario antigo ou esdrúxulos prédios na orla, ou se altera a feição da Praça da Bica, ou se substitui pedras portuguesas cor-de-rosa por piso pré-moldado, ou se mutilam e ceifam as árvores, ou quando o barulho agride ouvidos e a paz local e os plásticos maculam praia e a transparência das águas do mar. Itaparica ainda é sempre bela porque, apesar dos pesares, conserva a essência e esta essência há de tocar o coração e a alma dos seus filhos naturais e os adotivos, inflando-os do justo orgulho pela sua terra tão especial. Orgulho que se converterá em amor, amor que cuida, que preserva, que embeleza, que protege, que inspira ações adequadas para deter a tempo a eminente descaracterização, o desperdício de tão primoroso cenário, a perda do bem maior ou a morte da galinha de ovos de ouro.  






Itaparica, janeiro de 2018


Conversa de Sabiá



A sábia sabiá sabia das dores alheias e se pondo no galho mais próximo da janela olhou-me e explicou que a sensibilidade que faz sentir mais as dores, é a mesma que faz sentir mais alegrias. A facilidade de se enternecer e comover-se com minudências é a mesma. Se, se aflige com a mutilação da árvore da esquina, ou ao ver-se passarinhos em gaiolas; também se exulta diante do brilho novo das folhas dos oitizeiros e encanta-se com o canto azuladamente agudo do sanhaço ou ainda reflete sobre as tiradas filosóficas da sabiá laranjeira no amanhecer do segundo dia do ano.
E a sabiá dá uns pulinhos, ensaia voo, mas volta como quem esqueceu alguma coisa e continua a dissertar. Diz que há sim a possibilidade de se sofrer menos, particularmente em certas circunstâncias, fechando-se aos novos amores, por exemplo, cercando-se das muralhas das desconfianças, das prevenções, das prontas generalizações, da contenção dos sentimentos. Mas o estado de defensiva constante acaba por diminuir a vivência de bons momentos, restringindo a alegria de viver, limitando da história de vida. É a velha condição, do isto ou aquilo, ou menos com menos, ou mais com mais.
Com pio repetido que soa com uma risada de ironia, a sabiá, enfim voa e indiferente às questões existencial de quem a ouviu, vai se deliciar com as últimas reluzentes pitangas. Um gato matreiro a observa provavelmente com nenhuma boa intenção. Mas a ave símbolo do Brasil saboreando os frutos, cuja safra logo acabará, decidida a não perder a chance do regalo, ignora o perigo, ou simplesmente não deixa que a ameaça, que enfim não se cumpre, lhe tire o prazer do momento. Sabe que viver é muito perigoso e quem arrisca não petisca.
O gato se estica na mureta de varanda, faz pose e adormece. A sabiá vai agora a cata de manga completamente alheia as reflexões que provoca. Quantos não se privam de pequenos prazeres, como o flanar por ruas desertas de uma perfumada cidadezinha encantadora por medo do que pode, mas não é certeza, acontecer? Muitos e muitos se f3cham detrás de muros altos, cerca elétrica, evitam sair de casa, lançam mão dos mais diversos expedientes, iludem-se para se sentir a salvo. Mas segurança verdadeira não há. E todos os cuidados e os medos viram paranoia abalam a saúde, faz a vida tornar-se, no mínimo, desinteressante.
E enquanto se iludi com a precária segurança física e a defensiva emocional, pouco se cuida do que verdadeiramente importa, dedicar-se à melhoria do ser, cultuando valores mais condizentes ao bom relacionamento, único meio de construção de um mundo melhor. Enquanto continua-se tentando conciliar o inconciliável, em servir a dois senhores, insistindo na concorrência, na disputa de poder e ostentação, no confortite exacerbado, na visão parcial das coisas; enquanto não se enxerga a interdependência de tudo que há no universo; enquanto os homens se acharem donos da terra e dela poder fazer o que bem entender;  enquanto acreditar-se que o inferno são os outros e que em primeiro lugar o meu pirão, ou justificar os excessos de supérfluos e desperdícios com a afirmação de que ganhei o dinheiro como meu esforço e possa fazer com ele o quiser e ninguém tem nada com isso; enquanto não encontrar-se a sensatez e  livrar-se das incoerências;  enquanto não se ver que a vida clama pela simplicidade e cooperação, os problemas tenderão a se agravar e nenhuma criação humana será capaz de deixar ninguém verdadeiramente a salvo de maneira salutar. 
A sabiá (o corretor gramatical insiste em corrigir para o sabiá, mas esta é uma sabiá fêmea com certeza) voltou ao galho perto da janela, mas por hoje basta.   E a crônica que se pretendia poética se tornou um artigo quase panfletário, É no que dá ouvir sabiá.

