sábado, 27 de janeiro de 2018



E nasce o Estrela do Mar



Era fim de tarde do dia seis de janeiro de 2018 quando a Praça do Campo Formoso começou a ser tomada por vistosos coloridos e reluzentes reis magos com oferendas, pastorinhas com cestinhas de flores, ciganas com pandeirinhos cheio de fitas. Do mesmo modo vieram os músicos da fanfarra, os cavalos marinhos, a exuberante estrela-guia, a porta-estandarte abrindo alas e a anunciar ao mundo que as utopias, vez por outra, deixam de ser utopia.
Tudo começou na cabeça de Elisabeth Barros Pardo a dinâmica criativa Betinha. Era tão só um sonho e como tal, brumoso e improvável. Um sonho que se formara das lembranças da infância misturado aos relatos dos mais antigos, à religiosidade, à inventividade e o amor pelo lugar onde nasceu pela sua cultura e tradições. Mas ela tem amigas também visionárias, sonhadoras, talvez até um pouco louquinhas, mas que seria do mundo sem a loucura dos artistas? .E estas amigas, tendo à frente Linda Coutinho, de imediato abraçaram a ideia, sem cogitar das dificuldades nem da exiguidade do tempo.
Surpreendentemente ainda é grande a legião dos que creem em varinhas de condão e no poder da vontade e logo todo mundo aplaudiu e se prontificou a promover o resgate do Terno de Reis de Itaparica, após muitos anos desaparecidos. Na primeira reunião, na acolhedora casa de Linda, deu-se a escolha do nome. Repetia-se a história contada na cantiga sobre o romance entre um grãozinho de areia sonhador e uma estrela no céu que resultou no aparecimento da Estrela do Mar. Se na música passaram anos e muitos anos, no caso, a gestação foi curta, mais precisamente, dois meses, até que o Terno de Reis Estrela do Mar fosse com todo garbo, brilhar nas ruas de Itaparica.
Todos queriam, mas o difícil era conseguir reunir o pessoal para os preparativos. Em certa altura foi preciso dramáticos apelos para que a confecção das alegorias e os adereços fosse feita. Ensaio só houve três, um no Campo Formoso e os outros no Jardim do CTL. Contudo não se ficou parado. No curto espaço de tempo foram feitas pesquisas sobre a composição e apresentações de terno de reis, bem como a seleção das músicas, a maioria marchas-rancho antigas e algumas canções típicas de Itaparica lembradas por Lícia, Cosme e Lavínia; gravações das músicas, impressão das letras; procura de músicos e do moto-som; gravações das chamadas; pedido de carrinho elétrico para transportar aqueles impossibilitados de andar por longas distâncias, que infelizmente não deu certo (um porque estava quebrado e outro o dono não quis colaborar), contudo de última hora um carro, mesmo sem ser aberto, foi ornamentado e ninguém ficou de fora por causa disso.
Enquanto as costureiras Suely, Maria da Fátima e Diná se esforçavam para dar conta das caprichadas fantasias, Betinha, Noélia, Vera, Fernanda, Malu, Denise, e Ró se empenhavam, às vezes até tarde da noite, em produzirem ou adornarem, o estandarte, os adereços da estrela guia, as flores de papel crepom, as tiara de flores, os cavalos marinhos, as estrelas do mar, as lanterninhas, as cestas de flores e mais os chapéus dos músicos, 48 pandeiros, 20 lanternas, 11 bambolês, 5 arcos.  E no dia de Reis, lá estavam todos devidamente paramentados e alegres como crianças. Por falar em crianças, elas também estavam presentes junto a alguns jovens, em meio à turma com alguns anos no costado, criando memória futura, garantia de continuidade da tradição, pois enquanto houver memória de alguém as tradições não morrem e podem sair do estado de coma a qualquer momento, como acontecia agora com o Terno de Reis Estrela do Mar.
E lá se foi o bando pelas avenidas, ruas e ruelas de Itaparica, brincando, cantando e dançando ao som das antigas marchas-rancho ecoadas da moto-som de Marcelo e da turma da Fambob comandada pelo professor Antonio Carlos. Iam espalhando alegria por onde passava, atraindo seguidores, causando admiração, surpreendendo, encantando. Aqueles que os recebiam em suas casas eram saudados com cantigas de cheganças “Boas noites meus senhores todos/ boa noite senhoras também”...  de bênçãos, “ que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai”  e também de folia em que não faltavam indiretas: “Estrela do mar/ dança no terreiro/ que a dona da casa/ tem muito dinheiro//  Estrela do mar / dança na calçada/ que dona da casa/ tem galinha assada...” E assim iam mostrando que ainda há espaço para o sonho, a ingenuidade, a singeleza neste mundo de sofisticação, de violência e industrialização cultural. No próximo ano tem mais


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4 comentários:

  1. 👏🏽👏🏽👏🏽 Gilka Bandeira verdadeiramente você é super dotada!

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  2. Muito lindo não deixa a cultura e a memória nossa morre no esquecimento

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  3. Foi um imenso prazer participar dessa alegria.
    2022 estarei presente .

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