quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020


Uma Ilustre visita






         São muitas as visitas surpreendentes que recebemos aqui em casa. Nem falo dos corriqueiros sabiás e sanhaços que chegaram invadir meu quarto mais de uma vez dando  bom trabalho para pô-los pra fora. Nem também dos íntimos micos, família inteira que não para de crescer, e andam pela casa toda, chegando a abrir porta do armário onde temos de esconder as bananas. É mico no telhado, nos alizares das portas, nas janelas, nos degraus da escada, no chão, sem se importarem mais com os gatos. Taí, eu disse que não ia falar dos micos e aí estão algumas linhas tratando deles. E já que cheguei a tanto, permitam-me chegar a um pouco mais.

Outrora, os gatos chegaram a dar alguns desfalques na família dos saguins, mas com a idade, muita almofada, muito dengo e fartura de ração, os bichanos ficaram indispostos para enfrentar a ousadia, cada vez maior, dos macaquinhos. Uma cena inusitada, vista há poucos dias, dá ideia de como andam as coisas. Porta de vidro fechada. Do lado de fora os micos praticamente pedindo para entrar. Do lado de dentro, a gatinha espreitando. Armou o ataque, estendeu o corpo, deu passo em câmara lenta, tremelicou o focinho, tornou a se esticar e pumba, deu patada feroz no vidro. Do outro lado, o mico guinchou, feroz mostrou os dentes. No mesmo impulso que veio, a gata elasticamente voltou assombrada.   
Constantes também são os sapos de todos os tamanhos. Chegam, não dizem nada e se aproveitam das comodidades dos gatos. Comem a ração deles, usam seus bebedouros como piscinas onde passam horas a fio. E tem um, ainda mais folgado, que depois da refeição e do banho, tira soneca numa almofada. Felizmente nem todos visitantes são tão caras de pau. Alguns até se mantêm invisíveis, marcando presença com a voz, como os sofrês e as saracuras que às vezes levam horas em conversas repetidas, uma dizendo trêspotes, trêspotes, trêspotes e a outra respondendo, umcoco, umcoco, umcoco.  Às vezes, sem avisar, aparecem as jandaias e periquitos, que embora barulhentos se mantêm arredios nos seus chamegos. Ariscos também são os teiús, as corujinhas buraqueiras que na ponta das estacas da cerca nos espia, disfarça a bisbilhotice girando a cabeça para trás, crocita, pia e foge se a gente pergunta a que vieram.

Outros visitadores são bem discretos, silenciosos até, como o imponente Alma de Gato que vem se fartar das lagartas de fogo nos cajueiros. E há as raras e rápidas visitas como o do casal de Acauã, de canto tristonho, que veio uma vez, pra nunca mais. Como há também os visitantes assustadores, como a grande cobra caínana cuja presença provocou grande alvoroço, e ainda as indesejáveis cobra coral e a maligna enorme cascavel que chegando à noitinha no jardim picou de morte a gata Rosinha. Como se vê, a casa é bem frequentada. Já recebemos iguana, louva-a-deus gigante, aranha caranguejeira. Raposa e tamanduá-mirim chegaram perto, mas não entraram. Hoje pela manhã recebemos mais um insólito visitante.
Tinha acabado de tomar café, cheguei à porta da cozinha para contemplar a matinha que se conserva atrás de nossa casa e absorver os seus eflúvios. Um movimento nas folhas da moita rasteira me chamou a atenção. Olhei, uma porção do chão parecia se mexer. Apurei as vistas da distância que estava no alto da varandinha. E vi que a tal porção de terra (areia escura) tinha corcova, carapaça com marcas amarelas. Era um simpático jabuti. O humilde quelônio, um dos animais brasileiros em ameaça de extinção, mas de grande significância na nossa cultura.  Famoso personagem astuto e inteligente das histórias indígenas e da literatura em geral, sendo objeto de estudos e até se constituindo num dos mais cobiçados prêmios.
Entre os indígenas é símbolo da esperteza, paciência, perseverança, gravidade e sabedoria, como se vê nas inúmeras narrativas (o jabuti e a fonte, e a anta, e as onças, e o veado, e os macacos, e as raposas, e o homem)  em que  sempre escapa dos perigos e faz os inimigos de besta. E assim passou à literatura e às histórias em quadrinhos. Na Turma do Pererê de Ziraldo é o eficiente mensageiro Moacir. Em Macunaíma de Mario de Andrade, assume até condição de Deus: “No princípio era só o Jabotí Grande que existia na vida”. Nas “Reinações de Narizinho” de Monteiro Lobato aparece também como uma figura vagarosa, mas esperta e obstinada, cheia de ânimo para vencer.
 E terminou virando o Prêmio Jabuti que a cada ano contempla autores, editores, ilustradores, livreiros e gráficos. Conta-se que a ideia foi lançada em 1958 por Edgar Cavalheiro, quando presidia a Câmara Brasileira do Livro (CBL). A escolha do Jabuti foi resultado da influência do modernismo e nacionalismo em voga na época e como uma maneira de homenagear Monteiro Lobato, então muito aclamado, e que valorizava os elementos e manifestações da cultura nacional, inclusive tendo dado vida ao Jabuti como personagem do seu famoso livro.
Portanto nos sentimos muito honrados e felizes em receber tão ilustre figura no nosso quintal. Ele veio vindo, procurando petiscos. Provou restos de maçãs, colocados nos pés de pinha como adubo, mas gostou mesmo foi da casca de melão. Ficamos observando, deixando a visita bem à vontade. Minha filha ofereceu água e pedacinho de melão, que ele experimentou apenas por delicadeza, voltando à casca. Preocupada, ela ficou pensando no que fazer para protegê-lo. Mas se ele chegara àquele tamanho era porque tinha boa condição de vida na matinha preservada além da cerca. Pouco depois, ele se foi por onde veio, atravessando por baixo da cerca. Ainda o vimos andando decidido até sumir atrás das moitas abaixo dos pés de piaçava, deixando, sem saber um rastro de contentamento e uma croniquinha. 

2 comentários:

  1. Como é bom ler suas crônicas, muito linda
    Eu adorei

    ResponderExcluir
  2. Casino Slots Near DC, NV - MapyRO
    Find your nearest Casino 이천 출장안마 Slots 보령 출장샵 and Bet on your favorite 목포 출장안마 Casino games. Play Free Casino Slots, 파주 출장안마 Blackjack, Roulette & more at 동두천 출장안마 MapyRO.

    ResponderExcluir