 Itaparica 02/01/2018


E nasce o Estrela do Mar



Era fim de tarde do dia seis de janeiro de 2018 quando a Praça do Campo Formoso começou a ser tomada por vistosos coloridos e reluzentes reis magos com oferendas, pastorinhas com cestinhas de flores, ciganas com pandeirinhos cheio de fitas. Do mesmo modo vieram os músicos da fanfarra, os cavalos marinhos, a exuberante estrela-guia, a porta-estandarte abrindo alas e a anunciar ao mundo que as utopias, vez por outra, deixam de ser utopia.
Tudo começou na cabeça de Elisabeth Barros Pardo a dinâmica criativa Betinha. Era tão só um sonho e como tal, brumoso e improvável. Um sonho que se formara das lembranças da infância misturado aos relatos dos mais antigos, à religiosidade, à inventividade e o amor pelo lugar onde nasceu pela sua cultura e tradições. Mas ela tem amigas também visionárias, sonhadoras, talvez até um pouco louquinhas, mas que seria do mundo sem a loucura dos artistas? .E estas amigas, tendo à frente Linda Coutinho, de imediato abraçaram a ideia, sem cogitar das dificuldades nem da exiguidade do tempo.
Surpreendentemente ainda é grande a legião dos que creem em varinhas de condão e no poder da vontade e logo todo mundo aplaudiu e se prontificou a promover o resgate do Terno de Reis de Itaparica, após muitos anos desaparecidos. Na primeira reunião, na acolhedora casa de Linda, deu-se a escolha do nome. Repetia-se a história contada na cantiga sobre o romance entre um grãozinho de areia sonhador e uma estrela no céu que resultou no aparecimento da Estrela do Mar. Se na música passaram anos e muitos anos, no caso, a gestação foi curta, mais precisamente, dois meses, até que o Terno de Reis Estrela do Mar fosse com todo garbo, brilhar nas ruas de Itaparica.
Todos queriam, mas o difícil era conseguir reunir o pessoal para os preparativos. Em certa altura foi preciso dramáticos apelos para que a confecção das alegorias e os adereços fosse feita. Ensaio só houve três, um no Campo Formoso e os outros no Jardim do CTL. Contudo não se ficou parado. No curto espaço de tempo foram feitas pesquisas sobre a composição e apresentações de terno de reis, bem como a seleção das músicas, a maioria marchas-rancho antigas e algumas canções típicas de Itaparica lembradas por Lícia, Cosme e Lavínia; gravações das músicas, impressão das letras; procura de músicos e do moto-som; gravações das chamadas; pedido de carrinho elétrico para transportar aqueles impossibilitados de andar por longas distâncias, que infelizmente não deu certo (um porque estava quebrado e outro o dono não quis colaborar), contudo de última hora um carro, mesmo sem ser aberto, foi ornamentado e ninguém ficou de fora por causa disso.
Enquanto as costureiras Suely, Maria da Fátima e Diná se esforçavam para dar conta das caprichadas fantasias, Betinha, Noélia, Vera, Fernanda, Malu, Denise, e Ró se empenhavam, às vezes até tarde da noite, em produzirem ou adornarem, o estandarte, os adereços da estrela guia, as flores de papel crepom, as tiara de flores, os cavalos marinhos, as estrelas do mar, as lanterninhas, as cestas de flores e mais os chapéus dos músicos, 48 pandeiros, 20 lanternas, 11 bambolês, 5 arcos.  E no dia de Reis, lá estavam todos devidamente paramentados e alegres como crianças. Por falar em crianças, elas também estavam presentes junto a alguns jovens, em meio à turma com alguns anos no costado, criando memória futura, garantia de continuidade da tradição, pois enquanto houver memória de alguém as tradições não morrem e podem sair do estado de coma a qualquer momento, como acontecia agora com o Terno de Reis Estrela do Mar.
E lá se foi o bando pelas avenidas, ruas e ruelas de Itaparica, brincando, cantando e dançando ao som das antigas marchas-rancho ecoadas da moto-som de Marcelo e da turma da Fambob comandada pelo professor Antonio Carlos. Iam espalhando alegria por onde passava, atraindo seguidores, causando admiração, surpreendendo, encantando. Aqueles que os recebiam em suas casas eram saudados com cantigas de cheganças “Boas noites meus senhores todos/ boa noite senhoras também”...  de bênçãos, “ que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai”  e também de folia em que não faltavam indiretas: “Estrela do mar/ dança no terreiro/ que a dona da casa/ tem muito dinheiro//  Estrela do mar / dança na calçada/ que dona da casa/ tem galinha assada...” E assim iam mostrando que ainda há espaço para o sonho, a ingenuidade, a singeleza neste mundo de sofisticação, de violência e industrialização cultural. No próximo ano tem mais


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