Uma Ilustre visita
São
muitas as visitas surpreendentes que recebemos aqui em casa. Nem falo dos
corriqueiros sabiás e sanhaços que chegaram invadir meu quarto mais de uma vez
dando bom trabalho para pô-los pra fora.
Nem também dos íntimos micos, família inteira que não para de crescer, e andam
pela casa toda, chegando a abrir porta do armário onde temos de esconder as
bananas. É mico no telhado, nos alizares das portas, nas janelas, nos degraus
da escada, no chão, sem se importarem mais com os gatos. Taí, eu disse que não
ia falar dos micos e aí estão algumas linhas tratando deles. E já que cheguei a
tanto, permitam-me chegar a um pouco mais.
Outrora,
os gatos chegaram a dar alguns desfalques na família dos saguins, mas com a
idade, muita almofada, muito dengo e fartura de ração, os bichanos ficaram
indispostos para enfrentar a ousadia, cada vez maior, dos macaquinhos. Uma cena
inusitada, vista há poucos dias, dá ideia de como andam as coisas. Porta de
vidro fechada. Do lado de fora os micos praticamente pedindo para entrar. Do
lado de dentro, a gatinha espreitando. Armou o ataque, estendeu o corpo, deu
passo em câmara lenta, tremelicou o focinho, tornou a se esticar e pumba, deu
patada feroz no vidro. Do outro lado, o mico guinchou, feroz mostrou os dentes.
No mesmo impulso que veio, a gata elasticamente voltou assombrada.
Constantes
também são os sapos de todos os tamanhos. Chegam, não dizem nada e se
aproveitam das comodidades dos gatos. Comem a ração deles, usam seus bebedouros
como piscinas onde passam horas a fio. E tem um, ainda mais folgado, que depois
da refeição e do banho, tira soneca numa almofada. Felizmente nem todos
visitantes são tão caras de pau. Alguns até se mantêm invisíveis, marcando
presença com a voz, como os sofrês e as saracuras que às vezes levam horas em
conversas repetidas, uma dizendo trêspotes, trêspotes, trêspotes e a outra
respondendo, umcoco, umcoco, umcoco. Às
vezes, sem avisar, aparecem as jandaias e periquitos, que embora barulhentos se
mantêm arredios nos seus chamegos. Ariscos também são os teiús, as corujinhas
buraqueiras que na ponta das estacas da cerca nos espia, disfarça a
bisbilhotice girando a cabeça para trás, crocita, pia e foge se a gente
pergunta a que vieram.
Outros
visitadores são bem discretos, silenciosos até, como o imponente Alma de Gato
que vem se fartar das lagartas de fogo nos cajueiros. E há as raras e rápidas visitas
como o do casal de Acauã, de canto tristonho, que veio uma vez, pra nunca mais.
Como há também os visitantes assustadores, como a grande cobra caínana cuja
presença provocou grande alvoroço, e ainda as indesejáveis cobra coral e a
maligna enorme cascavel que chegando à noitinha no jardim picou de morte a gata
Rosinha. Como se vê, a casa é bem frequentada. Já recebemos iguana,
louva-a-deus gigante, aranha caranguejeira. Raposa e tamanduá-mirim chegaram
perto, mas não entraram. Hoje pela manhã recebemos mais um insólito visitante.
Tinha
acabado de tomar café, cheguei à porta da cozinha para contemplar a matinha que
se conserva atrás de nossa casa e absorver os seus eflúvios. Um movimento nas
folhas da moita rasteira me chamou a atenção. Olhei, uma porção do chão parecia
se mexer. Apurei as vistas da distância que estava no alto da varandinha. E vi que
a tal porção de terra (areia escura) tinha corcova, carapaça com marcas
amarelas. Era um simpático jabuti. O humilde quelônio, um dos animais
brasileiros em ameaça de extinção, mas de grande significância na nossa
cultura. Famoso personagem astuto e
inteligente das histórias indígenas e da literatura em geral, sendo objeto de
estudos e até se constituindo num dos mais cobiçados prêmios.
Entre
os indígenas é símbolo da esperteza, paciência, perseverança, gravidade e
sabedoria, como se vê nas inúmeras narrativas (o jabuti e a fonte, e a anta, e
as onças, e o veado, e os macacos, e as raposas, e o homem) em que sempre escapa dos perigos e faz os inimigos de
besta. E assim passou à literatura e às histórias em quadrinhos. Na Turma do
Pererê de Ziraldo é o eficiente mensageiro Moacir. Em Macunaíma de Mario de
Andrade, assume até condição de Deus: “No princípio era só o Jabotí Grande que existia na vida”. Nas “Reinações de Narizinho” de Monteiro
Lobato aparece também como uma figura vagarosa, mas esperta e obstinada, cheia
de ânimo para vencer.
E terminou virando o Prêmio Jabuti que a cada ano contempla autores,
editores, ilustradores, livreiros e gráficos. Conta-se que a ideia foi lançada
em 1958 por Edgar Cavalheiro, quando presidia a Câmara Brasileira do Livro (CBL).
A escolha do Jabuti foi resultado da influência do modernismo e nacionalismo em
voga na época e como uma maneira de homenagear Monteiro Lobato, então muito
aclamado, e que valorizava os elementos e manifestações da cultura nacional,
inclusive tendo dado vida ao Jabuti como personagem do seu famoso livro.
Portanto
nos sentimos muito honrados e felizes em receber tão ilustre figura no nosso
quintal. Ele veio vindo, procurando petiscos. Provou restos de maçãs, colocados
nos pés de pinha como adubo, mas gostou mesmo foi da casca de melão. Ficamos
observando, deixando a visita bem à vontade. Minha filha ofereceu água e
pedacinho de melão, que ele experimentou apenas por delicadeza, voltando à
casca. Preocupada, ela ficou pensando no que fazer para protegê-lo. Mas se ele
chegara àquele tamanho era porque tinha boa condição de vida na matinha
preservada além da cerca. Pouco depois, ele se foi por onde veio, atravessando
por baixo da cerca. Ainda o vimos andando decidido até sumir atrás das moitas
abaixo dos pés de piaçava, deixando, sem sab er um rastro de contentamento e uma
croniquinha.



Como é bom ler suas crônicas, muito linda
ResponderExcluirEu adorei
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